A startup brasileira que quer pagar você quando uma IA usar o seu conhecimento
RESUMO +
A startup brasileira mybrain.ai, fundada por Marcos Nader, quer criar uma representação digital da forma como as pessoas pensam, decidem e conectam informações. A plataforma reúne documentos, conversas e registros pessoais para construir um grafo de conhecimento individual e permitir que usuários consultem ou, no futuro, licenciem esse conhecimento para aplicações de inteligência artificial.
Uma nova fronteira da inteligência artificial (IA) não está apenas em responder perguntas, mas em entender como cada pessoa chegou às próprias respostas. Essa é a aposta da startup brasileira mybrain.ai, que quer criar uma representação digital da forma como seus usuários pensam, decidem e conectam informações.
Fundada por Marcos Nader, fundador da Nomad, a empresa pretende transformar documentos, conversas, entrevistas e outros registros pessoais em um modelo de conhecimento individual. Em entrevista exclusiva à EXAME, Nader afirma que a ambição é "reproduzir com fidelidade a forma de pensar do usuário" e, no futuro, permitir que esse conhecimento seja licenciado.
A proposta ainda está em desenvolvimento, mas parte de uma ideia: se modelos de IA aprendem com grandes volumes de informação disponíveis publicamente, pessoas também poderiam criar uma espécie de camada digital própria, baseada em sua experiência acumulada.
"Uma ideia solta não tem dono, mas não guardamos uma ideia solta. São textos, falas, entrevistas e, principalmente, a forma como cada pessoa organiza e conecta o que sabe", diz Nader. "Queremos que, quando uma IA usar conhecimento humano, o autor saiba e seja pago por isso."
Uma memória digital que aprende com o usuário
O primeiro passo da plataforma é reunir as fontes de conhecimento de uma pessoa. No primeiro dia de uso do aplicativo, previsto para ficar disponível em outubro para convidados e em novembro para o público geral, o usuário poderá conectar serviços e enviar documentos, links, teses, entrevistas, vídeos e podcasts.
Entre os conectores citados por Nader estão Notion, Google Drive, Dropbox, OneDrive, Obsidian, LinkedIn e Instagram. A empresa também pretende integrar memórias de assistentes de inteligência artificial como ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity e Grok.
A partir desse material, a plataforma cria um grafo de conhecimento, uma rede de conexões entre informações acumuladas ao longo do tempo. A ideia é que o sistema não apenas armazene conteúdos, mas identifique relações entre assuntos, experiências e decisões do usuário.
Outra peça do produto é a Maia, uma agente que funciona como uma espécie de ghostwriter digital. Por texto ou voz, ela entrevista o usuário sobre temas sugeridos a partir do material já reunido ou sobre assuntos escolhidos livremente. Cada conversa passa a alimentar esse mapa de conhecimento.
Nader também diferencia a proposta da mybrain.ai de ferramentas tradicionais de organização pessoal. Para ele, plataformas como Notion e Mem funcionam como blocos de anotação digitais, enquanto a startup tenta interpretar o contexto por trás das informações armazenadas.
"O Notion guarda o que você anotou. O mybrain lê o seu Notion, junto com o resto, e entende como aquilo se conecta com o que você sabe e decide", diz.
Segundo o fundador, a tecnologia da empresa é proprietária e utiliza pequenos modelos de código aberto. Ele afirma que a leitura dos documentos, a construção do grafo e a Maia não passam por modelos da OpenAI ou da Anthropic.
Modelos de terceiros, segundo Nader, só entram caso o usuário escolha utilizá-los. A documentação pública da empresa, porém, apresenta uma descrição diferente para o estágio beta: a página de segurança, atualizada em junho, informa que parte do processamento, incluindo tarefas relacionadas ao grafo e às conversas, ainda utiliza modelos externos.
Nesses casos, segundo a empresa, o conteúdo passa por um processo de "pseudonimização", no qual informações como nomes, CPFs, e-mails e telefones são substituídas por marcadores. A companhia afirma que está migrando esse processamento para infraestrutura própria, mas não informa quais provedores externos são utilizados.
O desafio de proteger uma memória pessoal
O armazenamento de informações pessoais é um dos pontos centrais do modelo. A documentação da mybrain.ai afirma que o conteúdo dos usuários não é utilizado para treinar modelos de inteligência artificial.
Nader afirma que os dados pertencem ao usuário, que pode solicitar download ou exclusão das informações. Os documentos da empresa acrescentam que os dados são criptografados e hospedados na Amazon Web Services (AWS) e no Google Cloud.
Parte da infraestrutura e dos provedores de IA pode estar localizada fora do Brasil. Em caso de fusão ou aquisição, a empresa afirma que os usuários serão avisados previamente. Se o serviço for encerrado, a previsão é de comunicação com pelo menos 30 dias de antecedência.
A mybrain.ai ainda não possui certificações como SOC 2 e ISO 27001.
Quando conhecimento vira ativo
A transformação do conhecimento pessoal em receita ainda é uma etapa futura do negócio. O site da empresa apresenta o conteúdo armazenado como um ativo que poderá ser "licenciado", mas esse modelo ainda não está disponível.
Nader imagina aplicações como consultorias, mentorias, treinamentos, aulas e agentes capazes de participar de reuniões ou responder perguntas com base no conhecimento acumulado pelo usuário.
A ideia, segundo ele, não é entregar todo o acervo de uma pessoa, mas permitir consultas controladas.
"É consultado por sessão, como um especialista que responde perguntas sem entregar o caderno", diz.
Enquanto o licenciamento não existe, o modelo de negócio é baseado em assinatura. Durante o período beta, o uso é gratuito, e os termos da plataforma afirmam que eventuais planos pagos serão comunicados com pelo menos 30 dias de antecedência.
A empresa prevê um plano gratuito, limitado a 50 fontes de conhecimento; o Pro, previsto em R$ 139 por mês; e o Max, previsto em R$ 499 por mês, com uso ilimitado da Maia.
O negócio foi financiado pelo próprio fundador, sem participação de fundos de investimento até agora.
"Eu queria chegar ao produto antes de ter que explicar a tese para investidor", diz Nader.
Segundo ele, há conversas com investidores-anjo, mas nenhum acordo foi fechado.
A disputa sobre quem é dono do conhecimento
A proposta da mybrain.ai enfrenta uma questão jurídica: até que ponto a forma de pensar de uma pessoa pode ser considerada um ativo protegido?
A Lei de Direitos Autorais brasileira estabelece que ideias, métodos e sistemas não recebem proteção autoral, enquanto a forma como uma obra é expressa pode ser protegida. O artigo 8º da legislação exclui da proteção "as ideias, procedimentos normativos, sistemas, métodos" e "os esquemas, planos ou regras para realizar atos mentais".
Na visão de Nader, a estratégia da empresa depende de três mecanismos: direito autoral, contratos e sigilo.
Ele compara o momento atual da inteligência artificial ao que ocorreu com a indústria da música. "O Napster provou que havia demanda antes de existir um jeito legítimo de pagar por ela", diz. Para o fundador, o Spotify criou depois uma forma de remuneração baseada em contratos e tecnologia.
Nader também cita disputas recentes entre empresas de IA e produtores de conteúdo como um sinal de que o mercado começa a discutir formas de remuneração pelo uso de conhecimento humano.
Para ele, a diferença da mybrain.ai está em transformar não apenas informações armazenadas, mas a relação entre elas em uma representação digital.
"Somos um cofre de conhecimento e raciocínio vivo e evolutivo", diz.
Perguntas frequentes
O que é a mybrain.ai? +
A mybrain.ai é uma startup brasileira de inteligência artificial que pretende criar uma representação digital do conhecimento e da forma de raciocinar de uma pessoa. A plataforma reúne documentos, conversas, entrevistas e outros registros para construir um mapa das informações acumuladas pelo usuário.
Quem fundou a mybrain.ai? +
A mybrain.ai foi fundada por Marcos Nader, fundador da fintech Nomad. Segundo ele, a empresa nasceu com a ideia de criar uma camada digital capaz de representar como uma pessoa pensa, decide e conecta informações.
Como funciona a mybrain.ai? +
A plataforma reúne conteúdos fornecidos pelo usuário, como documentos, links, entrevistas, vídeos, podcasts e informações de serviços conectados. A partir desse material, cria um grafo de conhecimento que busca identificar relações entre informações, experiências e decisões da pessoa.
O que é a Maia, agente de IA da mybrain.ai? +
A Maia é uma agente de inteligência artificial da mybrain.ai que conversa com o usuário por texto ou voz. Ela faz perguntas sobre temas relacionados ao material armazenado e usa essas conversas para ampliar o mapa de conhecimento individual.
A mybrain.ai é um bloco de notas com inteligência artificial? +
Segundo Marcos Nader, a proposta da mybrain.ai é diferente de ferramentas tradicionais de organização, como aplicativos de notas. A empresa afirma que seu objetivo é interpretar as relações entre diferentes informações armazenadas pelo usuário, e não apenas guardar conteúdos.
Quais informações podem ser conectadas à mybrain.ai? +
A empresa afirma que pretende permitir conexões com serviços como Notion, Google Drive, Dropbox, OneDrive, Obsidian, LinkedIn e Instagram. A plataforma também prevê integração com memórias de assistentes de inteligência artificial como ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity e Grok.
A mybrain.ai usa modelos da OpenAI ou Anthropic? +
Segundo Marcos Nader, a tecnologia principal da empresa utiliza pequenos modelos de código aberto e não depende de modelos da OpenAI ou da Anthropic para construir o grafo de conhecimento e operar a Maia. A documentação da empresa informa, porém, que no estágio beta parte do processamento ainda utiliza modelos externos, com medidas de pseudonimização.
Como a mybrain.ai protege os dados dos usuários? +
A empresa afirma que os dados dos usuários não são usados para treinar modelos de inteligência artificial. A documentação informa que os dados são criptografados e hospedados na Amazon Web Services (AWS) e no Google Cloud. A startup ainda não possui certificações como SOC 2 ou ISO 27001.
A mybrain.ai pode vender ou licenciar o conhecimento de uma pessoa? +
Esse é um modelo futuro previsto pela empresa. A ideia é permitir que usuários licenciem partes do conhecimento acumulado para aplicações como consultorias, treinamentos, aulas ou agentes de inteligência artificial, com controle sobre o acesso.
Quanto custa a mybrain.ai? +
Durante o período beta, o uso da plataforma é gratuito. Marcos Nader afirmou que a empresa prevê um plano gratuito limitado a 50 fontes de conhecimento, um plano Pro de R$ 139 por mês e um plano Max de R$ 499 por mês com uso ilimitado da Maia.
A mybrain.ai recebeu investimento de fundos? +
Segundo Marcos Nader, a empresa foi financiada pelo próprio fundador até agora e ainda não recebeu investimento de fundos. Ele afirmou que existem conversas com investidores-anjo, mas nenhum acordo foi fechado.
Uma pessoa pode ser dona da própria forma de pensar? +
A questão ainda envolve debates jurídicos. A Lei de Direitos Autorais brasileira não protege ideias, métodos e sistemas, mas protege determinadas formas de expressão. A mybrain.ai afirma que pretende trabalhar com mecanismos como contratos, direito autoral aplicável e sigilo para estruturar o modelo de licenciamento.
Qual é a visão de futuro da mybrain.ai? +
A empresa pretende criar uma espécie de "memória digital" individual, capaz de representar conhecimentos, experiências e formas de raciocínio. A ideia é que esse material possa ser consultado por outras pessoas ou sistemas de inteligência artificial mediante autorização do usuário.
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