Gonzalez e a morte da esquerda clássica

Dizia ontem a dois amigos, e a propósito da entrevista de Felipe Gonzalez a Maria João Avillez publicada no Expresso e na SIC Notícias, que Gonzalez era o último representante que restava da esquerda democrática europeia que fizera o pós-guerra. Quando ele morresse, continuei eu, morreria a esquerda anti-comunista, laicista, fixada na “questão social” e na representação da “classe trabalhadora” em conciliação com a autoridade do Estado homogéneo. Não importa aqui indicar os erros e omissões, alguns deles graves, da governação de Gonzalez como Presidente do Governo de Espanha. Não fui admirador na época; não me tornei certamente admirador agora. Porém, essas avaliações são menos importantes do que a consideração da função histórica destas personalidades e destes movimentos políticos. É isso que me importa aqui.
Na esteira de outros “vultos” mais velhos desse esquerdismo, homens como Gonzalez deram durante décadas o tom e o sentido à parte esquerda do equilíbrio político europeu. Nas franjas, e por exclusão política e ética, ficavam os extremismos revolucionários. Mário Soares, em Portugal, evidentemente; Helmut Schmidt, na Alemanha; Tage Erlander e Olof Palme, na Suécia; Harold Wilson no Reino Unido; Bruno Kreisky, na Áustria; e outros mais ou menos prestigiados nos restantes países. Nesta terceira década do século XXI, embora a rendição seja anterior, esta esquerda desistiu de si mesma. E nos dias que correm encontra o seu derradeiro desafio. Receio bem, e mais preocupantemente receiam os velhos social-democratas como Gonzalez, que as actuais lideranças não estejam à altura dele.
Para compreender as exortações à insurreição violenta e de destruição da ordem que hoje se berram ao megafone nas ruas de França ou nas praças de Madrid, e com o indispensável patrocínio dos grandes órgãos de comunicação social, convém perceber que não têm paralelo com as jornadas revolucionárias da memória afectiva das esquerdas e extremas-esquerdas de ontem. O facto de os “protestos” e a respectiva violência serem mobilizados pelos partidos e movimentos da extrema-esquerda – Mélenchon e a França Insubmissa a norte dos Pirenéus; os grupelhos radicais esquerdistas, com o desesperado apoio de um Sánchez corrupto, a sul – não deve confundir o essencial: os meios, os motivos e os objectivos são hoje fundamentalmente diferentes. Desiludida com o “papel histórico” das classes trabalhadoras, acusadas agora de trair as vanguardas esclarecidas dos directórios partidários, a extrema-esquerda insulta a anterior “classe universal” de ser um conjunto aburguesado de brancos, cristãos residuais, além de racistas e outras coisas ruins. No implacável julgamento da mente totalitária tão viva entre nós, se esse grupo traiu a vocação histórica que lhe foi encomendada, tornou-se supérflua. Traidora como é, não pode surpreender-se por ser condenada como criminosa e sentenciada a desaparecer. Já não podendo contar com a revolução feita com os trabalhadores “brancos”, a extrema-esquerda forjou uma aliança – até há pouco tempo disfarçada e hoje absolutamente explícita – com o capital de ódio e de ressentimento de algumas comunidades imigrantes, e dos seus descendentes, que, entretanto, se tornaram muito numerosas em certos países europeus. Jogando com o factor demográfico, vendo nelas o eleitorado maioritário do futuro, colhendo na alienação e na vontade de destruir a ordem, não só política, mas cultural também, ainda vigente, a extrema-esquerda fez-se agente político dessa massa. Em nome do combate à “xenofobia” e ao “racismo”, a extrema-esquerda promoveu o ódio e o aprofundamento da alienação, não de todas as comunidades imigrantes, pois algumas são tidas como “colaboracionistas” do poder “branco” e “colonizador”, mas apenas daquelas que se socorreram de identidades étnicas e sobretudo religiosas para se salvarem do vazio da (des)integração nos países de destino.
É um facto que essas comunidades não se integraram em larga medida porque uma ideologia da desintegração fomentada pelas esquerdas, mas com a cooperação ignorante e deslumbrada do liberalismo tardo-moderno, os ensinou a odiar os países onde os seus filhos e netos nasceriam. A odiar a história, claro, mas também os produtos dessa história: o património cultural, os vestígios da religião (o Cristianismo, para quem ainda tenha dúvidas) que a conduziu, e inevitavelmente os valores políticos e morais que sustentam por enquanto as nossas sociedades, desde logo a dignidade da pessoa humana, a liberdade individual, a igualdade, a tolerância, o regramento das relações civis pelo direito imanente, a admiração da nobreza, da beleza e da ordem, o repúdio pelo fanatismo ou pela segmentação da sociedade em torno de identificações e lealdades, e, por conseguinte, ódios raciais, étnicos, tribais. Convencida que conseguirá guiar essa fúria destrutiva, a extrema-esquerda volta a sonhar com a revolução do nada e da miséria que confunde com emancipação. Convencida que poderá vencer a luta pela liderança dessa fúria destrutiva com outras autoridades de índole religiosa e política possuidoras de prioridades bem diferentes, a extrema-esquerda vai explorando as debilidades institucionais e intelectuais da ordem liberal neste início de século. A sua ingenuidade seria comovente não estivesse em causa neste projecto o desabamento da constituição social e cultural do canto mais próspero e livre do mundo.
Entretanto, a crise intelectual profunda da esquerda democrática de Gonzalez, por um lado, e a mediocridade e oportunismo das lideranças dos partidos que ainda a formam, condenou-a à fraqueza de se deixar conduzir pelas extremas-esquerdas. Isso vale para praticamente todas as paragens europeias. Quando as ruas europeias ardem, e mais arderão, as chamas não sinalizam por enquanto a morte imediata das sociedades igualitárias, laicas, assentes na liberdade individual, na economia social de mercado, e no Estado de Direito democrático. Mas anunciam já a morte da esquerda democrática que ajudou a construir a Europa do pós-guerra, e que sem honra nem redenção caiu às mãos do apelo a uma nova Idade das Trevas.
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