Dia do Legado Solidário: como você gostaria de ser lembrado?
*Por Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do UNICEF no Brasil
Ao longo da vida, construímos patrimônio, acumulamos experiências, cultivamos relações e defendemos valores. Todos nós deixamos marcas. Algumas se expressam em realizações profissionais, contribuições artísticas, descobertas científicas ou ensinamentos transmitidos à família e aos amigos. Outras ganham forma em gestos de solidariedade capazes de continuar transformando vidas mesmo depois que partimos.
Muitos de nós compartilhamos o desejo de deixar uma contribuição positiva para o mundo. Uma forma concreta de tornar esse desejo realidade é por meio do legado solidário: a decisão de destinar parte do patrimônio para causas sociais por meio de um testamento. Trata-se de um ato de planejamento, mas, acima de tudo, de um ato de generosidade e responsabilidade com as próximas gerações.
Quando escolhemos apoiar causas que promovem a justiça social, estamos deixando um legado que vai muito além de uma doação financeira. Estamos plantando sementes para um futuro mais igualitário, mais humano e mais promissor. Cada contribuição deixada em um Testamento Solidário pode abrir portas para oportunidades que antes pareciam inalcançáveis, garantindo, por exemplo, que crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade tenham acesso à educação, saúde, proteção e aos recursos essenciais para seu desenvolvimento.
Em um mundo que valoriza planejamento, crescimento e prosperidade, vale refletir sobre qual é o investimento mais duradouro que podemos realizar. Ao apoiar crianças e adolescentes, investimos no capital humano que impulsionará o presente e o futuro. Cada oportunidade criada hoje gera impactos que se multiplicam ao longo dos anos, fortalecendo comunidades, reduzindo desigualdades e contribuindo para uma sociedade mais próspera para todos.
É exatamente isso que inspira histórias como a de Michiko Ishikawa Hashimoto, membra da comunidade Nikkei que incluiu o UNICEF Brasil em seu planejamento sucessório. Advogada pioneira, se formou em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nascida no Japão, chegou sozinha ao Brasil em meio às dificuldades sociais provocadas pela guerra e construiu uma trajetória marcada pela independência, discrição e compromisso com o bem comum.
Michiko levava uma vida simples. Gostava de pintar porcelanas, apreciava viagens e cultivava uma visão generosa da vida. Embora não tenha tido filhos, nutria um carinho especial pelas crianças. Segundo sua sobrinha, Nagisa Adachi, esse afeto esteve presente durante toda a sua trajetória.
Ao decidir destinar parte de seu patrimônio para apoiar crianças por meio de um legado solidário, Michiko transformou esse sentimento em algo permanente. Seu gesto silencioso continua protegendo vidas e criando oportunidades para meninos e meninas que ela jamais conheceria pessoalmente, mas cujo futuro escolheu abraçar.
O caso de Michiko não é uma exceção. É a expressão de um sentimento presente em muitas pessoas que desejam que suas conquistas continuem gerando impacto. Pessoas que entendem que a herança mais valiosa não é necessariamente aquela que medimos em bens, mas aquela que medimos em vidas transformadas.
Incluir uma instituição como o UNICEF em seu testamento é uma escolha que reflete generosidade, visão de futuro e comprometimento com as próximas gerações. Com informação adequada e planejamento sucessório, é possível apoiar causas humanitárias essenciais de forma segura e organizada, sem complicações desnecessárias.
No UNICEF, testemunhamos diariamente como a solidariedade muda trajetórias. Vemos crianças voltarem à escola, adolescentes desenvolverem seu potencial, famílias encontrarem apoio em momentos difíceis e comunidades construírem oportunidades onde antes havia escassez. Cada uma dessas histórias existe porque pessoas decidiram estender a mão e fazer parte da solução.
A verdade é que contribuir não significa apenas doar. Significa assegurar que nossos valores continuem vivos e impactando positivamente outras pessoas. Significa transformar conquistas construídas ao longo de uma vida em esperança para quem ainda está começando a escrever a própria história. E, neste Dia do Legado Solidário, o convite é para que todos nós reflitamos sobre a marca que desejamos deixar no mundo. Porque a vida passa, mas os valores que escolhemos cultivar podem atravessar gerações.
E, talvez, não exista legado mais bonito do que ajudar uma criança a sonhar, crescer e construir seu próprio futuro. Afinal, quando deixamos um legado para meninos e meninas, não estamos apenas transformando suas vidas. Estamos ajudando a transformar o mundo que ficará para todos nós.
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