Esdras e Neemias, os homens que reconstruíram Jerusalém

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esdras e Neemias: os homens que reconstruíram Jerusalém. Este é o sexto episódio da terceira temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa. Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
Esta semana vamos conhecer a história dos dois homens que reconstruíram Jerusalém depois do cativeiro na Babilónia. Esdras e Neemias são os protagonistas deste período histórico. Nos séculos sexto e quinto antes de Cristo, o povo hebreu, herdeiro da monarquia de David e Salomão, foi conquistado e deportado pelos babilónios e viveu em cativeiro durante várias décadas. Quando os persas destronaram a Babilónia, permitiram que os judeus voltassem a Jerusalém. Nesse período, estes dois homens vão ser fundamentais. São eles que vão liderar o regresso dos exilados, a reconstrução do templo e da muralha e o repovoamento de Jerusalém, mas vão também enfrentar a resistência dos inimigos. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, quero aproveitar para lembrar os nossos ouvintes que a nossa caixa de e-mail continua à disposição para perguntas e sugestões. Portanto, antes de entrarmos na história de Esdras e Neemias, que vamos falar esta semana, só sublinhar que os nossos ouvintes nos podem escrever para ashistoriasdabiblia@observador.pt e nós respondemos às perguntas dos nossos ouvintes num episódio especial todas as quintas-feiras. É um episódio exclusivo em podcast, portanto, não se esqueça de seguir o programa na plataforma onde nos está a ouvir para não perder nenhum episódio. E já agora fica aqui um teaser do que vamos falar na próxima quinta-feira. Vamos tentar perceber por que é que, de acordo com a Bíblia, Deus escolheu este povo e não outro qualquer para ser o povo escolhido. Vai ser um episódio bastante interessante. Fica para a próxima quinta-feira. Ora bem, nesta terceira temporada, ia dizer terça-feira, mas é domingo. Nesta terceira temporada, estamos a trazer aos nossos ouvintes mais 11 episódios dedicados a algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. E esta semana vamos ter de olhar para dois livros que habitualmente são lidos em conjunto. Podiam até ser um único livro. Estamos a falar dos livros de Esdras e Neemias. E aliás, descobri recentemente que Esdras e Neemias andam de tal maneira sempre em conjunto que o Neemias mais conhecido cá em Portugal, que é o Neemias Queta, na verdade, se chama Neemias Esdras Queta. Não sei se faziam ideia disto.
Estava sabendo. Mas grande jogador. Interessante curiosidade.
E bem, vais ficar este segundo nome.
Uma válida curiosidade.
Exato. Ora bem, estes dois livros surgem no grupo dos livros históricos da Bíblia, no Antigo Testamento, e contam esta história da reconstrução de Jerusalém depois do cativeiro na Babilónia. Há que lembrar que no século sexto antes de Cristo, os babilónios, que eram a grande potência regional, conquistaram Jerusalém e o templo que tradicionalmente era atribuído ao rei Salomão foi destruído, os judeus foram deportados. Nós já falámos aqui neste podcast sobre esses anos do cativeiro na Babilónia e também sobre como o trauma coletivo desse exílio, no fundo, foi fundamental para a própria escrita das histórias da Bíblia. Ora bem, a certa altura, há uma transformação geopolítica na região. Os persas vão destronar os babilónios. O rei dos persas, este Ciro, vai ser mais benevolente com os judeus do que com os babilónios. João, é aqui que, de certa maneira, se vão gerar as condições para que os judeus depois pudessem começar a pensar em voltar para casa.
Sim, Ciro conquista a Babilónia em 539, mais ou menos, e incorpora no Império Persa os territórios dominados. Não se trata propriamente de uma destruição da Babilónia. Há aqui quase até uma substituição do poder imperial, porque os persas distinguiam-se claramente dos babilónios pela forma como lidavam com a conquista. Ou seja, eles permitiam frequentemente, como depois exemplos históricos posteriores, que as comunidades submetidas restaurassem alguns dos seus elementos e permitiam, aliás, que algumas das suas características culturais e religiosas permanecessem. Por isso é a partir dessa ideia que se permite a restauração do santuário do templo em Jerusalém, cujos judeus propriamente mantêm costumes próprios e até sejam governados por pequenas elites locais. A única coisa que tinha de haver unicamente era o pagamento de tributos.
Naturalmente.
Naturalmente. Alguma estabilidade política e lealdade ao rei. Não se trata propriamente de liberdade religiosa, e Ciro não era propriamente um filosemita, mas uma integração imperial. O próprio cilindro de Ciro, que está no British Museum, refere isso, atesta esta dimensão, mesmo que não fale propriamente de Jerusalém nem de Judá. Por que isto pode ser importante? Porque até então Parece que a Bíblia nos conta uma história de um Deus muito fiel à monarquia davídica, que reage e age a partir desta linha monárquica. O curioso é que Ciro é um rei estrangeiro, pagão, porque ele não se converte. Ele atribui a sua vitória a Marduk, que é o deus da Pérsia, da Assíria. E é curioso que parece que passa a mensagem que Deus é tão onipotente que até consegue agir pelas mãos de um rei que não acredita em Yahweh. Claro que, e já referimos isto noutros episódios de outras temporadas, o regresso não é massivo nem é de um momento para outro, passam-se várias décadas e também a população que está em Jerusalém não é tão reduzida quanto isso. Apesar de ser uma população ligada ao mundo rural, empobrecida e até pequena, não é propriamente pequena considerada a população que lá vivia antes do exílio. A verdade é que Ciro não é propriamente aquele que conclui o processo, ele inicia o processo e só com o reinado de Dario I, entre 516 e 515, é que o templo claramente é terminado.
Mas este Ciro acaba por ser uma figura fundamental neste processo. Aliás, o livro de Esdras começa justamente com o tal édito de Ciro que permite o regresso. Daniel, fala-nos um pouquinho sobre estes dois livros, Esdras e Neemias. Eles no fundo são dois, mas parece que funcionam como uma unidade, uma dupla. Ao mesmo tempo também parecem ter algumas inconsistências. Não é exactamente muito fácil perceber a ordem dos acontecimentos, a cronologia, até perceber se estas duas personagens, o Esdras e o Neemias, se chegam eventualmente a cruzar. No cânone da Bíblia Católica, que no fundo tem sido a nossa referência, eles surgem logo a seguir aos livros das Crónicas. Aliás, o último parágrafo do segundo livro das Crónicas é exatamente igual ao primeiro parágrafo do livro de Esdras, justamente a questão do édito de Ciro, que põe um fim ao exílio. Isto parece, de certa maneira, ajudar a teoria de que estes livros todos podem ter tido o mesmo autor, de certa maneira, ou podem representar uma continuidade histórica narrativa.
Essa era a hipótese tradicional, considerar tudo isto, estes dois livros das Crónicas, Esdras e Neemias, como obra de um mesmo autor ou de um mesmo meio literário. Hoje isso já foi posto em causa. Dizias que são dois livros, mas parecem ser só um, e o motivo é porque é mesmo só um. Ou seja, é já tardia esta separação em Esdras e Neemias. E, portanto, na sua origem é apenas um livro, conta uma história com estes dois personagens que no texto estão simultaneamente ou com alguma diferença de algum tempo. Historicamente, é discutível. Há quem coloque isto em causa, dependendo um pouquinho de qual é que é o rei Artaxerxes a que o texto se refere. Se é o primeiro, neste caso, teriam estado os dois mais ou menos ao mesmo tempo, na mesma altura, em Jerusalém. Se for Artaxerxes II, já seria posterior, mas de qualquer forma, são fruto de um mesmo tempo e de uma época de reconstrução pós-exílica. O João referia-se a Ciro, este rei da Pérsia, que permite, por conveniências políticas, sobretudo. Há uma outra lógica de administrar o império que dá mais espaço a autonomias locais e desde esse édito de Ciro, que é aqui reproduzido no início do livro de Esdras, esse também é um aspecto interessante. Percebemos que há aqui um grau de historicidade nestes livros que não temos noutros livros da Bíblia Hebraica. Este édito de Ciro que lemos aqui no livro de Esdras é mais ou menos o édito de Ciro que temos nesse tal cilindro que podemos ler. Podemos ler? Enfim, quem saiba acádico antigo pode ler no British Museum. São textos datados, grosso modo, entre o ano 400 e o ano 300 e são escritos poucas décadas, diríamos, depois destes acontecimentos que se referem, desde esta permissão para voltarem à terra de Israel, sobretudo a Jerusalém, e a lenta reconstrução quer das muralhas da cidade, quer do templo, esse centro fundamental da vida religiosa de Israel.
João, o livro de Esdras começa justamente com este grande grupo de exilados a regressar a Jerusalém com esta autorização do rei da Pérsia. O Daniel dizia que estes livros têm uma componente de veracidade histórica bastante significativa. Sabemos que o livro fala de uma multidão de 50 mil pessoas. Talvez possa haver aqui algum exagero literário.
É possível, é muito provável.
Mas este primeiro grupo vai dedicar-se à reconstrução do templo, o tal templo de Salomão que tinha sido destruído. Parece haver aqui uma tentativa de promover uma ideia de continuidade, ou seja, depois desta interrupção
criada na história do povo por causa do exílio na Babilónia, como se de certa maneira a história fosse retomada, o povo de Israel é reconstruído depois desta interrupção. Também há aqui, por exemplo, aquele elemento dos objetos litúrgicos que estavam, de certa maneira, reféns e são devolvidos. Sim, uma ideia de corrigir a história.
Até esta ideia de Esdras e Neemias, estas duas personagens mostram aquilo que nós estamos a referir, de que realmente existe uma libertação, mas temos que enquadrar também no contexto daquela época. Esdras é um sacerdote, um mestre, um escriba que descende de Arão e que guia o povo numa espécie de renovação social e espiritual, ao passo que Neemias é um judeu que estava dentro da corte persa. Esta ideia de que isto aqui é uma espécie de povo eleito, puro, sem contaminação, que volta, também é um bocadinho redutora ou pelo menos não corresponde à verdade. A verdade é que esta comunidade, embora não se reconstrua totalmente, por exemplo, não há aqui um novo rei. Aliás, a Torá, a lei, vai passar a ter este papel quase substituindo a monarquia. Mais do que propriamente por algumas instituições, este povo vai se restaurar e vai se reconstruir a partir de quatro elementos: o templo, uma espécie de ligação genealógica aos antepassados. Vão se tentar fazer que as pessoas que regressaram pertencem a uma linha contínua no tempo, à instituição do sábado como dia sagrado e depois da lei. Ainda assim, por exemplo, em Neemias 9, eles assumem que são escravos na terra que pertence aos seus pais. Ou seja, eles próprios assumem que embora tenham voltado, que exista esta restauração.
Desculpa interromper-te, João, mas acho que esse é um ponto importante também para os nossos ouvintes, porque isto segue-se ao exílio, que é o trauma por excelência na Bíblia e, portanto, a destruição de Jerusalém, a destruição do Templo de Salomão pelos babilónios comandados por Nabucodonosor, que é algumas décadas antes disto, em 586, e portanto, passadas algumas décadas, já se permite que este povo, que tinha sido levado escravo. Esta ideia da escravidão, uma ideia muito presente em vários textos históricos, até nos Salmos, esta ideia de que todo este povo foi arrancado, tirado da sua terra, deixado de ficar sem as instituições fundamentais, sem as referências culturais, religiosas, e é levado para a escravidão, para o exílio na Babilónia. Não é apenas um regresso interessante, é percebermos que este povo prospera na Babilónia e que vai criando raízes também durante este tempo de cativeiro.
Sim, há uma espécie de leitmotiv. Parece claro que embora tenha acontecido a destruição, essa destruição não tornou impossível a continuidade da relação com Deus. Mais do que propriamente a questão genealógica e dos antepassados, o que é, de certa maneira, não reconstruído, porque eles reconhecem que sempre esteve com eles, é a presença de Deus, é a presença de Yahweh. O que não deixa de ser curioso é que como Yahweh não tem uma representação material, aquilo que é devolvido não é o que tinha sido devolvido a outros povos. Não são devolvidas estátuas de deus.
Os ídolos.
Exatamente. O que é que é devolvido? São taças rituais, elementos rituais.
Os apetrechos litúrgicos.
Os apetrechos litúrgicos que mostram claramente que este povo também é distinto dos outros povos.
Muito bem, nós já voltamos para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos compreender como é que estas duas personagens, Esdras e Neemias, lideraram a reconstrução de Jerusalém e do povo judeu. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de As Histórias da Bíblia, com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre Esdras e Neemias, os dois homens que lideraram o processo de reconstrução de Jerusalém e do povo judeu depois do exílio na Babilónia. Na primeira parte já falámos deste processo em termos gerais, do papel do Império Persa, também do modo como estes textos procuram passar uma ideia de continuidade entre o Israel antes do exílio e o novo Israel depois do exílio. Daniel, apesar do chão comum, como falávamos, um livro que depois separado em dois. Temos aqui, na verdade, duas narrativas distintas. A primeira é a do livro de Esdras. Vemos a deslocação da multidão rumo a Jerusalém, os trabalhos de construção do templo. Rapidamente começam os problemas. Há quem se oponha à construção, quem tente impedir as obras. Chegam mesmo ali a escrever ao rei pra tentar impedir o processo. E depois, na segunda narrativa, neste livro de Neemias, o que está em causa é a reconstrução da muralha. Ele chega a Jerusalém, consegue ali arregimentar uma série de gente para, em conjunto, reconstruírem a muralha da cidade, mas também aqui, novamente, aparecem uns inimigos a tentar impedir o processo e a denunciar Neemias. Se calhar, temos que olhar em concreto para duas coisas. Por um lado, quem é que são efetivamente este Esdras e este Neemias e quem é que são estes inimigos que depois eles vão enfrentar? Ou seja, por que os exilados também vão enfrentar tanta resistência quando voltam a Jerusalém? De facto, estes dois livros vão entrelaçar estas narrativas, talvez por isso é que depois tenham ficado separados o livro de Esdras e o livro de Neemias, e não apenas uma obra, porque esse primeiro centra-se na figura de Esdras, como o João dizia, é um sacerdote escriba, portanto, um especialista na lei, e todo o seu trabalho centra-se nessa reconstrução espiritual centralizada na lei. E por isso vai insistir nalguns preceitos religiosos, numa ideia de pureza, numa ideia de separação de um povo que é eleito e, portanto, não se deve misturar e contaminar com outros povos que adoram outros deuses. Há aqui claramente uma forte proibição de casamentos mistos. Há até aqui ordens para casais mistos, portanto, israelitas casados com mulheres não israelitas, se separarem delas. Enquanto Neemias se foca na reconstrução material, na reconstrução das muralhas da cidade e, portanto, numa certa separação mais política, diríamos. O trabalho de Esdras e Neemias complementam-se esta reconstrução de uma comunidade pós-exílica nestas duas vertentes que estão ligadas, não são estanques. O político não é uma coisa diferente do religioso, mas uma dimensão de uma mesma vivência. Neemias é aqui apresentado como, o termo é engraçado, porque é o copeiro do rei, o que para nós nos parece uma espécie de mordomo ou empregado de mesa.
Tive parecido vários copeiros nos nossos episódios.
Sim, mas não são assim funcionários, mas é um ministro. Nós também na linguagem que sobrevive no Ocidente, no nosso mundo ocidental, utilizamos ministro, que também quer dizer servo. E portanto, este copeiro seria um ministro, ou seja, uma figura com responsabilidades políticas na corte do rei na Pérsia, o que já nos mostra que se este exílio que foi tão traumático e desligou o povo da sua terra e o colocou numa situação de miséria espiritual, como por exemplo, o famoso Salmo 137, sobre os rios da Babilónia, onde nos sentamos a chorar com saudades de Sião. Até dá uma música dos anos 70, "By the Rivers of Babylon".
Justamente. Grande música.
Em que sublinha este drama, como é que é possível invocarmos o nome do Senhor em terra estrangeira? Estamos aqui completamente destruídos. Mas a verdade é que há um prosperar desta gente que, não por acaso, é a intelligentsia, é a nata da sociedade israelita que foi deportada. Isso depois vamos ver a seguir nestes conflitos que aqui surgem. Quem foi pro exílio, quem foi levado pro cativeiro, não foram os operários, os pobres, mas foi a corte, foi a gente especializada, foi, digamos, a nata da sociedade de Israel, que vai criar estas raízes, então, na Mesopotâmia.
E é isso que ajuda a explicar depois uma certa conflitualidade quando eles regressam.
Exatamente, porque temos no fundo dois grupos de judeus, que é estes que regressam, que se consideram o verdadeiro Israel, e aqui nestes textos até notamos, pela forma como se escreve, por algumas alusões, a uma espécie de novo êxodo. Assim como o verdadeiro Israel que estava no Egito saiu para a Terra Prometida, aqui este exílio é o regressar também do verdadeiro Israel a esta terra. Quem ficou, este tal povo da terra, não quer esta reconstrução, por vários motivos políticos. Às vezes exploram-se aqui, sobretudo no texto, questões mais religiosas, estas tais questões da pureza religiosa. Estes que ficaram, no fundo, ficou uma mistura de gente de condição mais baixa, gente que depois vai dar origem também, enfim, todos conhecemos esta ideia de que os samaritanos, ao tempo do Novo Testamento, são vistos como gente impura. E, portanto, também, provavelmente, este é um tempo histórico em que há aqui uma misturada étnica que ficou aqui na terra e portanto vai entrar em conflito com estes que se consideram os puros.
E que também vêm, no fundo, que aparecem regressados da Babilónia e vão gerar essa oposição por parte daqueles que sentem que sempre ali ficaram. Tanto num relato como no outro, João, esta oposição acaba por ser superada. No caso de Esdras, acaba por ser o próprio rei, este Dario, que depois é um outro sucessor do rei persa, que vai confirmar que o seu antecessor pediu explicitamente a reconstrução do templo, enquanto no caso de Neemias, no fundo, vai ser ali montada uma defesa militar da cidade e da muralha. Metade da população está a construir a muralha, enquanto a outra metade está a defender. No fim, ambos os textos vão incluir grandes celebrações. Temos as celebrações da Páscoa em Esdras e uma dedicação da muralha no livro de Neemias, também ali com uma renovação da aliança, novos compromissos do povo com Deus. Superar depois esta conflitualidade, no fundo, acaba por ter este efeito de uma De uma nova aliança. Mais uma vez, aquilo que temos vindo a ver ao longo do podcast, a Bíblia tem muito esta dimensão cíclica de ciclos de quebra da confiança e restauro da confiança, quebra da aliança e restauro da aliança.
O Daniel falou desta ideia do cativeiro e do regresso ser visto como um novo êxodo e no livro de Esdras, o fato de haver a Páscoa parece ser o ponto culminante, ou seja, deste regresso, tal como acontece no êxodo, há também uma certa celebração da Páscoa, que depois leva à entrada na terra prometida, muitos anos depois. Aqui também há este percurso e inverso da celebração da Páscoa, que sucede à entrada na terra. Ainda assim, os livros, como quase a Bíblia no seu todo, são muito menos festivos e são mais realistas. A Bíblia está cheia de rugosidades e eu acho que isso é o que é interessante na Bíblia. Vimos nesta temporada, no episódio de Noé, que depois de haver a restauração, depois o dilúvio, Noé e a família de Noé e o mundo de Noé, não é propriamente o mais puro e o mais fiel a Deus. O que está aqui em causa não é que aquelas pessoas, depois de tantos ciclos de regresso, aprendem a lição. E isto não é propriamente um conto de fadas, em que eles estavam presos, foi lá um príncipe encantado, deu um beijinho à princesa, a princesa voltou e foram todos felizes para sempre. As coisas não são bem assim, acho que o grande destaque aqui é a resistência de Deus face à infidelidade. A misericórdia de Deus resiste face esta acumulação grotesca de coisas que vão acontecendo. Por quê? Porque quer no livro de Esdras, quer no livro de Neemias, embora aquilo que tu disseste da Páscoa no livro de Esdras, da construção da muralha no livro de Neemias, eles não terminam com vitórias nem com grandes festejos. Em Esdras 6 realmente acontece a Páscoa, mas depois há uma enorme crise devido àquilo que o Daniel já falou dos casamentos mistos e tudo acaba com várias famílias a serem afastadas. No livro de Neemias, existe realmente entre o capítulo 8 e 12, a reconstrução da muralha, uma espécie de sagração do culto, resagração da cidade e da comunidade, com a leitura da lei, etc. Mas no capítulo 13 acontecem logo violações do sábado, que é o último capítulo, uma negligência face ao templo, conflitos matrimoniais e intervenções violentas de Neemias. Portanto, quem achava que a história ia ser: eles voltaram, são todos muito contentes e agora vão viver felizes para sempre e tudo vai acabar bem, o próprio livro de Neemias e de Esdras mostra que não é bem assim.
Quem chegar a estes livros depois de ler os livros anteriores da Bíblia, já sabe que nunca acaba com "viveram felizes para sempre".
Mas é preciso reforçar, porque isto nunca se sabe.
Até porque quem estiver com a Bíblia na mão sabe que ainda faltam muitas páginas pro fim, portanto, ainda é preciso mais reviravolta.
Sim, mas a verdade é que eu acho que isto é que é o interessante da Bíblia. Se pudéssemos fazer uma espécie de resumo neste momento daquilo que já percorremos, é precisamente o fato de a Bíblia não ser um livro de autoajuda, embora muitas vezes configure naqueles livros 365 pensamentos para o ano. A Bíblia não é um livro de autoajuda, nem é uma espécie de compensação das nossas frustrações. Ela expõe as nossas frustrações.
Daniel, vamos falar um pouquinho mais a fundo sobre esta ideia dos casamentos mistos, tanto como o João já tocaram neste assunto. Depois do trabalho de reconstrução, os dois livros contam-nos basicamente coisas muito semelhantes. No primeiro caso, chega então este sacerdote Esdras, este homem importante que traz a missão de garantir o cumprimento da lei em Jerusalém. No caso de Neemias, vemos como ele, no fundo, assume ali umas funções de governador daquele povo, e é apresentado como um homem justo, até acaba por ter que resolver ali uma crise econômica. Em ambos os casos, acabam por surgir novos compromissos, novas regras, e diria que possivelmente o caso mais evidente será esta questão das mulheres estrangeiras, repete-se nos dois livros, tem uma ênfase muito particular no livro de Esdras. Enfim, é ali determinado que a união com mulheres estrangeiras contribuiu, de certa maneira, pra acabar com a pureza do povo e que por isso elas têm de ser expulsas. Obviamente, tu falavas como isto contribuiu pra essa conflitualidade entre quem veio com esta ideia da pureza e quem tinha ficado e que se misturou etnicamente com outros povos. Quando saímos deste livro, no contexto da história bíblica, sai aqui reforçado o nacionalismo judaico, ou seja, estes momentos de superação, em que o povo judeu supera uma adversidade qualquer, depois também vão estando associados a momentos de afirmação do nacionalismo judaico.
Estas palavras estão carregadas.
Sim, hoje em dia...
Se aceitarmos este termo nacionalismo aqui, não é na forma como ele depois foi sendo trabalhado e concretizado no sionismo moderno. Estamos aqui a falar de outra coisa. Mas de fato, o judaísmo, tal como o conhecemos, surge aqui. Até do ponto de vista lexical, o judaísmo vem do judeu, da província da Judeia, esta província de Yehud, que é aqui constituída pelos persas. Já para trás há o reino de Judá, já a tribo de Judá, mas a Judeia, e portanto o lugar dos judeus, é esta comunidade inaugurada pelo trabalho de Esdras e Neemias, portanto, esta reconstrução de um povo
Que é composto por gente que está no exílio, gente que volta do exílio, gente que ficou na terra. Estas duas ideias-chave que aqui já aludimos de várias formas, esta ideia da separação, que era uma separação física, e portanto, reconstrução das muralhas, delimitação de um espaço, uma certa valorização de uma independência política, que aqui não tem, mas há alguma autonomia política, e uma separação religiosa/étnica, estas questões do que é puro, que é impuro, da fidelidade a Deus, que se ligam à absoluta, este é o segundo aspecto, desta absoluta centralidade da lei. O João falava que no livro de Neemias, no capítulo oito, salvo erro, há uma espécie de grande liturgia da palavra que faz todo o povo sentir-se tocado, arrepender-se e querer voltar a seguir os caminhos de Deus. Esta ideia da lei, enquanto também um texto, também uma espécie de instruções ou leis concretas pra vida desta comunidade reconstruída neste Israel pós-exílico, é também a partir deste tempo que depois se vai canonizando ou se vai constituindo aquilo que chamamos Pentateuco ou a Torá, em âmbito judaico. O Pentateuco, que tradicionalmente era atribuído à pena de Moisés, mas que já nos inícios da idade moderna, já Espinosa atribuía a Esdras esta compilação do Pentateuco. De qualquer forma, é neste tempo histórico pós-exílico que, juntando textos mais antigos, tradições mais antigas, mas de certa forma, a forma final daquilo que é a lei dos judeus, aquilo que é a Torá, o Pentateuco, vem desta nova nação que aqui surge, ainda sem independência política, porque estamos no domínio persa. Depois, Israel ficará sob o domínio helenista, grego, depois romano. Há aqui uma série de tempos em que há momentos de uma certa autonomia a roçar a independência, mas tudo isto vai reforçar um sentimento de defesa também e, portanto, de realce do que são fronteiras, quer religiosas ou étnicas, que caracterizam muito aquilo que conhecemos do judaísmo do tempo de Jesus, por exemplo, e o judaísmo posterior.
Aliás, como acontece noutros episódios bíblicos, estes momentos e nestes livros de Esdras e Neemias, também há uma grande oração penitencial que conta a história toda do povo desde o Gênesis até àquele momento, ou seja, também uma certa reafirmação daquela identidade. João, quando chegamos ao fim destes textos, precisamente como dizia o Daniel, há aqui uma grande importância que é dada à questão da lei, esta leitura solene da lei que falavas, obviamente, esta afirmação da identidade judaica. Como é que depois o cristianismo, ou seja, nós estamos aqui a aproximar-nos do tempo, estamos em contagem decrescente, estamos nos anos antes de Cristo, estamos a aproximar-nos do ano zero desta transformação histórica. O cristianismo, o Novo Testamento, vai, de certa maneira, superar a lei, superar aquelas ideias do nacionalismo. Como é que o cristianismo dialogou com estes textos?
Deixa-me só, desculpa.
Está à vontade.
Só dizer que o que chega ao cristianismo não é só este filão mais nacionalista, entre aspas, mais centrado na identidade, mas há aqui dois textos que já falamos neste programa, o livro de Jonas e o livro de Rute, que são um grande contraponto a toda esta ideologia, teologia de Esdras e Neemias.
Colocam o estrangeiro ali.
O estrangeiro, um certo universalismo que está muito em contraposição com isto. O que chega a tempos neotestamentários são também correntes diversas que vão sendo-
Voltamos à frase: a Bíblia, embora afirme um absoluto, é um livro contra todos os absolutos. E com isto fechamos o programa. Mas a coisa é: há aqui algumas precisões que o Daniel já fez, o fato do livro de Neemias não terminar propriamente com a leitura da lei. Mesmo quando estamos aqui a falar da lei, não sabemos até que ponto o que está a ser lido, a lei de Moisés, corresponde ao atual Pentateuco, da mesma maneira que falar de nacionalismo é ligeiramente anacrônico. Agora, aquilo que chega ao Novo Testamento deste livro, creio eu, até porque há uma escassez de referências a Esdras e Neemias no Novo Testamento, até Jonas é muito mais referenciado, o que acontece é um diálogo indireto, porque para nós compreendermos o mundo de Jesus, precisamos de ter estas categorias e os processos que este livro fala, ou seja, a centralização da Torá, a autoridade dos escribas, o debate sobre as fronteiras de Israel. E Jesus e Paulo, precisamos dar aqui um seguimento, não superam propriamente a lei. O Paulo diz até que ela é santa, justa e boa. Aquilo que nós podemos ver é que os conflitos que marcam o Novo Testamento são, de certa maneira, já alguns conflitos que estão presentes neste livro e que são potenciados por este movimento de regresso. Se nós não tivermos este movimento de regresso, esta ideia depois da Decápolo, da helenização, nós não vamos compreender aquilo que Jesus diz depois no Novo Testamento.
Portanto, é um texto também que, de certa maneira, ajuda a construir o mundo em que Jesus vai aparecer. Aliás, esse templo que é reconstruído aqui no livro de Esdras, teoricamente seria o templo-
Sim, mais ou menos, porque depois Herodes vai fazer uma grande remodelação.
Herodes faz umas obras de ampliação.
São bastante grandes.
Do novo aeroporto.
Muito bem, fica por aqui o sexto episódio desta terceira temporada de As Histórias da Bíblia. Próximo episódio, vamos saltar justamente pro Novo Testamento. Vamos conhecer três grandes amigos de Jesus: Lázaro, Marta e Maria. E já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós procuramos responder às perguntas dos nossos ouvintes nos episódios especiais de quinta-feira. Voltamos no próximo domingo. Até pra semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Bastos. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.