Por que o Brasil atrai US$ 85 bi de estrangeiros e ainda assim deixa dinheiro na mesa
- Executivos do Itaú, da Votorantim e da BR Partners disseram em Chicago que o Brasil poderia receber muito mais capital estrangeiro do que recebe hoje.
- Os entraves citados foram insegurança jurídica, volatilidade e custo de capital alto, que encarecem qualquer projeto no país.
- Do lado positivo, apontaram escala, energia de sobra e reformas setoriais, como as do setor elétrico e do sistema financeiro.
- Infraestrutura, saúde, setor financeiro e data centers foram os setores vistos como mais promissores.
O Brasil recebeu US$ 85 bilhões em investimento estrangeiro direto em 2025, mas o volume esconde quanto dinheiro o país deixa de atrair. Essa foi a conclusão comum dos participantes do painel "Do interesse ao investimento: o capital estrangeiro no Brasil", realizado na Conferência MBA Brasil, em Chicago, nos Estados Unidos.
Participaram Gabriel Moura, CFO do Itaú Unibanco, Mauro Ribeiro Neto, diretor executivo da Votorantim e vice-presidente do conselho do banco BV, e Ricardo Lacerda, fundador e CEO da BR Partners. A moderação foi de Rodrigo Adão, professor de economia da Chicago Booth.
Os US$ 85 bilhões correspondem ao dado revisado pelo Banco Central para 2025. Pela metodologia da Unctad, agência da ONU para comércio e desenvolvimento, o país recebeu US$ 77 bilhões e foi o quinto maior destino de investimento estrangeiro do mundo no ano passado.
Para Lacerda, o número robusto é "um pouco misleading". "A gente poderia ter muito mais se a gente tivesse estabilidade", afirmou.
Um país que cresce menos do que custa o dinheiro
O diagnóstico mais duro veio do próprio executivo. Segundo ele, poucos países conseguem crescer de forma consistente acima do seu custo de capital, como os Estados Unidos desde os anos 1950, a China nos últimos 30 anos e a Índia nos últimos 20. O Brasil estaria no extremo oposto.
"O Brasil é um país que tem uma taxa de crescimento consistentemente abaixo do seu custo de capital. Então esse, em princípio, não é um ambiente óbvio para se investir. É um ambiente relativamente inóspito", disse.
O executivo também citou os juros como obstáculo para projetos de longo prazo. Com curvas de juros entre 15% e 16% "por período indeterminado", afirmou, fica difícil viabilizar investimentos em infraestrutura e energia.
Moura concordou que o país precisa do capital de fora. Segundo ele, o Brasil gera menos poupança do que sua capacidade de investimento e depende de recursos externos para fechar essa conta. "A gente esquece que o capital é altamente meritocrático nas escolhas que ele faz", disse o CFO do Itaú.
Lacerda completou com um recado aos formuladores de política. "Nós não estamos fazendo um favor de deixar o investidor estrangeiro ir para o Brasil. Nós temos que criar condições para que ele vá."
Contratos cumpridos, regras reinterpretadas
Mauro Neto apontou a insegurança jurídica como um dos principais pontos de atenção. Para ele, o problema vai além do cumprimento de contratos. "Tem muito jeito de descumprir contrato cumprindo contrato, mudando interpretações de institutos jurídicos já consolidados", afirmou.
O exemplo citado foi a alienação fiduciária, garantia em que o credor detém a propriedade do bem até a quitação da dívida. O investidor estrangeiro precisa ter certeza de que conseguirá executar essa garantia daqui a 10 ou 15 anos, disse o executivo da Votorantim.
Lacerda foi mais direto ao tratar do Judiciário. Segundo ele, há casos em que todos jogam dentro das regras e surgem decisões que invalidam garantias consideradas intocáveis. "De repente, você tem lá um juiz tal, que é amigo de um advogado tal, dando uma decisão, e aquela alienação não vale. Isso tem um custo muito alto", disse.
A volatilidade é o outro custo. Neto explicou que o investidor já coloca na conta um custo de capital mais alto por se tratar de um país emergente. O problema é quando esse custo salta 300 ou 400 pontos-base em poucas semanas. "Isso no fim do dia vai ser transformado em spread", afirmou.
Escala e energia de sobra
Os três também listaram as vantagens do país. Moura destacou a escala, com mais de 200 milhões de habitantes, a maior reserva de água do mundo e a matriz energética. Neto lembrou que o Brasil "corta a energia por excesso de energia", algo raro num momento em que a inteligência artificial pressiona a demanda global.
Segundo Neto, as reformas do setor elétrico feitas há cerca de 20 anos explicam por que o país atrai hoje investidores de várias nacionalidades para geração, transmissão e distribuição. Ele espera o mesmo efeito no saneamento e cita o setor financeiro como o caso mais recente, com a chegada de Pix, open finance e novos bancos.
Lacerda acrescentou o empreendedorismo. Para ele, o país criou empresas relevantes em todos os setores, apesar do histórico de inflação, juros altos e burocracia.
Onde estão as oportunidades
Infraestrutura e energia, saúde e setor financeiro foram os setores mais citados. A saúde ganha peso com o envelhecimento da população, segundo Lacerda e Neto, em toda a cadeia, de hospitais a planos e farmacêuticas.
Os data centers também apareceram como aposta. Neto disse que o país reúne energia, economia digitalizada e área para construir, e que gestoras globais como GIC e DigitalBridge já investem no segmento. Para o investimento acelerar, afirmou, faltam sinais claros de preço e de regulação.
Sobre a inteligência artificial em geral, Moura avaliou que o Brasil adota a tecnologia mais devagar que os Estados Unidos. "Pela primeira vez, a gente desenvolveu uma tecnologia mais rápida do que a aplicação dela", disse.
Como caminho para o investidor de fora, os painelistas defenderam a entrada gradual e com parceiros locais que coloquem capital junto. Segundo Neto, o sócio brasileiro reduz o risco de escolher mal os ativos e encurta a curva de aprendizado num mercado com regras e ciclos próprios.
A Conferência MBA Brasil é organizada por uma ONG criada em 2022 para ampliar o acesso de brasileiros aos principais MBAs do mundo. A 5ª edição está sendo realizada na Kellogg School of Management, da Northwestern University.
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