96% dos recifes de coral do mundo podem entrar em colapso até 2075, alerta estudo
Quase todos os recifes de coral de águas rasas do planeta podem enfrentar um risco crítico de colapso até 2075 devido ao avanço do aquecimento global.
Uma avaliação coordenada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), organização que assessora as Nações Unidas em questões ambientais, aponta que 96% desses ecossistemas estão ameaçados quando considerados os impactos futuros das mudanças climáticas.
Atualmente, cerca de 24% das regiões de recifes analisadas, distribuídas por mais de 80 países, já são classificadas como criticamente ameaçadas. O percentual sobe para 96% quando as projeções incorporam o aumento esperado da temperatura global nas próximas décadas.
O levantamento avaliou as condições atuais e os riscos futuros de 127 regiões de recifes de coral. Para as projeções, os pesquisadores consideraram um cenário intermediário de emissões de gases de efeito estufa, associado a um aquecimento de aproximadamente 2,7 °C até o fim do século, em comparação aos níveis pré-industriais.
O resultado se aproxima das estimativas de aquecimento de 2,6 °C associadas às políticas climáticas e metas atualmente adotadas pelos países, segundo outra avaliação citada no estudo.
A classificação de criticamente ameaçado indica um risco extremamente elevado de colapso do ecossistema antes de 2075. Segundo os critérios utilizados pelos pesquisadores, isso ocorre quando um recife perde quase totalmente, ou por completo, os corais vivos responsáveis por sua formação e deixa de conseguir se manter.
O diagnóstico não significa que 96% dos recifes necessariamente desaparecerão até essa data, mas que estarão expostos a condições capazes de comprometer sua sobrevivência.
A situação pode ser ainda mais grave. Quatro regiões não tinham dados suficientes para uma avaliação completa, enquanto os recifes do oeste das Ilhas Galápagos já haviam entrado em colapso.
"O risco é real e muito preocupante", afirmou Mishal Gudka, diretor de pesquisa da organização Cordio África Oriental e coordenador científico da avaliação.
"Podemos perder um dos ecossistemas mais valiosos que temos, e os impactos disso afetarão milhões de pessoas em todo o mundo", acrescentou.
Como o aquecimento global ameaça os recifes de coral?
Conhecidos como as florestas tropicais dos oceanos, os recifes de coral concentram cerca de um quarto de todas as espécies marinhas conhecidas. Além de sua importância para a biodiversidade, esses ambientes contribuem para a alimentação e a renda de centenas de milhões de pessoas, sustentam atividades turísticas e funcionam como barreiras naturais de proteção das regiões costeiras.
Nas últimas cinco décadas, a combinação de pesca excessiva, poluição, expansão de empreendimentos no litoral e aquecimento global provocou a deterioração desses ecossistemas, identificada pela redução da cobertura de corais vivos e por mudanças nas populações de peixes.
Entre as principais ameaças estão as ondas de calor marinhas, períodos de temperaturas oceânicas anormalmente elevadas que podem desencadear o branqueamento dos corais.
O fenômeno ocorre quando os corais perdem as algas simbióticas, organismos que vivem associados a eles e fornecem nutrientes e coloração. Embora o branqueamento não provoque necessariamente a morte imediata dos corais, ele enfraquece esses organismos e aumenta sua vulnerabilidade a doenças.
A avaliação também apresenta uma limitação importante: os pesquisadores não conseguiram incorporar integralmente os impactos do quarto evento global de branqueamento em massa, ocorrido entre o início de 2023 e meados de 2025.
O episódio foi considerado o mais disseminado já registrado, segundo o Coral Reef Watch, programa de monitoramento de recifes de coral do governo dos Estados Unidos.
Na Austrália Ocidental, uma onda de calor marinha provocou o pior evento de branqueamento em massa já registrado nos recifes da região, com a morte de corais ao longo de aproximadamente 1.500 quilômetros de extensão.
Grande Barreira de Corais também está sob risco
A Grande Barreira de Corais, na Austrália, um dos maiores sistemas de recifes do planeta, também aparece entre os ecossistemas ameaçados nas projeções.
Das 17 regiões de recifes australianas avaliadas, quatro já eram consideradas criticamente ameaçadas pelas condições atuais. Outras cinco foram classificadas como ameaçadas e cinco como vulneráveis.
Quando os pesquisadores incorporaram os efeitos esperados do aquecimento global, todas as 17 regiões passaram à categoria de risco crítico, incluindo a Grande Barreira de Corais.
Ben Fitzpatrick, pesquisador do Instituto dos Oceanos da Universidade da Austrália Ocidental e responsável pela análise dos recifes australianos, afirmou que o aumento projetado das temperaturas superou até mesmo a capacidade de adaptação considerada para algumas espécies de coral.
Segundo ele, mesmo levando em conta a possibilidade de determinados organismos se ajustarem a águas mais quentes, a intensidade do aquecimento foi determinante para os resultados.
"Os recifes são como pinturas de Picasso debaixo d'água. Eles têm milhões de habitantes extraordinários. Você pode passar a vida inteira tentando entender como todas essas criaturas vivem", afirmou.
"Pensar que podemos perder isso é devastador. Há uma mensagem: precisamos parar de queimar combustíveis fósseis."
Redução das emissões ainda pode evitar colapso
Apesar das projeções, os pesquisadores ressaltam que o colapso generalizado dos recifes não é inevitável.
A avaliação indica que a redução acelerada do consumo de combustíveis fósseis, principal fonte das emissões de gases de efeito estufa, combinada com políticas locais de conservação, pode aumentar as possibilidades de sobrevivência desses ecossistemas.
Para Gudka, os resultados devem funcionar como um alerta antecipado, e não como uma indicação de que a perda dos recifes já está determinada.
"Os resultados são alarmantes, mas certamente não significam que não há esperança", afirmou. "Devem ser vistos como um chamado à ação, um sinal de alerta antes que os piores cenários se concretizem."
Grethel Aguilar, diretora-geral da IUCN, também defendeu medidas para conter o aquecimento dos oceanos e ampliar a proteção dos ecossistemas costeiros.
"Ainda não é tarde demais para dar aos recifes de coral uma chance de recuperação, mas isso exige ações decisivas para enfrentar as mudanças climáticas e interromper o aquecimento dos oceanos", afirmou.
Segundo Aguilar, as prioridades incluem cortes mais ambiciosos nas emissões, fortalecimento das iniciativas de conservação e restauração e investimentos contínuos na resiliência dos ecossistemas costeiros e das comunidades que dependem deles.
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