Com foco em mulheres 45+, Re-Age cresce em mercado bilionário cercado por tabus
Aos 48 anos, a jornalista Silvia Ruiz pensou que estava com demência: começou a esquecer objetos, perder coisas pela casa e sentir dificuldade de concentração. O histórico familiar aumentou a preocupação: seu pai havia tido a doença. Os exames de rotina, porém, não apontavam nenhum problema.
Foi então que, em suas pesquisas, Silvia encontrou uma expressão que até então desconhecia: brain fog, ou névoa mental, um dos sintomas que podem aparecer durante a transição para a menopausa. Uma consulta médica trouxe a resposta: ela estava na perimenopausa, período que antecede e pode se estender por anos.
O diagnóstico provocou uma segunda inquietação. Depois de uma vasta carreira no jornalismo, parte dela cobrindo saúde feminina, ela se perguntava como havia chegado àquela fase sem conhecer um processo que faz parte da vida de milhões de mulheres.
“Como eu nunca havia falado da coisa mais óbvia do mundo, que é a menopausa? Ninguém quer falar desse assunto, é tabu e etarismo", refletiu a empreendedora, em entrevista à EXAME.
A pergunta acabou se transformando em negócio. Silvia passou a escrever sobre mulheres maduras, menopausa e envelhecimento saudável, ganhou audiência e, anos depois, conheceu a economista Cristiana Bittencourt em um consultório médico.
As duas enfrentavam dilemas parecidos e, apesar de terem trajetórias profissionais completamente diferentes, se uniram para criar a Re-Age, marca voltada a mulheres com mais de 45 anos.
Lançada em outubro de 2024, a empresa começou[grifar] com suplementos direcionados às necessidades nutricionais para essa fase da vida e uma plataforma de conteúdo sobre saúde e bem-estar. O negócio recebeu um aporte inicial de R$ 1,5 milhão de investidores-anjo e, segundo as fundadoras, atingiu o break even em menos de seis meses.
Agora, a Re-Age prepara uma nova etapa com foco em ampliar o portfólio de produtos nos próximos meses e entrar nas grandes redes de farmácias no primeiro trimestre de 2027. A meta é triplicar o faturamento nos próximos anos, apoiada na expansão e nos novos lançamentos.
A expansão ocorre em meio a uma discussão mais ampla sobre longevidade feminina: viver mais também significa atravessar a maturidade com mais saúde, informação, autonomia e qualidade de vida.
Segundo estimativas citadas pela companhia, o mercado global de suplementos voltados à menopausa deve movimentar US$ 16 bilhões em 2026 e chegar a US$ 24,4 bilhões em 2030. No Brasil, a projeção aponta para vendas de [grifar]US$ 527 milhões, cerca de R$ 3 bilhões, até o fim da década.
Mais do que o tamanho potencial desse mercado, Silvia diz que a oportunidade nasceu da ausência de produtos, informação e comunicação pensados especificamente para esse público feminino.
“O grande pulo do gato foi olhar para essa mulher. E ninguém estava olhando”, contou.
Um mercado que não enxergava mulheres maduras
A percepção veio da própria experiência de Silvia como consumidora. Durante a menopausa, ela passou a buscar formas de cuidar da saúde, combinando acompanhamento médico, alimentação, atividade física e suplementação. Parte dos produtos que procurava precisava ser manipulada ou comprada durante viagens ao exterior.
Foi nesse período que começou a enxergar o "abismo" entre o que encontrava no mercado e as necessidades de mulheres da sua faixa etária. A ideia de criar uma marca ganhou forma depois de uma conversa com um primo empreendedor nos Estados Unidos, que perguntou por que ela própria não desenvolvia os produtos.
A futura sócia apareceu de maneira ainda menos planejada, mas as trajetórias das duas eram complementares. Silvia vinha do jornalismo, da comunicação e da produção de conteúdo. Cristiana, economista formada nos EUA, acumulava experiência no mercado financeiro e no ecossistema de startups. Ao lado de médicos e especialistas, passaram a desenvolver as primeiras formulações.
Para Silvia, o espaço encontrado pela Re-Age revela uma lacuna que vai além do setor de suplementos. Está também na maneira como empresas historicamente enxergaram, ou deixaram de enxergar as "consumidoras mais velhas".
O exemplo mais evidente, segundo ela, aparecia na publicidade de categorias como beleza, na qual produtos direcionados a diferentes idades frequentemente eram apresentados por mulheres muito jovens.
Mas Silvia estende a lacuna (e oportunidade) para outros setores: bancos, tecnologia, automóveis e serviços também têm espaço para repensar como se comunicam com consumidoras que envelhecem, trabalham, acumulam renda e seguem tomando decisões de compra.
É nessa fronteira que a tese da Re-Age se aproxima do debate sobre longevidade e do pilar social : se viver mais passou a ser uma realidade para uma parcela da população, o desafio deixa de ser apenas ampliar a expectativa de vida. Passa também por criar condições para que esses anos adicionais sejam vividos com mais saúde, autonomia, informação e representação.
Para as mulheres, há uma camada adicional: o envelhecimento feminino ainda convive com estigmas que ajudam a explicar por que temas como a menopausa permaneceram fora da mesa durante tanto tempo.
Silvia relata receber mensagens de mulheres que evitam falar sobre o assunto até mesmo dentro de casa. Em uma delas, uma seguidora dizia não comentar os sintomas com o marido por medo de ser vista como “caída”.
“Sem dúvidas, a gente ainda tem muito no que avançar”, ressalta.
Do e-commerce para as farmácias
A Re-Age nasceu com uma estratégia de venda direta ao consumidor. Mais do que preservar margem, a escolha tinha relação com a necessidade de explicar uma categoria ainda pouco conhecida pelas potenciais clientes.
“Primeiro a gente precisava educar essa mulher, chegar até ela”, destaca Silvia. “Não adianta o produto estar na estante de uma farmácia se ela não está procurando por isso, se nem sabe que pode precisar".
Hoje, a marca tem três produtos principais: Meno Balance, em cápsulas; Meno Energy, um café funcional; e Meno Skin, direcionado à pele.
A empresa afirma trabalhar com médicos e consultores científicos na definição de ativos e quantidades usadas nas formulações e prepara novos lançamentos para ampliar a linha.
A próxima mudança é justamente sair apenas do ambiente digital. A previsão é chegar às farmácias no primeiro trimestre de 2027, com a expectativa de aumentar significativamente o alcance da empresa.
Ao mesmo tempo, a Re-Age pretende manter a construção de comunidade como parte da estratégia. A companhia reúne mais de 30 mil mulheres e produz conteúdos sobre menopausa, alimentação, atividade física e saúde. Para Silvia, essa frente funciona[grifar] como continuidade de sua carreira.
“O nosso propósito é continuar educando as mulheres”, diz.
Para a empreendedora, suplementação deve fazer parte de uma discussão mais ampla sobre envelhecimento saudável, que envolve orientação profissional, exercício físico, alimentação e outros hábitos.
“Não existe um suplemento que resolva magicamente os problemas. O que existe é estilo de vida", reforça.
Essa visão também ajuda a explicar o nome Re-Age, abreviação de Rethink Ageing, ou "repensar o envelhecimento". A proposta é deslocar a menopausa de uma espécie de marco de encerramento para um momento em que o cuidado com a saúde ganha um peso ainda maior.
Aos 54 anos, Silvia é a prova viva dessa reinvenção. Começou a empreender em um setor completamente novo, e precisou aprender do zero sobre como desenvolver um negócio.
“A minha menopausa foi uma pausa para eu falar: ‘Entendi, eu tenho que fazer isso aqui por mim. Mais jovem eu não vou ficar. Ou faço tudo o que está ao meu alcance, ou vou envelhecer muito mal", conta.
Criada por duas mulheres acima dos 50 anos, a Re-Age também carrega essa tese na própria origem: à medida que a população vive mais, envelhecer passa a exigir novas respostas de saúde, consumo e representação, além de abrir espaço para empresas dispostas a olhar para um público que, durante décadas, ficou fora do centro das estratégias de mercado.
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1/12 (Dilma Campos)
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2/12 Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Syngenta Brasil e Head de Alianças da Cadeia de Valor global do Syngenta Group (Grazielle Parenti - Syngenta GroupFoto: Leandro FonsecaData: 23/10/2024)
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3/12 Giovana Pacini, Country Manager da Merz Aesthetics Latam (2 - GIOVANA PACINI)
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4/12 Viviane Elias Moreira, conselheira fiscal no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Viviane Elias Moreira)
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5/12 Thais dos Santos, diretora de Comunicação, DE&I e Sustentabilidade na L'Oréal Grande Público (_MG_7832_site)
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6/12 Daniela Cachich, presidente de Future Beverages da Ambev (Daniela_cachich)
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7/12 Isabella Wanderley, gerente geral e vice-presidente corporativa da farmacêutica Novo Nordisk Brasil (Isabella Wanderley)
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8/12 Adriana Ferreira Silva, jornalista, escritora e cofundadora da Grená (Adriana Ferreira Silva)
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9/12 Naamisis Campos, CHRO da RD Station (Naamisis Campos)
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10/12 Heloísa Simão, conselheira corporativa (Heloísa Simão, conselheira corporativa)
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11/12 Suellen Rodrigues, Diretora Científica na MSD LATAM (Suellen Rodrigues)
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12/12 Annali Duarte, head de Serviços Globais de Pagamentos (GPS) no Bank of America (Annali Duarte)
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