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Tuesday, October 13, 2026

“Sabemos o nº de livros vendidos, não o de livros lidos”

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Nós temos instrumentos que nos permitem aferir quantos livros são vendidos.

Sim, claro.

Mas lidos não temos. Não temos um polícia a ver se a pessoa está a ler e a fazer-lhe perguntas no fim.

Exatamente. Como se fosse nas aulas.

O que eu sei é que consigo ver que, andando em transportes públicos, não estou a dizer que ando todos os dias, mas andando de transportes públicos, estou a ouvir as pessoas e estou a ver as pessoas que estão sentadas. E eu antes via pessoas com livros, hoje não vejo pessoas com livros.

Tu vais ao metro em Londres?

Em Londres, sim.

Muita gente com livros. Mais.

Mas provavelmente em Londres hoje também tens mais pessoas a olhar para o telemóvel do que tinhas há uns anos.

Hoje trago um autor, escritor, conhecido sobretudo por ser um linguista obstinado e um revisor minucioso, ou vice-versa. Manuel Monteiro. Esta casa já lhe chamou obstinado e rabugento amante da língua portuguesa. É autor de muitas obras de sucesso, como "Sobre o Politicamente Correto", o primeiro livro que saiu cá sobre o assunto e que fazia falta, como referiu Ricardo Araújo Pereira. Hoje vem com o novo livro: "Em Nome da Língua, Ámen: Coleção de Violências e Heresias contra o Português". O primeiro de uma coleção com conselhos estilísticos, curiosidades e delícias do nosso idioma, bem como alguns dos erros mais comuns que lemos e ouvimos nos dias de hoje. Vamos conhecer melhor um homem que costuma dizer que escrever é uma arte, rever é outra. E que é, sobretudo, movido pelo seu grande amor pela língua portuguesa. Um convidado de primeira plana. Olá, Manuel, e bem-hajaz por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador. Reparaste que eu disse primeira plana?

Evidentemente.

E que o por teres aceitado?

Exatamente.

Estás muito contente, não estás?

Mesmo que eu quisesse estar desatento, não conseguia.

Porque estas coisas é mecânico, tu falas com alguém na rua.

É um carma, é uma fatalidade.

E tu pensas por ti próprio ou corriges muitas pessoas?

Na maior parte das vezes, penso e não digo.

Mas é que assim as pessoas também não aprendem. Ou as pessoas não gostam, muitas vezes não gostam.

Com quem tenha à vontade, digo. Dou aulas, digo.

Exatamente. A tua escola da língua, claro.

E também depende de como é que tu sentes se a pessoa é-

Recetividade

Sim, tu sentes que há pessoas que interpretam qualquer microobservação como um ataque.

Um ataque pessoal. Sim.

E outras que não, que agradecem. Mas a correção fraterna é um ato de amor.

Claro que sim, pela língua e pela pessoa, para ser melhor, para falar melhor.

Exatamente.

E como tu dizes, é tão importante, é assustadora a perda de vocabulário. Tu dizes: "Pensar mais, pensar melhor, ter mais vocabulário ajuda a pensar melhor, a raciocinar melhor, a ter mais pensamento crítico".

Eu tenho esta conversa há muito tempo. E algumas pessoas dizem: "Mas os dados?". Há dados. Ainda agora houve os dados que puseram o país a comentar, os dados da OCD.

É verdade. Do PISA e essas coisas. Além da infografia.

Infografia, porque há modos de usar.

Infografia portuguesa, que dizia que 22 mil palavras portuguesas.

Que nós usamos 2 mil em 80% das situações.

É incrível isso. E tu dizes mesmo: "E estão nos dicionários".

Incrível é uma delas. Desculpa.

É extraordinário. E fora do dicionário, também há muitas palavras que não estão nos dicionários.

Exatamente. Basta que nós pensemos, por exemplo, um não assunto, mas podes ter inúmeras palavras começadas por não. Os dicionários não conseguem albergar todas. Um não assunto, um não problema, um não tema.

Que são palavras, claro.

Que são palavras. Pegas no elemento de formação de palavras anti. Tinhas um dicionário só pro anti. Tinhas um dicionário só pra ultra. Tinhas um dicionário só pro além, pro pós, pro pré.

Esta tua grande paixão pela língua vem de onde, Manuel? Desde pequenino?

Sim. Não vou contar uma história ficcionada. Eu só adormecia antes de aprender a ler, quando me contavam histórias.

Era a condição sine qua non.

Não é contavam histórias, perdão. Quando me liam livros com histórias.

Exatamente. Incrível. Precisavas disso?

Os meus pais diziam que sim.

E lias muito quando aprendeste a ler, depois?

Sim.

Eras um leitor voraz?

A leitura não deve ser: "é um clássico, tens de ler". Se tu não tens prazer, ou melhor, se não é um deleite, ao fim de 50 páginas, larga. Leitura tem de ser um prazer.

Exatamente. Mesmo que sejam coisas duras, ensaios sobre a cegueira. Duríssimo, perturbador.

Não tenho problema em dizer, a mim o Saramago escrito dele não comunica comigo.

Ok.

E eu li livros dele até ao fim. E outros não, não comunicam comigo.

Tenho amigos meus que, por exemplo, com o "Memorial do Convento", clássico. É uma questão de entrar naquela linguagem, mas por isso acho que é um mecanismo que depois se adapta e depois gostas. Porque eles dizem: "Eu li mais de página 20, 30 ou 40, não consegui entrar naquela". Há pessoas que não conseguem.

Eu li mais de um livro completo de Saramago.

E nunca conseguiste.

Não se desprende das linhas de Saramago. Eu ligo muito a estética da linguagem.

Mas tu és muito revisor, portanto, é diferente. Tu vais ver cada pormenor da pontuação, aí então, tens o mesmo problema.

Esse é o aspecto do rigor, mas depois há um aspecto de beleza da linguagem que tu encontras nuns autores, não encontras noutros. Infelizmente, não há unanimidade.

Não é questão do conteúdo, é questão da forma.

Nem há unanimidade. A forma. Porque muitas vezes não é o tema que me interessa, é a forma como se escreve.

Exatamente. Tu vês muito esse lado. O teu lado profissional é esse lado. É o como está expresso e como as pessoas se expressam. Três palavras que tu odeias e três palavras que tu adoras. Certeza que sabes. Diz-me lá. Já te perguntaram isto várias vezes, certeza.

O tema de eu não gostar das palavras que são permanentemente usadas. É impossível passar 15 minutos a ouvir televisão, rádio ou conversas privadas. É impossível não ouvir: impacto, foco.

E quando é empate é muito bom, como tu mostraste outro dia. Impacto na Lua. Meu Deus!

Documentário da RTP.

Pois foi impressionante. Mas impacto e mais o quê? Palavras: incrível, já disseste. E mais o quê?

Bengalas que não exprimem nada. Tipo, agora. Nós estamos a falar e dizemos: "Agora, em relação àquilo". E o imagina. Imagina tipo dentro do género.

E logo três e quatro. Excremento.

O Miguel Esteves Cardoso tinha um texto engraçado sobre dentro do género. Há encadeamentos vocabulares que parece que transmitem, que contêm informação.

Pois.

Fecham o diálogo e não transmitiram nada.

Vens para mim e não têm nada.

Gostaste do filme Dentro do Género? O professor é bom Dentro do Género.

Exatamente. Aquela coisa, não diz nada. E três palavras que tu de facto gostas muito. Quando ouves é um deleite.

Primícias, pela musicalidade.

Ok. Não digas preeminente, pois não?

Preeminente.

Preeminente com dois E.

Com dois E.

E não proeminente. Pro proeminente, escrito assim.

Exatamente.

Preeminente quer dizer uma coisa física saída. Aprendi contigo.

Estou com uma pessoa hoje extremamente bem-informada a vir dizer aqui no espaço público. É verdade.

Aprendi contigo. De facto, apanhaste umas peças, coisas que ninguém mais diria. Primeira plana, nunca me lembraria de dizer primeira plana.

De primeira plana, de primeira categoria.

Azalha com S, nunca ninguém diz. As pessoas dizem azeilha com Z.

Escreve.

Escreve, eu sei. Estou a brincar. Mas azalha com S, disse aqui aos meus colegas, ficou tudo muito admirado. Não vou dizer isto, aqui são todos cultos. Mas é sério, azalha. Claro que é com Z. Não é, isso é azeite, estás a fazer confusão. Mas não, azalha com S, por exemplo, as pessoas não têm noção.

Se nós pensamos da mnemónica da asa, a etimologia não é segura.

Não se deve ter devido a isso.

Mas eu já li que há etimologistas que propuseram que o azalha seria aquele que pegaria na asa de forma desastrada. Então se levamos azalha, asa.

Vem de asa.

É mais fácil memorizar o S.

Como outra que eu aprendi contigo, o António Lobo Antunes, que escreveu sempre reboliço com O.

Exatamente. Que passa no corretor, é aquilo que tem forma de rebolo.

Mas o rebolo é um disco orgânico, é uma mó, é uma coisa mecânica, não tem nada a ver com o bulício. Que vem do bulício, não é?

Exatamente. Em que o re intensifica. E o mais curioso, por exemplo, no dicionário Weiss, eu tenho rebulício, tenho o reboliço e o reboliço.

Talvez a forma mais original.

A forma, digamos-

Mais arcaica. Original.

Mas depois também há um fenómeno que é por economia, às vezes pode desaparecer uma letra ou outra, mas temos rebulício ainda em dicionários atuais e reboliço.

Tem as duas.

Tem as duas.

Ok. Isso é muito curioso.

Em que o re intensifica o bulício.

Sim. Sabendo que é de bulício, nunca mais me esqueço e vou pôr sempre reboliço. Extraordinário.

E temos aquele poema que começa com reboliço.

Se for de Bocage, vê lá se vais.

Não.

Troca em bocas. Diz.

Não, continua.

Está bem.

Os ouvintes ficarão com a mensagem.

Exato. E vão todos procurar.

E vão todos procurar.

Ao doutor Google. Exato. Como é que aparece a revisão de texto na tua vida?

Apareceu por acaso, porque eu fui para uma agência de comunicação, que era simultaneamente agência de comunicação e editora, chamada Edeline Report, creio.

Era estragégico, tinha cá um escritório.

Do falecido José Ferreira Antunes.

Ok.

E ele criou a editora e eu era o mais letrado dos jornalistas e ele pôs-me a rever.

Porque eu estou a exercendo a técadas as coisas que tu escrevias. No Público, página um. Tens aquele rubrica Língua na Câmara, na página um também.

Sim.

E pouca gente sabe que tu eras formado em Economia, que é muito engraçado. Isso serviu-te de alguma coisa para a tua vida?

Ainda estive dois anos a trabalhar. Depois também tirei uma pós em jornalismo, formação em revisão de texto.

Mas isso ainda foste muito tempo, uns anos. Muito bem. E também és famoso pelo teu mau feitio.

Sou.

Por quê?

Já tive debates tensos. Por exemplo, há um debate na Feira do Livro sobre o acordo ortográfico.

Esse é outro tema extraordinário. Isso eu estou contigo. Completamente. Não se muda por decreto uma língua. Eu estou a dizer isto e o Vasco Graça Moura, esta terra e todos com quem eu falava, diziam: "É ridículo."

Eu vou exprimir factos linguísticos. Alguma vez algum português imaginou que iria ter dicionários e vocabulários que registam a palavra interruptor e a palavra interrutor.

Como agora apareceu, tu disseste não sei onde.

Interruptor e interrutor nos dicionários, nos vocabulários com o novo acordo.

É extraordinário. Como é que é possível?

Alguém imagina que-

Contacto, contacto, facto.

Mas essas pelo menos mantêm o C. Mas na prática há mais contactos do que contactos, e isso é o corolário do acordo.

Táctil. Tato não tem, táctil já tem que ter. Isso é um bocado ridículo.

Há muita coisa ridícula.

Egipto já não tem, mas egiptólogo tem que ter.

O egiptólogo estuda o Egito sem P e a egiptologia.

Não, não faz sentido. Isso é que eu acho que não faz sentido. Isso é que eu acho perfeitamente ridículo. Diz que com este acordo, mas o acordês, o metoendo acordo, o inferno do acordês, como tu dizes, falhou em todos os propósitos. Eu penso sempre na Commonwealth, que são 2,4 bilhões de pessoas, são 53 Estados independentes, nunca na vida tiveram um decreto que mudasse a língua ou quisesse harmonizar a língua. E o nosso interessante é feito que o Brasil e Portugal, ninguém dos outros é achado, as CPLP, é impressionante. Nunca se escreveu tanto como hoje e também nunca se tirou tantos erros como hoje.

É verdade. É verdade, mas aí depois há o valor absoluto e o valor relativo. Nós já falámos de dados objetivos como o número de palavras da infografia "Português modo de usar". Já falámos dos resultados que saíram. Nós regredimos muito.

Regredimos uma década.

Em Português e em Matemática. Mas não fomos só nós, também convém dizer. Mas nós, particularmente.

Até porque estamos a avançar, estamos a melhorar.

Qual é o espanto com aplicações do acordo ortográfico? A gramática ser ensinada como coisa profundamente enfadonha, sem relação com a vida do dia a dia.

Como tu dizes, gosto dos dicionários que têm verbetes, que depois têm exemplos que os escritores usam essas palavras. Isso é muito útil.

Exatamente. As alunações literárias. E depois há o outro fator que é, de facto, a competição dos estímulos audiovisuais.

Sim.

É muito forte. A sobre estimulação das novas gerações. A mim podem dizer o que quiserem, geração mais bem preparada de sempre. Eu não papo isso. Eu falo com professores, dou aulas a professores. Os professores há muitos anos que me transmitem: os alunos elidem preposições, os alunos elidem sílabas, não sabem silabar. Construções como: "Professora posso casa de banho?"

O tarzanismo, como tu chamas, o mau uso.

Todos os indícios já estavam.

Agradecer a todos.

Quem fala na rádio e na televisão e os políticos.

É especialmente grave.

É especialmente grave, porque devem ser um exemplo modelar de linguagem.

Mas nem sempre, infelizmente. Estes ciberdúvidas, priberãs, dicionários em papel, digitais, quais é os que tu recomendas? Algum desses achas melhor, tem menos erros que outros? Todos têm erros, de certeza, e omissões.

Os menos maus ainda são os dicionários em papel.

Como revisor é o que tu usas muitas vezes, ou quase sempre.

Eu cruzo o maior número de fontes possível. O maior número. E até dicionários do Brasil, e dicionários do Brasil em linha.

Olha, em linha pra não dizer online.

Saiu-me naturalmente.

Mas é o que sai normalmente quando dizes.

É o que me sai com naturalidade.

Tu dizes "quebra-luz" e não "abajur" ou esse achando de coisas. Pormenor em vez de detalhe.

Sim, o do quebra-luz não te quero mentir, porque não estou a ver a quem é que eu disse assim: "Ligo o quebra-luz."

Sim, pois.

Acho que diria liga o candeeiro, talvez.

Caminhão em vez de camionete.

Quebra-luz.

Quanto ao carro, em vez de camionete.

Direi sem nenhum problema, sem nenhum pudor. Porque, epá, isto vai ser muito arrogante, mas era o que mais faltava, quem tem o conhecimento, ter vergonha de o mostrar.

Claro. Sim, onde é que chegávamos? Isto é um mito, onde é que se fala o Português mais correto? Porque já cheguei a ouvir que era Coimbra e que era Horta, imagina. Em Horta, quase não têm nenhum sotaque açoriano e falam inglês. E uma vez eu ouvi e eu comprovei isso, achei: "Uau!" E falaram em São Miguel, nem foi com sotaque nenhum. Pensei: "Extraordinário, na Horta". Mas há quem diga isso é um puro mito. Isto é a questão da ortoépia, como tu dizes.

Sim.

Que é a pronúncia das coisas.

É isso.

Mas é um bocado arrogante dizer que nesta terra é que se fala bem, não é?

É exatamente isso. Não há uma circunscrição territorial em que se possa dizer: "Aqui a pronúncia é biologicamente pura". Porque nós não podemos dizer no Porto o cumo, o como, o 18.

O 18, exato.

Há inúmeras flutuações de pronúncia.

Coelho, azulejo.

Exatamente. Há inúmeras flutuações de pronúncia.

Na ortoépia.

Mas elas, as flutuações de pronúncia, não tinham o carimbo de Estado no sentido de tanto faz assim ou assado. Hoje, nós podemos escrever "gostamos" como escrevemos "gustamos", porque hoje o acordo tornou facultativo, possível, portanto, a presença, a ausência do acento. Gustamos, gostamos, pode ter acento, pode não ter acento.

Eu gosto disso e ponho acento normalmente, porque por valer e, portanto, a mim dá-me jeito de pôr.

O acento está escrito.

Mas posso.

Mas, por exemplo, no pára já tens de tirar.

No para e no pára. Eu tiro, mas eu com torce febra mim ponho. Epá, porque a frase onde é muito óbvio, ela agrada-te. Não para um único dia. É um exemplo meu. Ela agrada-te. Não para um único dia. Ou não para um único dia. São coisas completamente diferentes. Como é que tu sabes se não tiver um pequeno acento?

A prova disso é o seguinte: há órgãos de comunicação social que quanto ao para continuam a pôr o acento.

Não sabia.

Por quê? Porque se não pusessem, não se leria assim.

Exatamente. E aquilo é pra ser lido.

Há uma notícia da RTP que é: Instituto Pasteur para desenvolvimento da vacina.

Afinal, às vezes se for para o desenvolvimento.

Mas é para! Depois abrindo a notícia.

De facto, tiraram o financiamento das investigações futuras. Quer dizer que parou.

Parou.

Cá está. Vais comprar um carro? Sim, o meu para sempre. Epá, em que ficamos? O meu para sempre?

Exatamente.

Isto é dúbio, mas eu em caso de dúvida, eu ponho sempre para.

E até um para já, para já. Na legendagem de filmes eu já reparei. O para aí ou o para já.

O para já são coisas completamente diferentes. Exatamente. Outra coisa que tu te insurges um bocadinho, o excesso de estrangeirismos e o portinglês, como por exemplo, o estresse. O mouse, tu dizes, mouse em Português é com U, acabou. É mouse, senão a gente tinha que ler isso, não era?

Mouse.

Mouse, exatamente. Complô, fichê ou nuance, esse achando de coisas tu dizes. Há sinônimos em Português. Usem as palavras portuguesas.

Exatamente. Porque não é um enriquecimento Tendo em conta a quantidade de palavras portuguesas que nós vassouramos do uso corrente.

Exatamente, tens toda a razão. Como esse estudo prova. É impressionante, 80% das vezes nós cortamos 20 mil palavras de 22.

Estamos a usar cada vez mais palavras da língua inglesa para palavras que até há pouco tempo seriam caricatas.

Como por exemplo?

Caricatas. Por exemplo, mudo para estado de espírito. Por exemplo, vou ali àquele spot.

Por quê? O que se calhar ia conduzir? Sim. Mas não faz sentido. Manuel Monteiro, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo.

Pior do que isso, abreviaturas em inglês. As pessoas já fazem abreviaturas em inglês na comunicação privada. Até já.

Vamos fazer um pequeno intervalo. Até já. Temos de conversar com o Manuel Monteiro. Ele é autor, linguista e revisor, que traz um novo livro: "Em Nome da Língua, Amén". Uma coleção de violências e heresias contra o português. É o primeiro apenas de uma coleção com conselhos estilísticos, curiosidades e delícias do nosso idioma, bem como alguns dos erros mais comuns que lemos e ouvimos nos dias de hoje. Onde é que te faz mais impressão ouvir estes erros, quando vês na televisão, na rádio?

Faz mais quando é na escrita do que na oralidade.

Numa imprensa escrita, por exemplo.

Porque na escrita nós podemos voltar atrás. Na oralidade, às vezes. Mas também sei da pressão que hoje muita gente tem, do tempo que tem para escrever, da ausência de revisores. E por isso não gosto de apontar o dedo. Mas quase sempre é possível saber quando é uma gralha, uma inadvertência, e quando é um erro que assenta no desconhecimento, na ignorância.

Na ignorância, claro. Sempre para corrigir. Uma coisa que tu te insurges é que a língua é viva. E é uma desculpa para muita gente. "Ah, isto agora usa-se assim, portanto, agora vamos incorporar o erro, porque agora toda a gente diz assim."

Dá-me só um pouquinho para explicar. Aquilo que é apresentado como progresso.

Porque a língua é uma coisa viva.

Mas isso é apresentado como uma ideia, entre aspas, progressista.

Sim.

Vamos a factos. A ortografia, para ter carimbo de Estado, demorou séculos. Ou seja, o reconhecimento de uma ortografia é uma conquista civilizacional. Esta ideia que algumas pessoas, e até linguistas, que têm espaço mediático no espaço público, esta ideia de não há regras, esta ideia de cada um fala como quer, cada um escreve como quer, no limite, levaria à desunião, à Torre de Babel.

Sim.

Haver uma ortografia, haver regras, é aquilo que permite que uma língua não esboroe. E aquilo que muitas vezes as pessoas dizem: "Oh reacionários." Não, é uma conquista civilizacional que queremos manter. É como no Orwell, guerra é paz, paz é guerra, reacionário é progressista.

A novilíngua. Exato. Mas então tu estás a dizer que é bom haver regras e estás a favor do acordo. Neste caso, então ainda bem que há um acordo.

Havia um bom acordo, o acordo de 45. Este acordo introduziu, entre muitos outros aspetos negativos, aos quais dediquei mais de 70 páginas no meu livro, por amor à língua e à literatura, introduziu um fator novo, que é: a escrita vai a reboque da pronúncia.

Da ortoépia.

Só que ninguém se entendeu, quem fez os dicionários, quem fez os vocabulários com o novo acordo, não se entenderam, como muitas pessoas avisaram que não se entenderiam, quanto a quais são as palavras que mantêm o C, o P, ou quais é que são duplografia.

Não há, portanto, um acordo com isso.

Ou seja, nós consultamos dicionários e vocabulários com o novo acordo e vemos, e eu fiz listas disso, vemos palavras que não estão registadas nos dicionários com o novo acordo, nos vocabulários com o novo acordo, da mesma forma. E depois, a minha experiência é o que me diz, a minha experiência de falar com pessoas que trabalham com a palavra, é: "Epá, olha, tanto faz." É o caminho que estamos a seguir, é o tantofazismo. E depois é sempre com esta: desde que se perceba.

Isso é uma desculpa fraca.

Para quem aprecia a linguagem enquanto instrumento de tanta coisa.

Pelo amor de Deus, é a nossa língua, é a nossa pátria, é tão importante.

Sim.

O pensamento e o patinho.

A língua para mim é uma arma de engate, é uma arma de persuasão.

De arremesso também.

Pode ser de agressão, é uma arma de consolo.

É um instrumento de amor, de tudo que tu quiseres, de contacto. Obviamente, tu falas com colegas teus, isto é, vocês são muito rivais uns com os outros. Tu, Marte Neves, Fernando Venâncio, que já cá não está, mas tu a pensar nestes nomes assim, tu falavas com eles, vocês comunicam?

Para responder à Pinto Costa, nunca me foram apresentados pessoalmente esses dois.

Ok. Está bem.

Nunca me foram apresentados, para o adorar.

Mas as coisas que lês deles ou que sabes deles, ainda bem que há outras pessoas a falar deste assunto.

Eu sou mais normativista. Eles são mais descritivistas, eles são mais na corrente daquilo que eu chamo o tantofazismo.

Ok. Portanto, permitem mais coisas do que tu permitirias.

Eles estão com o ar do tempo Eu não estou.

Muito bem. E há uma coisa que tu dizes: "Eu sou contra a língua viva e tal, todas essas coisas".

Porque há aqui um aspecto que é importante sublinhar. Os dicionários, designadamente os dicionários que tu referiste como o Houaiss e o Priberam, hoje, a uma velocidade cada vez maior, o que fazem é: as pessoas passaram a dizer a palavra assim, ou as pessoas passaram a atribuir um determinado significado a esta palavra. E rapidamente incorporam.

Incorporam essa linguagem.

Incorpora-se ou uma nova grafia ou um novo significado.

É isso. Eu sei que tu és contra isso, a rapidez com que elas se incorporam na língua.

Exatamente.

Se fosse com uma geração, com um tempo, com uns anos de uso e de sedimentação.

E depois é preciso ver o étimo. É preciso ver durante quantos séculos a palavra foi usada com determinado significado. Porque eu entendo, pega numa palavra como solarengo.

Confundida com soalheiro tantas vezes.

Exatamente. Solarengo não vem de sol. Camilo Castelo Branco tem um exemplo que é: "A Maria afastou-se do solarengo do Tâmega. Estrelas funestas." Estou aqui sem livros, nem papéis à mão.

Eu sei, eu posso atestar isso.

Se eu falhar.

Sim, exatamente. Não me levem a mal.

Não me levem a mal. Solarengo deriva do substantivo solar, não deriva de sol. Eu entendo, por mais vezes que as pessoas digam, não deva mudar. É como a estada e a estadia. Estada de pessoas e não estadia. Entendo que há inúmeras parelhas.

Estadia seria um barco num ancoradouro, por exemplo?

Sim. Um navio fretado. Entendo que-

As pessoas confundem, claro

...há inúmeras parelhas que os falantes e os escreventes estão a usar indiferenciadamente.

Volúvel e volátil, por exemplo. São coisas diferentes e com objetos diferentes. Há muitos.

E há muitos casos. Consenso não é igual a unanimidade.

Sim. Eficaz.

Eficaz não é igual a eficiente.

Exato. Como tu dizes. Exatamente.

Há muitas-

Se tu deres exemplos, as pessoas percebem, mas até aí.

Por exemplo.

Tu és bom porque dás exemplos.

Sim. Se a pessoa tiver de sair de Lisboa e ir entregar uma coisa ao Porto e sair daqui e for por Faro, mas se entregar a encomenda hoje, foi eficaz, não foi eficiente.

Cumpriu a missão. Pronto.

Não foi eficiente.

Exato. Eu estou imenso.

Porque não minimizou tempo, recursos.

É incrível. E há outras palavras, obrigado, por exemplo, aquele velho mito que é que o "arigatou" vem de coisa. Acho que já está provado que é mentira. Arigatou não vem do obrigado. Mas, por exemplo, obrigado é uma palavra muito recente. O Camões não dizia obrigado. É uma coisa que diz que vem do século XIX.

E é pesada.

Sinto-me obrigado, a vossa mercê. Pronto.

É pesada.

Passou uma interjeição de agradecimento, que não era, nunca foi. Há 300 anos ninguém dizia obrigado. É engraçado essas coisas que ficam na linguagem.

Interessa-me muito ver como palavras que significam conceitos distintos acabam por se afunilar numa só palavra. É um fenômeno linguístico a que eu estou muito atento. Aptência não é igual à aptidão. E dá muito jeito que não o seja.

Aptência é mais relacionada com apetite e desejo.

A pessoa ter interesse, vontade, não tem nada que ver com ter capacidade, dom.

Exatamente. O jeito.

O jeito.

Exato.

No meu tempo até havia os psicotécnicos para ver o jeito e para ver os interesses. E quando nós temos um léxico mais curto, nós passamos a ter menos precisão semântica. Quanto mais palavras tu tens, mais instrumentos tens, mais chaves tens de decifração da realidade e até da tua própria interioridade.

É muito importante isso. Pensar melhor.

E depois há palavras que as pessoas dizem: "São sinônimos." Por exemplo, docente, professor. Discente, aluno. Ok. Cada um usará o que quiser. Mas há muitos em que é quase sinônimo. Parece que é igual, mas não é igual.

Dizem que não há sinônimos perfeitos, é verdade?

Não há sinônimos perfeitos se nós entendermos que as palavras são não apenas o significado, mas a sua forma visual e a sua expressão sonora e a sua etimologia e o seu uso ao longo do tempo e a sua família de palavras. Chamo a atenção para: há palavras que hoje são utilizadas indiferenciadamente e que na mente dos receptores já são indiferenciadas, mas que não eram. Tu deste o caso figura proeminente, é uma coisa. Um nariz proeminente, uma saliência física, é outra. O pior de tudo é que os dicionários digitais acabam por anular estas diferenças.

E integram tudo.

E repito, integram tudo.

A uma velocidade muito rápida.

Amalgamam.

O amálgama. Outra coisa que eu queria contigo. O amálgama.

O amálgama.

Esta é toda legal. Não é uma, é gente toda.

Eu tenho, por exemplo, uma tradução dos circulares de 1984, de Orwell, que tem o amálgama.

A sério? E as pessoas pensam: "Olha, uma gralha. O tradutor deixou passar uma gralha. Tradutor e traditor."

Eu gosto muito de fazer sempre perguntas às pessoas sobre língua. E aquilo que observo é: não é que a pessoa pense que é uma gralha, é que a pessoa nem reparou.

Pois, isso é pior. Mas tu obviamente reparaste.

Um estudo que eu gostaria que fosse feito é: as pessoas, a meu ver, leem cada vez mais depressa.

Sim.

Leem cada vez mais depressa.

E menos.

E menos.

As duas coisas são más.

É porque nós temos instrumentos que nos permitem aferir quantos livros são vendidos. Mas lidos não temos. Não temos um polícia a ver se a pessoa está a ler e a fazer lhe perguntas no fim.

Exatamente. Como se fosse nas aulas.

O que eu sei é: consigo ver que, andando de transportes públicos, não estou a dizer que ando todos os dias, mas andando de transportes públicos, estou a ouvir as pessoas e estou a ver as pessoas que estão sentadas. E eu antes via pessoas com livros, hoje não vejo pessoas com livros.

Vais de metro em Londres?

Em Londres, sim.

Andam com livros, jornais.

Mas provavelmente em Londres hoje também tens mais pessoas agarradas ao telemóvel do que tinhas há uns anos.

Talvez. Sim, isso acredito que sim. Já estou como o Carlos Ruiz Zafón disse-me um dia. Ele trabalhava em guiões, coitado, já cá não está. Trabalhava em guiões em Los Angeles. "Os teus livros vão andar, 'A Sombra do Vento', um dia vão dar filmes. Faz-te impressão as tuas histórias passarem a filmes?" E ele: "Não, o livro é um suporte. Como um dia será, se calhar, um chip injetado na tua cabeça. Não quer saber. A história é que é o importante, o conteúdo é que é importante. Agora, se é em livro, se é audiodisco, se é audiolivro, se é o que tu quiseres, para mim é totalmente indiferente." Mas ele dizia isso um bocadinho. A história está lá, o conteúdo está lá, as palavras estão lá. O processo já é outra coisa.

Eu vou dizer também uma coisa que penso há muito tempo: para mim, um autor de literatura não deveria dar uma entrevista a falar sobre o seu livro. Todas as palavras estão no livro. Se tens alguma coisa a acrescentar...

"Como é que te lembraste disto? Como é que te lembraste daquilo?"

Não, essa parte sim. Mas quando dizem: "A personagem é..." ou "Eu quis dizer que..."

Há quem diga: "O personagem é..."

Exatamente. Ou até realizadores de filmes. O que estou a dizer é: não se afunile a interpretação do outro.

Para deixarem aberto.

Quando o autor, quando o realizador diz: "Não, mas esta música, se quiseres, foi escrita para ser interpretada assim." Mas estás a afunilar a interpretação.

Exatamente, a cabeça das pessoas. E quando a pessoa entrega o livro, deixa de ser dela.

Totalmente de acordo.

Esta semana entrevistei a Joana Berta, o "Meu Ecologia" só descobri depois das pessoas lerem muitas vezes, é que disseram que era uma distopia. Eu não sabia que era uma distopia, é engraçado isso. Depois eu percebi que os livros já não têm nada a ver comigo, é outra pessoa. Isso é muito giro. Outra coisa que me faz muita impressão, vou dizer já aqui: poeta e poetisa. Ter que dizer poeta quando é mulheres, eu penso: por quê? Se é uma palavra tão bonita que diz poetisa. Mas diz que a Sofia não gostava, achava que era um poeta menor.

Eu sei.

Portanto, ficou para sempre. Mas por que ela fica para sempre? Poetisa é uma palavra linda e quer dizer mulher que escreve poemas. Poetisa, não tenho problema nenhum com isso. Há quem não goste.

Para mim, poetisa, à luz da eufonia, do som agradável, da melodia que a palavra encerra, é uma palavra particularmente eufónica.

Exatamente. Quer dizer bonita, que soa bem. Quer dizer isso.

Profeta, profetisa. Que soa bem.

Eufónica, ok.

Profeta.

Profeta, profetisa. Sim.

Diaconisa, papisa. Para mim são palavras particularmente melodiosas.

Claro que sim.

Esse interdito da Sofia também era inserido numa cultura que não é a de hoje.

Exatamente. Há um contexto.

E também, na altura, os dicionários, eu sei porque tenho um dicionário do José Pedro Machado. Eu andei a procurar em dicionários mais antigos a definição de poetisa. E de facto, em dicionários mais antigos, há pelo menos uma aceção que diz: escritora menor.

Ok.

Mas já ultrapassamos isso.

Exatamente. Formidável, por exemplo, outra palavra. Formidável é incrível. E é uma coisa que mete medo.

E ainda hoje, mesmo nos dicionários mais conhecidos, de grande consumo, ainda hoje as pessoas que vejam, se calar alguém vejam em papel ninguém vai ver, mas vejam até nos digitais, as pessoas hoje já vão ver só a IA, ou o resumo da IA que aparece cá em cima no Google.

Exato, os insertos.

Registam na primeira aceção que infunde terror. Medonho.

Na primeira não sabia, eu vi na segunda ou terceira. Primeiro, formidável, extraordinário, incrível, não sei o quê. E depois é que vi no segundo significado que infunde terror, infunde medo. Exatamente. Mas esse é que é originalmente o sentido da palavra.

E ainda há dicionários hoje que estão com a primeira aceção. Dicionários dos modernenses.

A dengue, não se deve dizer o dengue. A dengue, por exemplo, aprendi contigo. Eu aprendi muito contigo. No "Fenomenalisto", o teu "O intolerante e outras histórias reais", que é extraordinário, que tu falas até com taxistas e tens um capítulo só para as conversas com taxistas, eu acho isso extraordinário. São 200 histórias que te marcaram ou que marcaram pessoas próximas e que te foram contando. E aprendi, por exemplo, a espreitar pelo binóculo.

Pelo binóculo. Mas isso dos taxistas, sendo absolutamente genuíno, eu ouço histórias absolutamente deliciosas.

Sim, toda a gente que anda de táxi. Hoje já não, porque no Uber não falam para eles, não falam para ninguém.

Eu tendencialmente não ando de TVDE.

Pois, eu percebo.

Mas não estou a fazer nenhum julgamento moral.

Eu estou.

Prefiro o táxi.

Sim, mas as conversas são extraordinárias.

As conversas são extraordinárias. Não é, as conversas são sempre extraordinárias. Antes dos outros ofícios, há muito mais histórias que me ficam na cabeça.

Claro. Vives histórias.

2026. Eu estava a apanhar um táxi na Praça da Mexicana.

Sim, na Praça de Londres.

Na Praça de Londres, obrigado. Vou entrar no táxi. Era um senhor, diria com 70 e muitos, pelo aspeto. E eu ouço esta frase. Eu vou ser o mais rigoroso possível. Ouço esta frase Houve uma mulher que me lançou uma maldição. Eu disse o sítio para onde ia e ele disse: "Houve uma mulher que me lançou uma maldição". Eu não liguei. Passado pouco tempo, houve um tipo que fez a ultrapassagem, ajuda-me agora, que não se faz.

Pela direita.

Ultrapassou pela direita. E ele diz: "A maldição". E eu: "Pronto, disparate". Passado um bocado, aparece um bando de tunas no meio da estrada que impedem o trânsito. Eu não acredito em bruxas. Já estava a chegar à minha casa, e vem um tipo a abrir e ultrapassa outra vez pela direita. O tipo virou-se para trás e disse-me assim: "Já acredita na maldição?" E eu assumo o meu medo. Ele assim: "Já acredita na maldição?" E eu disse-lhe assim: "Olhe, acautele-me a mãe devagar". Eu próprio admito que já estava com medo da possibilidade da maldição.

Outra coisa que aprendi contigo neste do funambulista: corr irmãos. E eu acabei de ler um livro onde dizia corr irmãos. Eu pensei: isto não me soa bem. E depois, de fato, tu dizes: "Corr irmãos, pelo amor de Deus, é onde nós corremos as mãos". É tão fácil como isto. Se soubesses a etimologia, se soubesses a origem. Isto ajuda imenso a não dar erros.

E depois há a outra corrente de outros linguistas que defendem: "Não, mas nós temos limão e limões, mas em limão não está a mão com cinco dedos."

Temos que parar um pouco, por favor.

Mas eles pegam no limão porque termina em mão. Mas no limão não está a palavra mão com cinco dedos, como nós temos.

Sim, óbvio. Está bem, não é como se fosse regra.

Como nós temos uma mão. Certo. Mas em de mão está o elemento mão.

A cotonete.

Se não me falha a memória, é uma palavra que tem um gênero diferente no português europeu e no português do Brasil.

Não sabia, talvez. Em português deve ter muitas diferenças.

Há muitas diferenças.

Sim, o aluno não reprovou, foi reprovado.

Foi reprovado.

Quem reprova é o professor.

Agora já não faz parte da nomenclatura oficial.

Já não são bons. Extraordinário.

O orçamento pode ser reprovado, porque quem está no papel de reprovador é que reprova.

Exatamente.

Se pensarmos ao contrário, ninguém falha. Ele aprovou? Não, foi aprovado.

É como eu não dar erros no A com H ou sem H, porque eu lembro sempre de substituir por existe. Se puder substituir por existe, ajuda a saberes onde é que podes fazer isso. O acento, depois, é outra questão. A síndrome, eu não sabia. Tenho dois irmãos médicos, às vezes diziam uma síndrome.

Os médicos dizem constantemente mal glicemia em vez de glicemia.

Que é o que você deve dizer.

Glicemia, sem acento.

E logótipo?

Glicemia, anemia, septicemia, sem acento.

Ah, septicemia. As pessoas dizem septicemia, você tem razão. É como se deve dizer, septicemia?

É como se deve dizer, sem acento.

E glicemia.

E glicemia. Como leucemia e anemia.

Está bem, mas leucemia já as pessoas dizem normalmente e anemia também. Pronto, cá está, a outra não. Dizem mal, exato. TAC deve ser a.

É a tomografia axial computadorizada. Outra que os médicos falham muito.

Fevereiro deve dizer é o mês mais pequeno, mas dizer mais grande já é um erro.

Deu maior.

Pois, mas mais pequeno pode se dizer, é estranho. Aqui, por carga d'água. É que o mais pequeno deve se dizer, pode se dizer, e o mais grande não.

Nós temos regras que não têm exceções e temos regras que têm exceções. E depois também temos de aceitar que há uma parte da língua em que o povo, que é um conceito muito impreciso. Porque o povo ora pode ser feito para todos nós, portugueses, como pode ser feito para determinadas camadas sociais. E há regras sem exceções, há regras com exceções.

Exatamente. Isso é um mundo.

E todas as línguas têm as suas particularidades, as suas expressões idiomáticas.

Em 10 segundos, porque o nosso tempo já passou, por que é que neste título está Ámen? Em nome da língua, ponto. Ámen. Por que o Ámen?

Eu acho que isso foi um clarão. Quando me apareceu, houve uma voz em mim que disse: "É este".

Assim seja. Ok. Mas agora, isto é um livro um, diz embaixo, na Penguin. Quer dizer que vai haver dois, três, já está em esse material.

Vai e não vão, muito bem.

Vai haver. Exatamente. Olha, vais voltar. Gostei muito.

Só acertou mal os bilhões, eu não corrigi.

Ah, bilhões, disse?

Porque disseste como se fossem mil milhões.

Isso eu diria bilhão, porque bilhão é que é, na minha ideia, é milhão. Bilhão é milhão de milhão.

Bilhão é milhão de milhão.

Mas ao invés de ser bilhão, que é diferente, é milhar de milhão.

Porque o português do Brasil tem um critério igual ao dos Estados Unidos.

Está bem. Então a palavra bilhão existe em português? Sem ser bilha grande.

Do Brasil.

Ah, ok. Em português continental, não.

Cá é bilhão e significa um milhão de milhões, como disseste.

Está bem. Então pra milhar de milhão, não há nenhuma palavra portuguesa em Portugal, no português daqui?

Dizemos milhares de milhões.

Está bem. Porque em tempos vinha dizer: não, distingue bilhão, milhão de milhões.

E depois tem os portugueses que fazem uma coisa errada, que é dizer dezenas de milhar. São dezenas de milhares, centenas de milhares.

E há quem diga os sacaduras. Eu tinha um professor que dizia: "Nunca se põe plural num apelido. Apelido é apelido".

Está certo.

Pronto. O quê? Diz o quê? Sacaduras?

Sacaduras é como os Maias.

Pois, mas há professores meus muito coisos que diziam.

Os Antónios, as Marias.

Isso é diferente, mas de apelidos diziam: não.

Apelidos Maias.

Está bem, eu sei. Os Gonçalves é óbvio, mas, por exemplo, os Souza.

Os Souzas.

Pois, há quem diga que não se deve nunca pôr plural. E diziam: e gramas deve ser 30 quilo. Um quilo não se põe plural.

Sabes de onde é que vem a ser?

Não.

Vem de o símbolo da unidade KPM, quilômetro, não tem o S a seguir, mas na escrita portuguesa escreve-se quilômetros.

Sim.

Dois metros, dois minutos, duas horas, duas pessoas, duas mulheres.

O professor Camões tinha: "dois metro". E eu: "Ok". Nunca se põe o plural numa unidade. Eu: "Está bem. Pronto, ok, professor". Mas passei.

Nas siglas e nos acrónimos é que não se põe. Os Tolopos, saí eu.

Manuel Monteiro, temos tanta coisa para conversar ainda da próxima vez que vieres. Quando é que sai o próximo do livro dois?

Entretanto, ainda vai sair outro.

Outro? Está bem. Eu quero que tu voltes. E também falemos da questão de que tu escreves, até na Almedina, outras coisas. Ficção, também?

Também já publiquei ficção. Publiquei dois livros de ficção, publiquei um livro em coautoria de literatura infantil.

"Um dia". Esse eu sabia.

E tenho dois livros de ficção. Até estou em coautoria neste de poesia.

Mas onde assinas Manuel Monteiro?

Manuel Monteiro, Manuel Matos Monteiro.

Nunca é com pseudónimos?

Como revisor já fui com pseudónimo.

Não assinas com o teu lindo gestão, pois não?

Como revisor já tive de escolher outro nome. Porque o autor queria passar o errado por certo.

Passar o errado por certo.

"O escritor fantasma sombra, às vezes os revisores são." Há autores que dizem: "Em vez de arranjar, quero alugar. Não, mas eu quero assim. Não, mas para mim é assim."

Alugar é coisa de nomes, obviamente.

Ou não cooperamos ou o meu nome não fica aí, ou vai ficar um pseudónimo.

Muito bem, Manuel Monteiro, muito obrigado pela tua disponibilidade em vir aqui ao Observador.

Gostei mesmo muito.

Obrigado. Já sabe, aqui numa edição da Penguin, Manuel Monteiro, "Em Nome da Língua, Ámen: Coleção de Violências e Heresias contra o Português", porque é uma das minhas cruzadas, a língua portuguesa, eu gosto muito. Gostei muito de te ouvir, vais voltar com certeza. E de facto, temos que falar mais, ter mais vocabulário, ler mais para pensar melhor. Isso é muito importante e eu sei que é uma das coisas que tu defendes. Bem-hajas, Manuel, até breve.

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