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Thursday, October 8, 2026

Mulheres de duas gerações diferentes se encontram em nova mostra em São Paulo

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Artistas de diferentes gerações se unem agora na mostra "Por Elas, Com Elas: Do Moderno ao Contemporâneo", em cartaz nas duas sedes da galeria Dan, em São Paulo. As exposições evidenciam as trajetórias e pesquisas de pioneiras na ampliação dos limites da arte brasileira.

O recorte histórico conta com obras raras e menos conhecidas de Tomie Ohtake, Lygia Clark, Yolanda Mohalyi e Mary Vieira. É uma celebração da época que vai dos anos 1950 até o início da década de 1970, quando mulheres tiveram destaque.

"Esse é um período muito importante, porque é a chegada da abstração. Até então havia uma preocupação de se construir uma identidade nacional por meio da arte. Isso cai a partir da Bienal de 1951", diz a curadora da exposição, Maria Alice Milliet.

Muitas das obras têm caráter geométrico, típico do primeiro momento da segunda onda modernista. Numa geração que já voltava a se deixar influenciar pelas descobertas estrangeiras e que almejava criar uma arte internacional e racional, Piet Mondrian —que teve uma sala especial na Bienal de São Paulo de 1953— foi influência para essas artistas, segundo a curadora.

"Mas, apesar de elas estudarem aquele modelo com muita admiração, elas estavam indo dali para frente. Elas não se limitavam a copiar —o que, inclusive, causou na época quase um mal-estar na Europa", afirma Milliet.

No espaço da casa nos Jardins, na zona oeste paulistana, a mostra exibe um dos célebres "Bichos" de Clark, símbolos do momento fecundo e inovador que consagrou a brasileira como pioneira mundial na escultura articulada. Esse exemplar, em particular, segundo a organizadora da mostra, tem algo de especial, por parecer ser fruto de um estágio embrionário de experimentação, visto que sua flexibilidade ainda não permite explorar todas as dobras e articulações.

Essa é outra característica marcante na organização da exposição —muitos trabalhos revelam a fase de pesquisa das artistas. Ali se destacam páginas de um caderno de estudos de Eleonore Koch dedicadas à investigação da cor, em que, pelo domínio da têmpera, é possível notar a estreita ligação entre a artista e seu mestre, Alfredo Volpi.

A segunda parte da mostra ocupa o outro endereço da galeria, no Itaim Bibi. A apenas dez minutos de carro, os dois prédios guardam uma distância temporal de meio século entre as seleções de obras que acolhem. Nesse lugar estão expostos trabalhos das artistas representadas pela galeria atualmente. Se o primeiro bloco da mostra privilegia obras pequenas e delicadas, o segundo aposta em trabalhos monumentais que discutem questões ligadas à natureza e ao feminino.

Em grandes quadros, Adriana Rocha explora o desgaste. Ela lava as próprias telas em seu jardim com uma mangueira e depois desenha em cima do que sobrou. Em seguida, repete o procedimento várias vezes. "É quase um fragmento de memória de um mundo que está desaparecendo", diz a curadora.

A única artista que ultrapassa esse intervalo temporal é Maria Martins, que tem ali uma grande escultura de bronze feita a partir de um gesso fabricado em 1931. Nela se mostram duas formas escuras, sinuosas e alongadas, que, ao se curvarem uma sobre a outra, lembram, pela cabeça baixa, o "Abaporu" de Tarsila do Amaral.

Essa obra, que evoca uma figura maternal, quase divina, está posicionada no espaço de frente para outra escultura, feita por Anke Eilergerhard, uma manifestação da abundância do corpo feminino. Mas, se a primeira é sóbria e espartana, a segunda aparece como um contraponto de extravagância quase barroca.

Ainda no prédio, Roberta Goldfarb trabalha com a ideia de aprisionamento em duas séries fotográficas. De um lado, autorretratos mostram a artista com a cabeça numa gaiola; do outro, peixes agonizam em sacos num mercado de Hong Kong. "Há aqui um paralelo entre a mulher e esses pequenos animais que viraram uma Coca-Cola", diz Milliet.

Esse enclausuramento ressurge na obra de Lucia Castanho, que pensa a juventude ceifada de mulheres assassinadas precocemente em nossa sociedade, aliando o tema a "uma certa atração, quase mórbida, pelo embelezamento da morte", como observa a curadora.

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