It’s (not just) the economy, stupid

Há dois anos, Donald Trump parecia imbatível. Regressou à Casa Branca depois de vencer, pela primeira vez, o voto popular contra um Partido Democrata sem rumo após a desistência de Joe Biden e de uma campanha desastrosa de Kamala Harris. Falava-se de realinhamento, de uma maioria republicana que se estenderia pela próxima geração, de um partido democrata condenado. Menos de dois anos depois, o cenário é outro. A Câmara dos Representantes parece, à partida, um assunto arrumado a favor dos democratas. E o Senado, que há um ano parecia inalcançável para os democratas, dado o mapa de estados em jogo, poderá também estar em jogo na eleição de hoje.
Mais do que a dimensão desta recuperação, importa perceber onde ela está a acontecer e porquê. Os democratas ameaçam agora os republicanos no seu próprio território, em estados rurais e conservadores onde o GOP é a força dominante há décadas. E parecem tê-lo conseguido porque deixaram de tratar a economia, a corrupção da administração Trump e a expansão dos centros de dados como temas separados, fundindo-os num só. O resultado é um Partido Republicano obrigado a jogar à defesa em estados que há muito dava como garantidos. Basta olhar para alguns deles.
No Alaska, Mary Peltola, a candidata democrata, surge com hipóteses reais de vencer o republicano Dan Sullivan, num estado onde Trump venceu, em 2024, por mais de 13 pontos percentuais. A campanha de Peltola tem sido marcadamente de base, assente nos três “f’s”: fish, family and freedom (peixe, família e liberdade). Peltola tem a seu favor um historial de sucesso eleitoral no estado: em 2022 foi eleita para a Câmara dos Representantes, tornando-se a primeira democrata eleita pelo Alaska para a câmara baixa em 50 anos. Agora, espera pôr fim a uma seca democrata de quase duas décadas nas eleições para o Senado no Alaska e, a julgar pelas sondagens, poderá mesmo consegui-lo. Há, porém, uma nuvem que paira sobre a reta final da campanha. Segundo o New York Times, pessoas ligadas à campanha de Peltola terão recrutado um outro Dan Sullivan (o nome é efetivamente igual ao do candidato republicano, não é uma gralha) numa tentativa de diluir o apoio ao candidato republicano. Um pouco confuso, eu sei, mas aparentemente era exatamente esse o objetivo. Importa ressalvar que Peltola nega qualquer envolvimento e que esta prática, conhecida como ballot stacking, não é ilegal nos EUA, mas a controvérsia poderá, não obstante, fazer diferença numa corrida que se adivinha decisiva.
No Texas, a história é parecida. James Talarico lidera consistentemente as sondagens há alguns meses, contra o republicano Ken Paxton, num estado que Trump venceu há dois anos por quase 14 pontos e que não elege um democrata para o Senado há 38 anos. Para se perceber o quão surpreendente é esta reviravolta, basta recuar a 2018, quando Beto O’Rourke provocou alvoroço nacional por aparecer empatado, ou quase, com Ted Cruz. O’Rourke acabou por perder, mas nunca teve a vantagem consistente de que Talarico hoje goza. Uma vitória de Talarico significaria uma oscilação de pelo menos 14 pontos a favor dos democratas num estado que tem sido o coração do MAGA há mais de dez anos. Mesmo uma vitória tangencial de Paxton, evitando o cenário apocalíptico, dificilmente poderá ser lida como uma vitória para os republicanos num estado que há apenas um ano era considerado seguro.
O Kansas segue o mesmo padrão. O democrata Adam Hamilton tem vindo a aproximar-se do republicano Roger Marshall, e algumas sondagens dão-no mesmo à frente. Marshall pode muito bem manter o lugar, mas o simples facto de o Kansas estar em jogo seria, até há pouco, impensável num estado que Trump venceu por mais de 16 pontos em 2024 e que não elege um democrata para o Senado desde 1932.
Há ainda dois estados que merecem menção (prometo que são os últimos). No Ohio, Sherrod Brown goza de uma vantagem relativamente confortável sobre o senador Jon Husted, mais conhecido como o homem cujo traseiro Trump decidiu elogiar em pleno comício após o ter “examinado”. Brown foi senador pelo Ohio entre 2007 e 2025, até perder a reeleição para Bernie Moreno, pelo que uma vitória seria menos impactante do que nos estados anteriores. Ainda assim, falamos de um estado que Trump venceu por mais de 11 pontos em 2024.
Por fim, o Iowa, um estado que Trump venceu por mais de 13 pontos. Também aqui, há um ano, a corrida nem era sequer disputada, e agora o democrata Josh Turek aproxima-se da republicana Ashley Hinson.
Junte-se a isto o facto de Trump ter andado em campanha em estados como o Mississippi, o Nebraska, a Carolina do Sul e a Florida, e o cenário torna-se claro. Estas eleições não se farão apenas nos típicos swing states. Também os estados do chamado “Trump country” podem estar em risco.
Há aqui uma ressalva a fazer. As sondagens têm sido pouco fiáveis nos últimos dez anos, sobretudo por sobrestimarem o apoio democrata. O problema tem sido mais grave nas presidenciais do que nas intercalares, onde as sondagens se revelaram até bastante certeiras em 2018 e 2022, mas convém reconhecer que os números falham. Ainda assim, mesmo que os democratas não conquistem o Senado nem vençam no Texas, no Kansas ou no Alaska, o facto de estes estados estarem sequer em jogo deveria servir de alerta para o GOP.
A questão óbvia que se coloca é: porquê? O que explica esta possível “onda azul”?
Uma resposta são os preços. Como diz o velho ditado, “é a economia, estúpido”. Os americanos há muito que votam com a carteira; aliás, o próprio ditado remonta a James Carville, em 1992, durante a campanha de Clinton. Mas, recentemente, os eleitores tornaram-se especialmente intolerantes. Pelo menos parte desta tendência parece ter a sua origem nos picos de inflação que se seguiram à pandemia de Covid-19. Entre 2000 e 2020, a inflação média nos Estados Unidos rondou os 2,2%, com a taxa anual mais alta, de cerca de 3,8%, em 2008. Duas décadas de inflação baixa deixaram os americanos especialmente sensíveis quando, em 2022, a inflação ultrapassou os 9%. Foi, em grande medida, isso que tornou os democratas tão impopulares em 2024. Pouco importou que, no dia das eleições, a inflação já tivesse descido para perto dos 2,5%: os eleitores não sentiram que recuperaram o poder de compra perdido. Agora são os republicanos que estão no poder e, depois de terem prometido baixar o custo de vida, sofrem a mesma reação. Naturalmente que as guerras tarifárias de Trump, assim como a guerra no Irão, pioraram o problema de forma tremenda, mas há algo mais profundo que torna a inflação tão tóxica para quem governa. Números baixos não chegam. Não digo que não importem, importam. Mas depois de um grande choque inflacionista, o peso marginal de cada nova subida, por mais pequena que seja, é muito superior àquilo que o número faria supor.
Há uma segunda razão, relacionada com a primeira, que parece justificar o aparente declínio no apoio a Trump: os efeitos que estão a tornar o Presidente impopular sentem-se sobretudo nos estados rurais e republicanos que o elegeram. O Alaska, o Texas, o Kansas, o Ohio, o Nebraska, o Iowa, a Geórgia, a Carolina do Sul e até a Carolina do Norte têm grandes setores agrícolas que dependem de combustível barato, sobretudo gasóleo, para sobreviver. Com a guerra de Trump no Irão a fazer disparar os preços dos combustíveis (em muitos destes estados, subiram mais de 60% desde o início do ano), a popularidade de Trump entre agricultores e grandes proprietários agrícolas afundou, abrindo espaço para os democratas. Mas não é só o gasóleo. O encerramento do Estreito de Ormuz fez também subir o preço dos fertilizantes (cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes passa por Ormuz), um elemento menos falado mas igualmente essencial para a atividade agrícola. Como resultado, as falências agrícolas aumentaram 19% nos primeiros nove meses deste ano, sobretudo no Midwest e no Sudeste dos EUA, precisamente onde Trump tem historicamente das suas maiores bases de apoio.
Mas, por mais importante que seja a economia, não parece que seja “só a economia, estúpido”. Os inquéritos sobre as prioridades dos eleitores continuam a pôr o custo de vida e a inflação entre os problemas mais relevantes, como seria de esperar. Só que dois outros temas têm vindo a ganhar um peso inédito.
O primeiro é a corrupção. Durante a maior parte de uma década, os democratas viram-se frustrados com a aparente apatia dos eleitores perante aquilo que consideravam ser a corrupção flagrante da administração Trump. Parte do problema sempre foi o volume. As notícias de escândalos envolvendo Trump, a sua família ou os seus associados tornaram-se tão frequentes que os eleitores acabaram por se habituar, por ficar indiferentes. A estratégia inicial dos democratas, que passava por enumerar escândalos na esperança de que a acumulação fizesse alguma diferença, pouco mudou. Hoje, várias sondagens mostram um quadro diferente, com a corrupção a surgir no topo das preocupações dos eleitores. Isto parece dever-se, em parte, ao facto de os democratas terem finalmente encontrado uma forma de falar sobre o tema que ressoa com os eleitores. Os candidatos do partido deixaram de apresentar a corrupção como uma questão moral, deontológica sobre os limites do poder presidencial, passando a ligar o enriquecimento da administração Trump diretamente à crise do custo de vida. Jon Ossoff, na Geórgia, e Talarico, no Texas, são talvez os melhores exemplos desta estratégia. Talarico resumiu a ideia ao dizer que o país tem uma crise de acessibilidade porque tem uma crise de corrupção. Esta renovada forma de abordar o problema da corrupção tem permitido ao partido tornar concreto um tema que, durante anos, os eleitores viam como abstrato, tornando-o inextricável da questão económica.
Mas esta estratégia não foi inventada por Ossoff e Talarico. Vimos uma retórica semelhante vinda de Péter Magyar, que ligou a crise económica na Hungria à corrupção de Orbán, traçando uma relação direta entre o enriquecimento da elite governante e o empobrecimento dos húngaros comuns. Essa mensagem não só ressoou com os eleitores como pôs fim a 16 anos de Orbán no poder. Mais recentemente, na Sérvia, vimos como o movimento de oposição, a Lista dos Estudantes, conseguiu derrotar Aleksandar Vučić, com uma campanha em que a corrupção esteve sempre em primeiro plano. Foi o culminar de quase dois anos de protestos, que começaram com a tragédia na estação de Novi Sad, um episódio que ficou emblemático dos efeitos nefastos da corrupção no país. Em ambos os casos, a principal causa mobilizadora foi a corrupção, ou melhor, a ligação entre a corrupção e a vida material dos eleitores. É essa ligação que os democratas parecem ter finalmente aprendido a fazer.
O segundo tema surpreendentemente saliente são os centros de dados (data centres). Durante muito tempo, os democratas foram o partido da tecnologia. Era dos republicanos que vinha muita da ansiedade em relação aos avanços tecnológicos demasiado rápidos. Mas isso começou a mudar com a vitória de Trump em 2024, quando vários bilionários da tecnologia, com Elon Musk à cabeça, mas também Sam Altman, Mark Zuckerberg e até Jensen Huang, se aproximaram do Presidente. Esta aproximação coincidiu com a explosão dos centros de dados construídos para alimentar os modelos de IA, sobretudo no Midwest, no Sudeste e no Texas. Com os centros de dados veio a ansiedade dos eleitores, tanto pela sensação de que as grandes tecnológicas estavam a invadir as suas comunidades como pelo receio de que o enorme consumo energético destes centros fizesse disparar o preço da eletricidade.
Trump tem desvalorizado estas ansiedades, chegando a chamar “atrasadas e pobres” às comunidades que rejeitam centros de dados. Os democratas fizeram o contrário. Na verdade, esta estratégia começou em 2025, quando Abigail Spanberger e Mikie Sherrill se candidataram a governadoras da Virgínia e de Nova Jérsia, respetivamente. As suas campanhas centraram-se no custo de vida, em especial nos preços da eletricidade, e usaram os centros de dados como arquétipo do problema. Ambas venceram por margens superiores ao esperado, o que poderá ter levado outros democratas a seguir a mesma estratégia. A campanha de Sherrod Brown no Ohio é talvez o exemplo mais claro de como os centros de dados se tornaram um tema decisivo, mas candidatos como Talarico, Ossoff e Troy Jackson também souberam usá-lo a seu favor. Tal como no caso da corrupção, os democratas conseguem assim apresentar o Partido Republicano como o partido dos bilionários e das elites, assumindo a retórica populista que serviu os republicanos, sobretudo Trump, no passado.
Estas eleições inauguram também a corrida para 2028. Para os republicanos, uma derrota deixará o partido a preparar a sucessão de um presidente cada vez mais enfraquecido e sem a certeza de que a coligação de 2024 ainda existe. Para os democratas, o caminho até 2028 passará pelo Congresso. Com o veto de Trump a bloquear qualquer iniciativa legislativa significativa, o partido procurará usar os poderes de investigação no Congresso para pressionar a administração, abrindo inquéritos aos negócios de Trump e dos seus associados. Dois anos de inquéritos deixarão a corrupção no centro da próxima campanha presidencial, independentemente das restantes divergências intrapartidárias. Junte-se a isso os centros de dados, e os democratas chegarão a 2028 com algo que faltou ao partido durante uma década: um discurso populista capaz de falar ao eleitorado que Trump conquistou.
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