Tem medo de falar em público? Atriz da Broadway revela técnicas para vencer o nervosismo
Nova Iorque, EUA* - Antes de entrar em cena, um ator da Broadway precisa dominar muito mais do que suas falas. Respiração, postura, presença e capacidade de transmitir emoções são habilidades fundamentais para conquistar a atenção da plateia. Mas essas mesmas técnicas também podem ajudar profissionais que precisam apresentar projetos, liderar reuniões, negociar contratos ou falar diante de uma audiência.
Foi com essa proposta que um grupo de empresárias e executivas brasileiras participou de um workshop de comunicação nos bastidores da Broadway, em Nova York, durante o Programa Salto + Alto, imersão internacional voltada ao desenvolvimento de liderança, posicionamento e influência feminina, liderado por Tatiana Marzullo.
O encontro aconteceu no Pearl Studios, espaço utilizado para ensaios e audições de produções teatrais, e foi conduzido pela atriz americana Angela Pierce, que já participou de 11 espetáculos da Broadway e estudou interpretação na tradicional Juilliard School, em Nova York.
Com participações em séries como Law & Order: SVU, Manifest, The Blacklist e 30 Rock, a atriz compartilhou técnicas de preparação utilizadas no teatro e mostrou como elas podem ser aplicadas à comunicação profissional.
A primeira lição foi direta: antes de tentar conquistar a atenção de uma plateia, é preciso aprender a estar presente.
"Quando você apresenta a si mesma e a sua empresa, está transmitindo confiança, contando uma história e demonstrando entusiasmo por aquilo que está prestes a compartilhar", afirmou Pierce durante o treinamento.
Segundo a atriz, a confiança de quem fala influencia a maneira como a audiência recebe a mensagem.
"Queremos ver você presente, disponível e confiante. Porque a confiança ajuda as pessoas da plateia a depositarem confiança em você", disse.
Abaixo, veja as 4 dicas para fazer uma apresentação em público com sucesso:

Angela Pierce, que já participou de 11 espetáculos da Broadway e estudou interpretação na tradicional Juilliard School, em Nova York: "Queremos ver você presente, disponível e confiante" ( MediaPunch / Colaborador/Getty Images)
1. Aprenda a respirar antes de falar
Ao contrário do que muitos profissionais imaginam, uma boa apresentação não começa quando alguém abre a boca para falar. Para Pierce, ela começa no controle da respiração e na consciência corporal.
Durante o workshop, as participantes foram convidadas a formar um círculo, relaxar os ombros, posicionar os pés na largura do quadril e realizar exercícios de respiração.
A atriz explicou que, diante de uma situação de exposição, como uma apresentação importante ou uma reunião decisiva, muitas pessoas começam a antecipar mentalmente tudo o que pode dar errado.
Essa preocupação faz com que percam a conexão com o momento presente.
"Quando começamos a ficar ansiosos ou nervosos e antecipamos o que vai acontecer durante uma apresentação, prendemos a respiração", explicou.
Para demonstrar uma alternativa, Pierce conduziu um exercício em que as participantes inspiravam durante cinco segundos, seguravam o ar por mais cinco e expiravam pelo mesmo período. A sequência foi repetida três vezes.
O objetivo era ajudar as profissionais a perceber a própria respiração e recuperar a concentração antes de falar.
"Quando você entra em uma sala para fazer qualquer tipo de apresentação ou participar de um debate, lembre-se de entrar por inteiro. Seu corpo é o seu instrumento", afirmou.

Angela Pierce, atriz da Broadway, treinando as participantes do Programa Salto + Alto, diretamente do Pearl Studios, espaço utilizado para ensaios e audições de produções teatrais em Nova Iorque, EUA (Dione Lopes)
2. Aqueça a voz antes de uma apresentação
Outro exercício envolveu a emissão de sons e a preparação da voz.
Na Broadway, atores realizam aquecimentos antes de subir ao palco. Segundo Pierce, profissionais que precisam falar em público também podem se beneficiar dessa preparação.
"É muito importante fazer um aquecimento antes de qualquer apresentação, especialmente quando você sabe que pode ficar nervosa", disse.
A atriz incentivou as participantes a produzir sons e liberar a tensão acumulada antes de começar a falar.
"Faça sons. Coloque essa energia nervosa para fora de você, para que consiga estar presente", orientou.
Para ela, desenvolver a voz não significa apenas aumentar o volume, mas reconhecer a importância da própria participação em uma conversa.
"Sua voz é muito necessária para a conversa e para todas as conversas das quais você participa."
A recomendação vale especialmente para situações em que profissionais precisam defender ideias, apresentar resultados ou se posicionar diante de pessoas mais experientes.
3. Substitua o medo pela confiança
Durante o treinamento, Pierce também abordou a maneira como os profissionais interpretam situações que provocam insegurança.
Segundo ela, muitas pessoas chegam a uma apresentação já convencidas de que será uma experiência difícil.
O problema é que esse pensamento pode aumentar a tensão antes mesmo de a pessoa começar a falar.
"Mude essa gravação na sua cabeça", aconselhou.
Em vez de alimentar pensamentos negativos, a atriz sugeriu substituir o discurso interno por afirmações de preparação e confiança.
"Estou preparada. Estou confiante. Tenho algo a oferecer ao grupo e sei o que estou dizendo."
A orientação não significa ignorar o nervosismo, mas evitar que ele determine a maneira como a pessoa se apresenta.
Para Pierce, o objetivo é aprender a direcionar a atenção para a mensagem que será transmitida, em vez de concentrá-la exclusivamente no medo de errar.
4. Ensaie e peça feedback antes de falar em público
Uma das atividades propostas pela atriz foi a leitura de um texto em inglês diante das demais participantes.
Na linguagem teatral, o exercício é conhecido como cold reading, ou leitura à primeira vista, quando o intérprete apresenta um material sem preparação prévia.
Antes de convidar as brasileiras para participar, Pierce demonstrou como realizar a leitura.
O texto escolhido discutia o avanço dos computadores e seus possíveis efeitos sobre a capacidade humana de pensar, refletir e utilizar a memória.
A atividade acrescentou um desafio às participantes: comunicar uma mensagem diante de uma plateia em um idioma que não era o materno de muitas delas.
A atriz explicou que, em situações profissionais reais, a preparação deve ser diferente de uma leitura improvisada.
"Normalmente, quando você está se preparando para falar em público, já leu e ensaiou o texto. Você encontra um amigo em quem confia, apresenta para ele e pergunta: o que você achou?"
Esse retorno, segundo Pierce, permite identificar momentos em que a mensagem deixa de ser compreendida.
"Certifique-se de que, quando estiver trabalhando em uma apresentação, seus pensamentos sejam tão claros quanto a intenção daquilo que você está dizendo."
A recomendação também se aplica ao mundo corporativo: conhecer profundamente um assunto não significa necessariamente conseguir explicá-lo de maneira clara.
O que executivos podem aprender com os bastidores da Broadway?
Além das técnicas individuais, o encontro apresentou às participantes a complexidade de uma produção teatral.
Durante a visita, o profissional responsável pela apresentação do workshop explicou que grandes musicais exigem uma combinação de preparação, coordenação e precisão.
Em uma produção como Aladdin, por exemplo, um único número musical pode envolver mais de uma centena de comandos técnicos de iluminação e movimentação de palco.
Em MJ, musical inspirado na trajetória de Michael Jackson, mudanças de luz, cenário e movimentos dos artistas precisam acontecer em sintonia com a música.
Nos bastidores, essa precisão depende de ensaio, comunicação e trabalho em equipe.
Embora o palco de uma apresentação corporativa seja diferente do teatro, a experiência trouxe uma reflexão sobre a importância da preparação para quem precisa transmitir mensagens e conquistar a confiança de outras pessoas.
Para Pierce, a comunicação eficaz não depende apenas das palavras escolhidas. A maneira como o profissional ocupa o espaço, respira e se conecta com a audiência também interfere na experiência de quem escuta.
E a principal recomendação da atriz pode ser resumida em uma mudança de perspectiva: em vez de pensar apenas no que pode dar errado, concentre-se naquilo que você tem a oferecer.
"Estou preparada. Estou confiante. Tenho algo a dizer e vou estar presente neste momento."
Broadway: mais de um século de história no coração de Nova York
A Broadway é considerada um dos maiores símbolos do teatro mundial, mas sua história começou muito antes dos musicais que hoje atraem milhões de espectadores a Nova York.
A origem da Broadway remonta ao período colonial, quando uma antiga trilha indígena que atravessava Manhattan deu lugar a uma das principais vias da cidade. O nome, que significa "caminho largo" em inglês, passou a identificar a avenida que se tornaria sinônimo de grandes produções teatrais.
O desenvolvimento da Broadway como centro de entretenimento ganhou força no século XIX, quando teatros começaram a se estabelecer em Manhattan. Com a expansão da cidade, as casas de espetáculo se concentraram gradualmente na região de Times Square, dando origem ao famoso Theater District, o distrito teatral de Nova York.
Ao longo das décadas, a Broadway se transformou em uma indústria cultural que reúne atores, músicos, bailarinos, diretores, produtores e profissionais responsáveis pelos bastidores das produções.
Entre os espetáculos que marcaram sua história estão O Fantasma da Ópera, Chicago, O Rei Leão, Wicked e Hamilton.
Atualmente, a Broadway reúne 41 teatros profissionais, que recebem grandes produções musicais e peças dramáticas.
Na temporada de 2025 a 2026, 14,6 milhões de entradas foram registradas, segundo a Broadway League, associação que representa a indústria teatral. Ao todo, foram 74 produções, sendo 35 estreias, e 13.416 apresentações. A temporada movimentou aproximadamente US$ 1,91 bilhão em bilheteria, um recorde de arrecadação.
Os números ajudam a dimensionar a importância econômica e cultural da Broadway, que também sustenta uma cadeia de empregos nos setores de turismo, hotelaria, restaurantes e entretenimento.

Distrito teatral de Manhattan, conhecido como Theater District, em Nova Iorque, EUA (Ryan Murphy / Correspondente autônomo/Getty Images)
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.