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Monday, November 2, 2026

Alguém explica por que se celebra o comunismo nas acampadas?

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Creio que sim. Enfim, uma parte disso não é responsabilidade apenas de algumas das pessoas que aparecem nas manifestações, é também responsabilidade do nosso sistema cultural e do nosso sistema de ensino, que parece que esquece o que foi a verdadeira tragédia da experiência comunista no século XX e aquilo que ainda hoje resta dessa mesma experiência, porque ainda temos países pra ver como é que as coisas funcionam. Ainda temos a Coreia do Norte, ainda temos Cuba, ainda temos o autoritarismo chinês, temos essas coisas todas. Mas aparentemente, para pelo menos alguns dos manifestantes, e são manifestantes que não estão ali a ser corridos da manifestação, como foi referido, aquele manifestante do partido Reconquista que não teve o direito a manifestar, digamos assim. Eles podem lá estar e dizer: "Dê-nos o microfone", e até controlam aquelas manifestações. Uma das coordenadoras, por exemplo, da manifestação em Lisboa, Priscila Valadão, uma brasileira, basta ir ao Instagram dela e ela não é apenas como comunista, é como marxista-leninista e tem uma foice e um martelo tatuado no ombro, pelo menos é aquilo que aparece nas imagens. Dito isto, vale a pena recordar o que foi esta tragédia, porque teve muitos milhões de mortos e momentos de enorme dramatismo, como precisamente esse que aconteceu há 70 anos na Hungria. Muito rapidamente, depois falemos um pouco disso mais em detalhe. A revolta da Hungria foi uma revolta muito importante. Foi um dos primeiros momentos em que se percebeu com clareza o que aqueles regimes eram capazes de fazer. Quer dizer, antes havia as purgas, havia os julgamentos espetáculo, que eram todos ficcionados, havia as execuções, havia a fome, mas havia sempre alguém que dizia que era exagero, que não era verdade, que não era assim, que isso não tinha acontecido dessa forma. Inclusivamente, os que contavam o que se tinha passado, por exemplo, durante o Holodomor na Ucrânia, durante as purgas stalinistas na Rússia, os campos de concentração, o Gulag, muitas vezes eram ostracizados e nem sequer podiam escrever nos jornais, eram postos de parte, eram verdadeiramente transformados em párias. No caso da Hungria, aquilo aconteceu à frente dos olhos de toda a gente. Aquilo primeiro é uma revolução daquelas que acontecem muito poucas vezes, no sentido de ser absolutamente espontânea. As organizações todas da oposição tinham sido desmanteladas. Quer dizer, o dia a dia dos operários, dos trabalhadores na Hungria, viviam em casas miseráveis, muito pequenininhas, às vezes em partes de casa, porque era assim que as coisas funcionavam. Levantavam-se às 4h30 da manhã, iam pras fábricas. Nas fábricas, o dia começava com a leitura do jornal oficial do partido e depois tinham que trabalhar em fábricas que a maior parte delas não tinham utilidade nenhuma, não produziam bens de consumo, era a replicação da ideia da industrialização stalinista. E depois tinham ainda sessões de doutrinamento que podiam durar até às 22h. Portanto, praticamente não dormiam, não tinham o que comer ou tinham pouquíssimo que comer, não havia bens de consumo e a repressão era brutal. E nesse dia, no final de outubro, a 23 de outubro, os estudantes marcaram uma manifestação, porque havia alguns sinais de abertura. Já tinha morrido o Stalin, já tinha havido o 20º congresso, já tinha havido a denúncia do Stalin. O Rákosi, que era o grande stalinista húngaro, já tinha passado para uma espécie de segundo plano. Inclusivamente, eles já tinham reabilitado um outro dirigente comunista chamado László Rajk, que tinha sido executado precisamente. Quer dizer, era o chefe da polícia secreta e o Rákosi, como desconfiava dele e desconfiava de toda a gente, tinha o enforcado. Uma manifestação convocada, o regime começa por proibir, mas depois acha que talvez não faça mal. E são duas manifestações, há duas universidades de dois lados do rio em Budapeste, o Danúbio. Elas começam a andar, começam a crescer e quando é o final do dia, acontecem duas coisas extraordinárias. Primeiro, estão mais de 200 mil pessoas ou mais de meio milhão, os números não são totalmente claros, em frente ao Parlamento, uma praça muito grande. E de repente, sem ninguém saber vindo de onde, parece que pela primeira vez apareceu uma janela, alguém se lembrou de pegar na bandeira húngara, que é verde, branca e vermelha, e tirar do meio o selo comunista que lá estava nessa época. E, portanto, as bandeiras começam todas a ter um buraco assim no meio, na faixa branca, aparecem com um buraco e começa a ser a bandeira deste movimento. O dia depois acaba mal, porque há uma tentativa de ir à rádio para que a rádio retransmita as reivindicações dos estudantes. Isso acaba com tiros, acaba com mortes e a partir daí isto vai crescendo, o governo é substituído e há uma tentativa do novo governo, que é um senhor chamado Imre Nagy, de fazer uma espécie de glasnost ou uma primavera de Praga antes do tempo. E naturalmente, quando ele dá o passo de dizer: "Não queremos cá os russos". Ele era comunista, atenção, ele continuou tal como, por exemplo, Dubček mais tarde em Praga. "Nós não queremos é cá os russos, queremos o nosso modelo de socialismo." Os russos vêm por aí adentro com 150 mil homens e 2500 tanques, entram em Budapeste e há dezenas de milhares de mortos e 200 mil húngaros que fogem pela fronteira, sobretudo para a Áustria. Portanto, isto acontece porque o regime não oferecia nada às pessoas, era muito repressivo e era o modelo típico da ideia de que se pode controlar, através de uma máquina totalitária, toda a gente. A revolta acabou em sangue. Isto coincide, em termos internacionais, com uma outra grande crise internacional, que é a Crise do Suez. As duas aconteceram ao mesmo tempo e ninguém vai em apoio à Hungria e aos húngaros. E os húngaros, naturalmente, são esmagados. E segue-se um regime dirigido por alguém que tem um papel equívoco ao longo destes anos todos, um senhor chamado János Kádár, que depois se torna o grande dirigente húngaro, praticamente até à queda do Muro de Berlim e à queda daqueles regimes, mas a Hungria ainda começou a cair antes da Alemanha. Vamos falar disso tudo, vamos sobretudo tentar perceber por que tudo o que se passou nestes países, e não foi assim há tanto tempo, e não são assim tão longe de nós, parece ter se apagado da memória de pessoas que andam a dizer coisas como: "É preciso que a classe trabalhadora faça uma revolução para acabar com o regime, para tudo isso." Nós, inclusivamente, temos alguns sons e o interessante nos sons é que não é apenas o que as pessoas dizem, são as palmas que se ouvem em background. Vamos tentar perceber como é que se pode haver esta espécie de amnésia coletiva.

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