The Jerusalem PostConman posing as reservist with financial trouble who swindled dozens since start of war arrestedInquirerQuiapo Church unveils logo for Nazareno 2027ESPNSources: Eagles to keep retired Johnson on roster amid O-line changesPunchNDLEA rearrests 83-year-old grandmother with drugs in Abia한겨레소녀 28명 살았던 아동양육시설 ‘수풀원’…“폭행 일삼고, 16살에 가사도우미로 넘겨”UOLPolícia apura possível ataque a premiê e ministro na PolôniaSky TG24Sicurezza sul lavoro, Mattarella: "La tutela è nella Costituzione"Collider'Landman' Star's Fan-Favorite Horror Nightmare Officially Becomes a Must-Watch on HuluBillboardNFL London Game Halftime Show 2026: Here’s Where to Watch Perform Ayra Starr Live Online FreeZDF heuteAktuelle Pressemitteilungen des ZDFn-tv"Auf Seite des Mörders": Politikerinnen attestieren Trump "moralischen Bankrott"Observador DesportoPortugal anda a fazer acrobacias diplomáticas com Trump?
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, October 11, 2026

Tom Zé chega aos 90, diz ser 'dodecafonista sertanejo' e que já superou ostracismo

Translate

Tom Zé diz que está de boca aberta. Votou no primeiro turno desta eleição, mas esperava outro resultado. "Todo mundo estava certo de que iria eleger Lula e, quando chegou a apuração, deu meio que empate", ele afirma, em sua casa no bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, onde mora há mais de 50 anos.

O baiano recebeu o repórter às vésperas de completar 90 anos, neste domingo. Na sala do apartamento, papéis espalhados dão pistas das celebrações —exposição na Caixa Cultural São Paulo, uma nova biografia, shows no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Sesc Pompeia, na capital paulista, e no Festival Saravá, em Florianópolis.

Nisso estão um disco da série "Relicário", do Sesc, com a gravação de um show feito pelo cantor há 30 anos, e um álbum de inéditas. Ele não deu detalhes da obra, adiantada pela faixa "Futuro Fruto".

Entre tantos compromissos, a política interessa pouco. "Nem quero comentar, estou esperando o que vai acontecer", diz. "Eles estão próximos de tomar o poder novamente. E a gente fica de boca aberta, sem saber que país é esse que está votando na ditadura."

Tom Zé se refere à família Bolsonaro, apologista do regime militar. Neusa Martins, com quem o cantor é casado desde 1970, pede para ir "com calma" no assunto. "Ele já foi preso", ela diz. "Foi logo quando casamos", ele emenda.

O músico foi preso duas vezes no período —uma pelo Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, e outra pela polícia comum. Na segunda, ela passou dias sem saber o paradeiro dele. O motivo era uma ponta de cigarro de maconha numa frasqueira de viagem, depois de ele ter seu apartamento revirado. O artista diz que experimentou, mas nunca gostou de fumar a erva.

No começo dos anos 1960, Tom Zé trabalhou em Salvador como diretor de música do Centro Popular de Cultura, o CPC, que era financiado pelo Partido Comunista. Mas ele nunca foi comunista. "Eu escrevia sobre o que queria, mas comunista eu não era. Você vai deixar de ser escravo dos Estados Unidos para ser escravo da Rússia? Qualquer pessoa que se desse um pouco de liberdade era chamada de esquerda."

Em sua obra, a política surge como extensão do modo de ver a sociedade. "Grande Liquidação", seu disco de estreia, de 1968, retrata uma São Paulo em processo de industrialização pelo ponto de vista de um nordestino. O consumismo impulsionado pela publicidade e a vida acelerada eram alvos de sua ironia.

Em "Poluição", do álbum "Todos os Olhos", de 1973, o artista canta que a cidade está "com a consciência podre" em meio a tanto lixo e fumaça. "Eu fazia discos inteiros com motivos diversos das cidades", diz. "Isso estava nos jornais todos os dias —a sujeira, a limpeza, a tentativa de civilizar cada vez mais."

Na letra, a cidade pega tuberculose e bronquite, num exemplo do antropomorfismo que marca a caneta de Tom Zé. Ele cantou as ruas de São Paulo como se fossem mulheres em "Augusta, Angélica e Consolação", do mesmo álbum. Em "A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel", de 1972, os prédios ganham características humanas.

A influência, diz, foi Adoniran Barbosa. "Ele já fazia essas coisas. É praticamente um plágio formal das músicas dele."

A hipocrisia e as injustiças vinham no retrato de figuras marginais —como em "Camelô" e "Profissão de Ladrão", ou nas garotas de programa de "São São Paulo", hino de amor e ódio à cidade. "O moralismo é o que regia o cara que estava no jornal. E a rua responde com a imoralidade da vida popular."

Vez ou outra, Tom Zé entrava na mira dos militares. Quando não era censurado, passava horas tentando liberar as obras. "Menina Amanhã de Manhã", hoje uma de suas canções mais conhecidas, tratava do regime. "Da propaganda e da ditadura", diz. "Começa como uma música de esperança, mas, quando eu vou tirando [as palavras], vira uma trepação."

A felicidade surge como algo pesado e forçado —"vai desabar sobre os homens", "mete medo" e "fecha a roda"—, da qual não há escapatória. As palavras então vão sendo cortadas até o que o autor chama de "quase putaria". "Menina, a felicidade/ é cheia de ‘A’/ é cheia de ‘E’/ é cheia de ‘I’/ é cheia de ‘O’", diz a letra.

É clara a influência da poesia concreta, mas essa abordagem já vinha misturada com Jackson do Pandeiro, que cantou "‘A’, ‘E’, ‘I’, ‘O’, ‘U’, ípsilon" em "Sebastiana", de 1953. Esse coco nordestino caiu nas graças da tropicália e foi gravado depois por Gal Costa e Gilberto Gil.

Tom Zé teve participação ativa no tropicalismo. Fez "Namorinho de Portão", que Gal gravou; sua "Astronauta Libertado" virou "2001" com Rita Lee e Os Mutantes; e ele está na capa do disco "Tropicália ou Panis et Circencis", de 1968, em que canta "Parque Industrial". Sua "Jimmy, Renda-Se" é puro tropicalismo.

Mas, quando Caetano Veloso e Gil foram exilados, Tom Zé ficou isolado. No documentário "Fabricando Tom Zé", de 20 anos atrás, ele revelou mágoa com os dois, e o próprio Caetano assumiu a culpa pelo esquecimento vivido pelo parceiro.

Hoje, para Tom Zé, isso é assunto superado. "Sempre fui vizinho deles —por sermos da roça, eu mais ainda do que eles— e admirador. Como você vai deixar de admirar umas criaturas que fazem o que aqueles caras fazem?"

Antes de ser lembrado por David Byrne, nos anos 1980, Tom Zé viveu um período de vacas magras. Rodava o interior tocando para universitários. Procurava nos jornais menções a seus discos. De 1969 a 1993, não tocou no Rio de Janeiro.

São dessa época seus álbuns mais celebrados atualmente —entre eles "Todos os Olhos", de 1973, "Estudando o Samba", de 1976, e "Nave Maria", de 1984. Incensados pela crítica no exterior, eles foram revistos em seu país de origem.

Ele não se aprofunda no tema. "Teve uma época que fiquei muito jogado fora aqui no Brasil", diz. "A vida é assim. Às vezes, uma coisa que tem importância não é olhada, mas esses discos voltaram. Quando fui aos Estados Unidos e tudo quanto foi país, o Brasil passou de novo a olhar. Então está tudo resolvido, né?"

Segundo ele, o interesse dos estrangeiros é mera curiosidade. "É uma música diferente. E, sendo diferente, mesmo sendo brasileira, é uma coisa curiosa."

Mas a visão deslumbrada de fora passa por uma inventividade profunda a partir dos anos 1970. De uma enceradeira quebrada da mulher, Tom Zé construiu o "enceroscópio", um dos vários instrumentos que confeccionou para botar outros barulhos em sua música.

"A enceradeira estava com defeito. Você botava o dedo, ela parava. Quando tirava, mexia. Falei ‘isso é um instrumento’", diz. "Peguei outra enceradeira, botei algodão, arame e ficou do mesmo jeito. Fiz um instrumento com enceradeiras, cada uma de uma maneira."

Além do "buzinório", com buzinas, fez também o "hertzé", espécie de "sampleador" pré-digital em que usava um gravador para reproduzir, por meio de teclas, ruídos urbanos e outros sons. É possível ouvir essas engenhocas em "Estudando o Samba", o disco que fisgou David Byrne, e "Nave Maria", além da obra pós-redescoberta, depois de 1990.

"Assim como o pandeiro se transformou em música, a enceradeira, o ‘buzinório’ e os instrumentos de percussão podiam ser tratados de uma maneira que viravam instrumentos", afirma.

Sua música se distanciou do grande público sem abandonar uma base primordial —a música popular brasileira. "Era música de canção e de coisa estranha. Isso fazia parte da estranheza. Era a prova de que havia muita coisa em volta que podia se transformar em música."

Esses caminhos abriram um debate sobre sua classificação como tropicalista. Ele aprofundou as experimentações enquanto Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa despontavam como ícones pop da MPB. Para uns, Tom Zé é o verdadeiro tropicalista. Para outros, só integrou o movimento ocasionalmente. Para ele, tanto faz. "Apareceu essa discussão, e Deus abençoe essa discussão. O mundo está aí para inventar discussão. Mas não estou nem aí. Estou trabalhando a vida toda, como estou agora."

Algumas premissas da tropicália já estavam em Tom Zé antes de serem elaboradas por Caetano e Gil. O impulso de borrar barreiras entre "alta" e "baixa" cultura começou em casa. Desde menino, o cantor falava duas línguas —a do sertanejo e a dos intelectuais da capital.

Quando ele nasceu, em 1936, não havia luz elétrica em Irará. A cidade baiana fica numa área de transição geográfica —tem tanto características do agreste quanto do sertão nordestino.

Seu pai, de origem pobre, ganhou na loteria e ascendeu socialmente —a ponto de, segundo o cantor, ser lido como branco. "Ele era branco porque passou a agir como os brancos. Mas o povo todo de lá tem uma cor como a minha —meio mulato, não branco", diz, lembrando os avós maternos, seu Pompílio e dona Genésia, que eram "bem mulatos".

A nova biografia, "Um Vira-Lata na Via Láctea", escrita pelo americano Christopher Dunn, mergulha nas origens de Tom Zé. Pompílio, diz o livro, "possuía extensas terras nos arredores de Irará, incluindo fazendas de gado e plantações de tabaco", ligadas ao mercado de exportação à Europa. Num contraste com a elite latifundiária branca do Nordeste, afirma a obra, eles "tinham ascendência africana e indígena".

"Na casa de meu avô, o jantar era às cinco e meus tios conversavam na língua dos colégios de Salvador", diz Tom Zé. "Quando dava nove, me botavam num quarto remoto para dormir. Mas eu não dormia. Ficava passando as palavras que ouvia no jantar para ver se meu raciocínio tinha pegado seu sentido correto. Eu ia gravando assim as palavras."

Foi pela família materna que ele teve acesso aos livros, entre eles "Os Sertões", de Euclides da Cunha. "Quando leio Euclides, já sei aquela língua porque falava com o trabalhador da roça. Todo mundo ficava espantado, porque quem estuda no ginásio não sabe."

Tom Zé aprendeu esse idioma trabalhando desde criança no balcão da loja de tecidos do pai, de onde até hoje parece olhar o mundo. "Eu atendia o homem da roça, que fala essa outra língua. Para ter ideia, só lendo Guimarães Rosa."

Ele já conhecia o canto das lavadeiras, as bandas marciais e os cantadores quando teve uma epifania estética. "Esse amigo meu de rua chegava com o violão, eu nem sabia o que era isso", diz. "Ele fez um contraponto de primeiro grau em movimento contrário —dó, si, lá, sol, enquanto a voz canta dó, si, dó, ré. Me arrepiou completamente. Me tirou do planeta Terra. Fiquei com isso na cabeça, mandei comprar um violão e fiquei tentando aprender."

Sua primeira composição censurada veio bem antes da ditadura. "Maria Bago Mole", em que descreve figuras populares de Irará, virou febre na festa da padroeira da cidade. "O povo da rua, que já sabia a música, ensinou à banda. E a banda veio tocando. Aí passaram tocando na igreja e o padre proibiu. Mas o povo continuou cantando."

Entre os personagens retratados, diz a biografia, estão os dois únicos homens abertamente homossexuais daquela Irará, um sujeito conhecido por morder o braço quando ficava irritado, uma mulher que falava sozinha e uma figura que completava frases iniciadas por outros. A protagonista, afirma Tom Zé, "trepava com os meninos de família, os botava no mundo do sexo".

Muito do que viria a ser a música de Tom Zé já se anunciava ali. Mas foi estudando na Universidade Federal da Bahia, a partir de 1964, que ele abriu a cabeça para a experimentação. O alemão Hans-Joachim Koellreutter não só deu aulas a Tom Zé, mas também fez da Faculdade de Música baiana uma extensão da revolução que promoveu na música brasileira ao inserir conceitos vanguardistas europeus como a dodecafonia. Ele ensinou de Tom Jobim a Moacir Santos, incluindo os principais maestros da tropicália, Rogério Duprat e Júlio Medaglia.

Foi Koellreutter, segundo Tom Zé, quem o convenceu a prestar o vestibular. Ele estava considerando voltar a trabalhar com o pai em Irará porque havia parado de receber dinheiro do Partido Comunista no Centro Popular de Cultura. "Falei ‘como vou fazer vestibular?’. Nas matérias teóricas eu era bom, mas um ditado mais simples eu caía do cavalo."

O cantor havia aprendido um método de harmonização por conta própria e impressionou os professores. "Eu sabia toda aquela coisa de atingir o ponto culminante quando estava já no terceiro quarto da música, descendo até o repouso da tônica. Mas sabia o mundo da música popular também. Então, passei em primeiro lugar no vestibular. Eu que não era nada, você veja."

Em Salvador, ele participou dos shows "Nós, Por Exemplo" e "Nova Bossa Velha e Velha Bossa Nova", com Caetano, Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Com esse grupo, foi a São Paulo em 1965 apresentar o espetáculo "Arena Canta Bahia". Voltou à Bahia para concluir os estudos e deu aulas de contraponto e harmonia na universidade, antes de ir de vez para a capital paulista, em 1968.

"Sou essa miscigenação. Esse nordestino da roça que aprendeu dodecafonismo. Um dodecafonista sertanejo."

Tom Zé é, na verdade, o resultado de várias misturas —do sertão com o agreste, do negro e do indígena com o branco, do popular com o erudito, da tradição com a vanguarda, do interior com a metrópole, do humor acessível com a refinada crítica social, do ruído com a harmonia. Um tropicalista por essência, que se tornou também o mais extremo deles.

O baiano destrinchou ao máximo a hipótese de fazer das limitações materiais a própria matéria de sua arte. "A bondade que eu tinha era justamente a capacidade de observar o que estava em volta e que não era música. Era ter nascido num mundo onde o povo falava a língua da roça que ninguém ligava", ele afirma. "O defeito tem grande importância para mim. É só isso."

View the original on UOL →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.