As saias da Prada e os looks dos Globos de Ouro

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Maria, desculpa ter demorado mais, mas esta saia.
Margarida, parece que ainda vens dos Globos. Tu não me digas que é tão travada que mal consegues mexer-te.
Não, demorei mais foi a escrever, não a andar. Eu já não caio nesses truques.
Do Avesso, um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Bom, eu, por um momento, também pensei que tinhas levado à letra o desfile da Gucci em Milão, em que as maquiagens, não sei se viste, viste com certeza, mal se aguentavam em pé entre roupa justa e uns sapatos com saltos altíssimos.
Então nós estamos a comemorar um ano do Avesso e tu achas que eu vinha com roupa que não me permitia festejar.
Bom, era bem-visto. Vens ajustada à situação. Seja para comemorar o primeiro aniversário de um podcast, como é o caso, para uma entrega de prêmios ou para aplaudir um desfile, eu faço minhas as palavras da Emma Goldman: "Se não dá para dançar, esta não é a nossa revolução".
Olha, a Gucci é que não trouxe mesmo revolução nenhuma.
Pois, não.
A Georgina, coitada, para lá caminhava como podia, com aquele conjunto.
Mas ela vai se aguentando. Ela não se monta.
Um conjunto mini saia e casaca em pele preta e sempre aqueles saltos vertiginosos. Olha, eu tiro-lhe o chapéu, não é para todos.
É verdade, não é para todos. Também vimos a ex-manequim e socialite espanhola Natalia Abascal a desfilar, estrelas portuguesas como a Kika Gomes e um design que antecipava o novo conceito das lojas Gucci. Mas tudo baralhado, que impressão é que tu tiras disto?
Bem, foi um desfile polêmico, dividiu a opinião dos fashionistas. É caso para dizer ou amavas ou odiavas.
É, aquilo clássico.
Eu confesso que estou mais no team hate, por uma questão de gosto. Mas consigo perceber, de facto, que o Demna precisa desesperadamente de vender e tem andado a atirar muito barra à parede, a ver o que é que pega. E o desfile estava exatamente muito centrado nessa ideia de, afinal, o que é o cliente Gucci?
Pois, isso é que eu confesso que olhei para a fila da frente e fiquei na dúvida sobre essa grande questão.
Olha, para o diretor criativo, parece que é um pouco de tudo. Da realeza boêmia meio louca, à bombshell casada com jogador de futebol. E se calhar até é mesmo. O que não é, de facto, é sinônimo de bom gosto.
Não duras, já percebi.
Acho que essa prateleira já está arrumada e isso pode fazer alguma confusão. A mim faz-me.
Olha, é muito curioso como esta questão da saia, de facto, tem leituras e propósitos tão distintos. Ora do mais pencil, como se diz, e travado que há, limitando ali os movimentos, ora símbolo de liberdade e emancipação, como vimos, por exemplo, no desfile Prada, também em Milão. Aliás, muitas análises retomaram a velha reflexão e dicotomia por estes dias, roupa para mulheres reais versus roupa que se calhar muito pouca gente poderá usar.
É, Miuccia Prada e o Raf Simons apresentaram um desfile só de saias com 63 propostas.
Incríveis.
Valorizando esta peça como o staple absoluto. Como uma T-shirt branca, que fica bem com tudo. Olha, e temos mesmo de tudo, mas sobretudo em formato mini.
É muito a onda dela. Olhando para o conjunto das semanas da moda, pelo menos até aqui, creio que houve muito boas ideias ao nível da saia, que nem sempre tem o lugar devido no guarda-roupa. Talvez porque associamos menor praticidade.
O que é um disparate, é um erro. Tu sabes que a saia, em termos de modelagem, tem a base mais fácil de todas as peças-chave, sendo por isso também a peça mais fácil de confeccionar e de transformar. E talvez por isso mesmo tenha sido as primeiras peças de vestuário a ser criada. Acreditamos que isto começou já na pré-história, com as peles dos animais enroladas à cintura.
Com o que havia, no fundo.
Mas, na verdade, os primeiros registos fidedignos surgem no Egito Antigo, na Mesopotâmia e na Suméria. E aqui tanto para vestir homens como para mulheres.
Pois é, não via género. É verdade.
E eu não consigo imaginar coisa mais prática.
Olha, sim. Eu tenho a impressão que a maior parte dos consumidores já não prescinde, de facto, do conforto, mesmo que esteja a usar uns saltos mais altos. Na red carpet dos Globos de Ouro, a Isabel Valadão falava nisto mesmo, que vinha sobretudo confortável, a começar pelas sandálias.
É, se virmos bem, até as principais criações livraram-se de pormenores supérfluos, que podiam tornar os vestidos menos confortáveis. A Ana Marques, que estava de branco, também admitiu que houve anos em que mal conseguia respirar.
Acho que houve assim um vestido cor-de-rosa, que mal deixava respirar.
Mas para esta edição estava tudo bem. Ela vestiu Candelas & Felipe, uma das várias marcas espanholas, que teve um advento na red carpet dos Óscares. Disparate, dos Globos, os nossos Óscares.
Ora bem, sim. Tivemos uma grande aposta na sobriedade, na verdade, pelo menos ao nível dos tons. Muitos vestidos pretos, brancos, pretos e brancos também, algum brilho. E depois assim um toque de cor em looks como Carolina Patrocínio, Cláudia Vieira, Andreia Rodrigues ou a Sara Sampaio, assim num encarnado brilhante do David Koma.
Em que não precisa de usar mais nada, que ela estava maravilhosa.
Chega e sobra.
Aliás, o vestido já tinha umas aplicações de flores no mesmo tom e por isso bastaram uns brincos bem discretos. E temos de falar daquele cabelo, que também faz logo metade do look. Estava linda.
Nem é preciso pôr pente. No geral, sente-se que ninguém quer estar muito de tcharam. Ou se calhar correr o risco de aparecer na galeria dos piores vestidos no dia a seguir, será isso? Que as pessoas já temem arriscar muito.
Mas também um vestido preto não tem que ser aborrecido.
Não, e podemos falhar redondamente com um vestido preto também.
Há sempre muita coisa para explorar em termos de cortes, materiais, acessórios, mas também é importante que não se desapareça por completo dentro do vestido. A não ser que seja, de facto, esse o objetivo. Claro, nós também já falamos disso, como é que a roupa nos faz desaparecer.
Genericamente, toda a gente de preto até estava bastante elegante. Nada de bocejos. O que achaste, no geral, destes looks?
Estou contigo, acho que estava tudo muito sóbrio, muito bonito, muito seguro. Como dizias, não houve nenhum rasgo de loucura, tirando talvez aquele vestido divertido da Ana Vilaça. E tínhamos, por exemplo, muita gente caicaí, tínhamos muitas joias, muita coisa da Fioriri.
Principalmente para as joias brilharem.
Sim, porque havia, de facto, muitos vestidos Pareciam ter sido pensados para fazer as joias brilharem. Tiveste o caso da Isabela Valadeiro com o vestido de Holanda Cris, a Joana Aguiar com o look Elsa Barreto, a Carolina Loureiro também Luís Carvalho com um vestido e com um colar espetacular. Depois tinhas a Maria João Bastos que estava muito bonita.
Pois está.
Num bustier estilo smoking, via-se os bolsos muito discretos, também com a assinatura do Nuno Branco.
Sim, eu penso que de alguma forma podemos dizer que o Nuno Branco se consolida cada vez mais como um ateliê muito ligado à nossa red carpet dos prémios. Ele esteve no vestido castanho de Júlia Palha também, de quem tinha assinado o vestido de noiva. Por falar em castanho, eu também gostei muito da Conceição Lino. Achei que estava muito bem. O Nuno assinou também o vestido estruturado cai cai, lá está mais um cai cai com padrão que parecia uma nuvem ao longe, da Ana Marta Ferreira, e o look da Cláudia Borges, que eu acho que também estava muito bem.
E também temos outros criadores nacionais.
Tivemos vários.
A passadeira vermelha cada vez parece que tem mais nomes nacionais. Desde logo, como já falámos, o Luís Carvalho, que vestiu além da Carolina Loureiro, a Cláudia Vieira, assumindo que é um enorme trabalho criativo vestir estas duas mulheres com coisas tão distintas.
Eram dois vestidos totalmente diferentes.
Depois também tiveste Marques Almeida, que vestiram a Matilde. E nem de propósito, a dupla de designers estreou-se aqui há poucos dias na semana de moda de Milão e conquistou os italianos. Curiosamente, com um estilo que é super londrino.
Que é a partida seria assim estranho.
Mantém a sua silhueta de assinatura, mas desta vez exploraram mais os brilhos. Está muito gira a coleção.
Sim, ainda nos Globos. A Ana Sofia usou um Nuno Velez, que é um criador muito associado ao trabalho com noivas e aqui com um look que é daqueles que nós sentimos que só mesmo ela podia usar muito bem. É um pouco à semelhança daquele vestido de áfone da Diana Chaves, da marca Monsa.
A Diana Chaves aguenta tudo.
Sim, que assina outra pessoa, lá está, podia descambar facilmente, mas não, ali acaba por resultar. Curiosamente, tu lembras-te como é que a Catarina Furtado apareceu vestida no início da primeira gala? Era 8 de abril de 96. Era assim mesmo ao estilo noiva, pronta para um momento de dança.
Olha, exato. E quem podia dançar, de facto, era a Ana Sofia, de que falavas, porque tinha um conjunto de calças e top, que tinha uma renda lilás em cima que parecia que era um vestido. Mas depois não era. Era um look muito giro e arriscado dentro do gênero que vimos.
Sim, também tivemos outros nomes historicamente associados a vestidos de festa. Por cá, como o João Rulo, vestiu a Bárbara Guimarães, o Gil Rodrigues ou mesmo a Fátima Lopes, que vestiu a Melânia Gomes e ainda a Burgina, o Miguel Leitão. Aparecendo assim, de facto, uma série de nomes nacionais.
Mas para mim sabes que o prémio de mais bem vestido vai para o David Fonseca.
Todo encarnado.
Sim, de mais bem vestido de todos.
Senhores e senhoras, todos. Ora bem, pronto.
Estava incrível. O cantor usou um fato encarnado de Ernest W. Baker, que venceram o prémio de personalidade na categoria moda. A dupla que também vestiu Evandro Gomes, aqui já com fato com brilho, mas também estava muito bem. E em brilhos também, e o Jorge Corula, quase assinatura Fátima Lopes. Não, e só ele também é que aguenta aquilo. Estava muito bem. É muito engraçado vermos como é que os homens começam a arriscar mais neste tipo de galas. Tiveste o Manuel Luís Goucha com uma camisa.
Aqueles clarinhos eram ótimos.
E até o João Baião foi de amarelo.
Pois é. E aquilo, enfim, tudo funciona. O José Condessa fotografou-se sem o blazer. Eu entendo que mostra um twist no look, também é interessante destacar na parte da cinta, mas sabes o que é que eu depois também sinto? É que quando surge cropado, por exemplo, ao lado da Luisinha Oliveira, a namorada, que estava linda, numa criação que ela foi buscar a Estival e parece que há ali um certo desequilíbrio. Porque só se vê a parte de cima da camisa.
É, parece que falta qualquer coisa.
É, parece que fica ali uma coisa desequilibrada. Outra coisa que eu também não tenho apreciado, confesso. Eu sei que por um lado se enterrou a moda dos homens com skinny jeans, graças a Deus, mas agora temos visto muito o extremo oposto, que são calças demasiado largas no corte, que eu acho que não favorecem a maior parte dos homens.
É, às vezes nós só queremos mesmo um bom velho smoking clássico, preto, como usou o Tiago D'Utanho Pereira.
Por exemplo, sim, que nós sabemos que isso pelo menos funciona. Não vai falhar.
E já que estamos em família, também temos que falar da Carolina Patrocínio. E que teve direito a dois looks: um verde com uma capa que tinha uma cauda que saía do meio, que ele parecia tipo um laço nas costas.
Ela também dizia que arriscou ir na cor, que não era muito normal.
E aqui mais uma vez o destaque foi para as joias, porque o vestido até era relativamente sóbrio, tirando essa capa. E depois o segundo vestido, que era a própria joia, aquilo era brilho para todo lado. Ela usou o verde mais sóbrio para a passadeira vermelha e o brilhante para estar em palco.
É mesmo. Olha, nestes contextos temos sempre diferentes hierarquias ou papéis. O que também é uma coisa interessante. Temos o caso da Carolina, como falavas, e das restantes hosts da SIC, que têm que estar, por um lado, impecáveis, mas sabendo também que o foco não são propriamente elas. Ou seja, temos aqueles convidados também anônimos, que se preocupam se calhar menos ou quase nada com os níveis de glamour, porque sabem que a partida não vão ter um grande destaque nas revistas, na televisão, por aí fora. E depois há quem tenha que estar com um pé num lado e um pé no outro, como eu lhes chamo.
É, falas, por exemplo, de quem está a trabalhar nos bastidores, que não são bem bastidores, porque as pessoas têm que circular ali.
E andam por ali no fundo.
É, os agentes, os stylists.
Sim, e nem sempre é fácil encontrar um equilíbrio no look. É que nem é para usar, direi eu, uma cauda de oito metros. Nem é para aparecer de jeans. E eu lembrei-me, porque vi ali pelo meio a Inês Mendes da Silva, que costuma andar nestas coisas, claro, agente muitas das estrelas que por ali circulavam, e que estava muito gira, na medida certa, digo eu, sem ruído necessário, com vestido preto e branco, e lá está, mais uma bela joia statement ao pescoço, parecia assim um jarro, uma flor.
Estava muito gira e ela depois acabou por colocar nas redes também que o vestido era ótimo porque permitia um calçado confortável. Portanto, eu desconfio que ela tinha escondido uns...
Até podia ir de Havaianas.
Ali qualquer coisa para poder correr se fosse preciso. E depois temos que falar da Tia Li, que é a única pessoa a quem se permite quebrar o protocolo e aparecer com uma enorme capa no evento.
Sim, só mesmo ela. Olha, mas diz-me uma coisa, agora que voltamos todos para o ramram do dia a dia, tu não achas melhor fazermos uma ligeira pausa nos Globos e tirarmos a inspiração do desfile da Bottega Veneta, que tinha coisas, diria eu, e penso tu também, bem melhores que o último.
Nem se compara.
Se bem que eu sou muito suspeita, porque adoro a Louise Trotter e acho que isto foi mais uma coleção incrível.
É, eu também a adoro e acho que é daqueles desfiles para ver com bloco de notas. Eu vi e tirei algumas que partilho convosco. Primeira nota: alguns modelos iam com um jornal debaixo do braço, o que é logo ótimo sinal, e que depois confirmamos no rece, porque percebemos que eram notebooks que a capa tinha um jornal gravado. Portanto, eu acho que está a caminhar para ser o acessório da estação.
Só falta voltarmos todos a ler jornais.
Exato. Mas pode ser que seja o início.
É um início.
Segunda nota: as camisas Oxford riscas estão de volta e são supercool. Em terceiro lugar, crochê e macramê são para aplicar na roupa e não interessa nada que seja perfeito, mas tem mesmo é que ser feito à mão. Quarta nota: ninguém nos tinha avisado que o rosa e o amarelo casavam tão bem, mas olha, é para apostar nesta combinação. E quinta e última nota, e mais importante de todas: oversized não significa dois tamanhos acima ou ombros quase nos cotovelos. Repistem isto.
Isto é importantíssimo.
Significa roupa que assenta nos sítios certos onde tem de estar, mas com o molde mais largo.
Olha, mais depois eu já assentei tudo, Margarida. Não digas mais nada. Mais despojada está também a Fendi, que esta estação rejuvenesceu uns belos anos. Até calças de ganga tiveram grande destaque, imagina. E claro, as peças de lingerie que a Maria Grazia Chiuri tanto gosta.
É verdade. Quem também surgiu de cara lavada foi a Moschino, com a estreia da dupla criativa Loris Messina e Simone Rizzo. Estamos a falar aqui de um capítulo completamente diferente para a história da marca. Mantém-se a excentricidade, mas aqui numa perspectiva muito terra a terra. Perderam aquele lado fantasioso, desenanimado.
Pois é, parecia sempre um merchandising.
Sim, aquelas coleções eram meio loucas, tinham uma lógica quase de merchandising, de conceito levado ao extremo, que era uma forte assinatura de Jeremy Scott. No entanto, mantêm a assinatura irônica da marca, portanto, eu acho que é um caminho muito interessante a ver.
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