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Saturday, October 31, 2026

Areia sob fiscalização: SC lidera em praias alargadas, mas tem desafio de aliar investimentos milionários e preservação

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O litoral catarinense soma ao menos nove praias com obras concluídas, sendo três delas em Florianópolis, além de outros dois projetos no radar para os próximos anos. Juntas, as intervenções já realizadas custaram pelo menos R$ 178 milhões (entenda mais abaixo).

O tamanho das megaobras, no entanto, impõe um duplo desafio: viabilizar investimentos milionários para conter a erosão costeira e, ao mesmo tempo, garantir a segurança ambiental das praias para a população.

A complexidade fica evidente no histórico das intervenções. Balneário Piçarras, primeira cidade do estado a receber uma obra de engordamento de praia, em 1998, já precisou passar por outras quatro intervenções ao longo de 25 anos (veja imagem abaixo).

Balneário Piçarras passou por quatro obras de alargamento — Foto: José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras

Nesse contexto, o TCE-SC publicou, em janeiro de 2026, uma nota técnica para orientar os gestores municipais na elaboração de projetos e licitações de engordamento de praias. O objetivo é prevenir prejuízos aos cofres públicos e garantir maior segurança e durabilidade às intervenções (veja mais abaixo).

🧐 O que você vai ver na reportagem:

  1. A areia que volta a desaparecer
  2. Quais as praias alargadas em SC?
  3. Quem garante que os milhões serão bem gastos?
  4. O preço ambiental de uma praia maior
  5. É possível fazer diferente?

1. A areia que volta a desaparecer

Última obra de alargamento em Balneário Piçarras ocorreu em 2026 — Foto: José Santos/Prefeitura de Balneário Piçarras

📌 A primeira cidade de Santa Catarina a receber uma obra de alargamento de praia foi Balneário Piçarras, em 1998. A trajetória do município ajuda a dimensionar um dos desafios desse tipo de intervenção: ao longo de 25 anos, a orla precisou passar por quatro obras, depois que o avanço do mar voltou a reduzir a faixa de areia (veja imagem acima).

A intervenção mais recente, concluída em abril de 2026, custou R$ 24,2 milhões. A praia passou por alargamentos em 1998, 2008, 2012 e 2026.

A atual administração justifica que as obras anteriores não resolveram o problema da erosão marítima devido às características dos sedimentos usados na época, à dinâmica costeira e à evolução dos projetos de proteção da praia.

“É importante esclarecer que essa técnica não elimina definitivamente a erosão, pois a praia continua sujeita à ação das ondas, das correntes marítimas e às mudanças nas condições costeiras. No caso de Balneário Piçarras, que apresenta um processo de erosão costeira, o alargamento funciona como uma reserva adicional de sedimentos”, destacou a prefeitura, em nota.

Praia dos Ingleses atingida por ressaca em 2025. — Foto: Morgana Fernandes/NSC TV

📌 A Praia dos Ingleses, um dos principais destinos de turistas internacionais em Florianópolis, também registrou problemas recentemente. Alargada em 2023, em uma obra de R$ 23 milhões, a orla sofreu perdas expressivas de areia nos últimos meses, com o mar avançando novamente sobre trechos que haviam passado pela intervenção.

A prefeitura, responsável pela elaboração dos projetos de alargamento também em Canasvieiras e Jurerê, afirmou que ainda estuda a melhor estratégia para recompor os cerca de 200 metros da orla afetados pela maré alta, eventos climáticos extremos e ressaca do mar. Segundo o município, no entanto, a maior parte da praia permanece em condições adequadas.

Para o biólogo Paulo Horta, professor do Departamento de Botânica da UFSC, a durabilidade dessas intervenções é justamente um dos principais pontos de preocupação. Segundo ele, os resultados nem sempre acompanham o volume de recursos investidos.

“Tradicionalmente, os engordamentos têm trazido muito mais prejuízos do que benefícios, inclusive produzindo uma falsa sensação de segurança econômica e civil, porque, diante do cenário atual de elevação do nível do mar e agravamento da crise climática, as praias engordadas representam um investimento que tem longevidade curta”, comenta.

O especialista pondera que, em áreas já urbanizadas e onde a erosão é agravada pelas condições climáticas, o alargamento pode ser uma alternativa para “ganhar tempo”. Essa possibilidade, no entanto, precisa ser discutida de forma transparente com a sociedade, para evitar a criação de falsas expectativas sobre a durabilidade e a eficácia das obras.

2. Quais as praias alargadas em SC?

Infográfico g1| Alargamento de praias em SC — Foto: Ben Ami Scopinho

3. Quem garante que os milhões serão bem gastos?

Praia Central de Balneário Camboriú após alargamento — Foto: Prefeitura de Balneário Camború

A virada de chave para a fiscalização de alargamentos de praias em Santa Catarina no TCE ocorreu em 2019, durante a preparação da megaobra da Praia Central de Balneário Camboriú, orçada em R$ 66,8 milhões (veja foto acima).

Um dos responsáveis pelo processo de análise das licitações, o auditor fiscal de controle Matheus Lapolli Brighenti, conta que a megaobra no Litoral Norte do estado escancarou tanto a inexperiência das prefeituras para elaborar projetos dessa complexidade quanto o desafio do próprio órgão para auditá-los.

“Um ponto importante, já levantado em Balneário Camboriú, foi a necessidade de os municípios contratarem obras de forma conjunta para baratear a mobilização e a desmobilização", explicou.

O servidor detalha a necessidade de que os projetos especifiquem não só os valores de draga, maquinários e pessoal, mas também as previsões sobre manutenção das obras e vida útil dos serviços.

4. O preço ambiental de uma praia maior

Antes e depois do alargamento da praia de Jurerê — Foto: Prefeitura de Florianópolis/Divulgação

O professor de oceanografia e ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Paulo Pagliosa afirma que a gestão da linha costeira tem sido feita sem a devida atenção a dois fatores que contribuem para intensificar a erosão e reduzir a faixa de areia disponível aos banhistas: as mudanças climáticas e o avanço desordenado da urbanização sobre a orla.

“Soluções para esses problemas devem considerar o funcionamento do ecossistema, em particular, a escala dos fenômenos que atuam sobre a praia e a inter-relação dos diferentes componentes físicos, biológicos e sociais. Esse tipo de situação exige uma gestão integrada, planejando uma trajetória de adaptação ao longo do tempo e levando em conta as condições socioculturais, geográficas e climáticas locais”, disse.

Já Paulo Horta chama a atenção para os impactos ambientais da dragagem, tanto na região de onde a areia é retirada quanto na praia que recebe o sedimento.

O processo, segundo ele, pode prejudicar a biodiversidade e provocar a formação de plumas com poluentes, como metais pesados e nutrientes, que favorecem a proliferação de algas nocivas.

Por isso, o biólogo defende que os projetos prevejam medidas para mitigar os impactos ambientais e compensar as emissões de gases de efeito estufa geradas pela dragagem.

Entre as alternativas, estão a recuperação da restinga, o plantio de vegetação nas dunas e a restauração de ecossistemas submersos, como os bancos de gramas marinhas, que ajudam a conter a erosão e a absorver carbono.

A execução dessas obras exige acompanhamento de órgãos de fiscalização. Em Santa Catarina, o Ministério Público (MPSC) atua nesse controle e tem acompanhado intervenções de grande porte no litoral.

Orla de Itapema (SC) — Foto: Divulgação

Em junho de 2026, o MPSC entrou com uma ação civil pública para pedir a suspensão da licitação, das obras e da licença de instalação para que questões técnicas e jurídicas sejam esclarecidas.

A análise de documentos, segundo o órgão, identificou divergências na ampliação da faixa de areia: enquanto o projeto prevê uma largura de até 70 metros, dados do MPSC indicam que o aumento real pode variar entre 20 e 60 metros, dependendo do trecho da praia.

Ao g1, a prefeitura de Itapema informou que o processo licitatório continua em andamento. Segundo o município, o pedido do MPSC se refere à não emissão da ordem de serviço, que autoriza o início efetivo das obras, e não à suspensão da licitação.

O município aguarda a conclusão do processo licitatório para divulgar as datas oficiais de início e término das obras.

🔎 A análise do MPSC faz parte do trabalho preventivo do órgão em obras com potencial de impacto ambiental, como forma de evitar danos ao meio ambiente, e ocorre em diferentes etapas do projeto, desde o planejamento até a conclusão. Ele também fiscaliza a regularidade dos investimentos públicos e das licitações: se problemas são identificados, pode emitir recomendações, propor Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) ou tomar medidas judiciais.

Entre as principais preocupações do MPSC estão a qualidade e a profundidade dos estudos técnicos. Segundo a promotora de Justiça Stephani Gaeta Sanches, coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do órgão, cada praia tem características próprias e as soluções não podem ser replicadas automaticamente.

O alargamento precisa ser analisado dentro de uma estratégia de gestão da costa, com perspectiva de longo prazo, e deve avaliar os impactos sobre a fauna, a vegetação, a pesca e os riscos de erosão em praias vizinhas.

“Uma intervenção desse porte precisa ser avaliada considerando toda a dinâmica da praia: de onde a areia será retirada, sua compatibilidade com a areia existente, como as ondas e as correntes vão redistribuí-la e quais serão os efeitos sobre os ecossistemas e os usos daquele espaço”, detalha.

🔎 Quando uma obra pode ser suspensa? Segundo o MPSC, possíveis danos ambientais irreversíveis, impactos à população e o uso de recursos públicos motivam ações judiciais de paralisação. A decisão de suspender cabe ao Poder Judiciário.

5. É possível fazer diferente?

Imagem mostra trecho de praia de Itapoá com obras de alargamento — Foto: Divulgação

O avanço das discussões sobre o tema também tem resultado em iniciativas positivas. Em Itapoá, no Litoral Norte, onde a erosão costeira é um desafio recorrente, três praias foram alargadas de uma só vez (veja foto acima). A intervenção aproveitou os sedimentos retirados da Baía da Babitonga durante as obras de expansão do canal portuário da região.

Infográfico g1 | alargamento da praia de Itapoá em SC — Foto: Ben Ami Scopinho

Mas, para especialistas, é preciso ir além do reaproveitamento de sedimentos. O biólogo Paulo Horta alerta que obras de engordamento de praias também geram emissões de gases de efeito estufa, especialmente dióxido de carbono (CO₂).

"É fundamental que os projetos que envolvem a dragagem envolvam remoção de carbono com restauração ou com plantio de vegetação de restinga, de dunas vegetadas. Isso fora d'água", sugere.

O professor Paulo Pagliosa também defende medidas para reduzir as emissões e recuperar os ecossistemas costeiros. Para ele, é necessário combinar o planejamento das intervenções com ações de restauração ambiental e mudanças na ocupação da orla.

"Na prática, precisamos descarbonizar as atividades econômicas no sentido de maximizar o sequestro de CO₂ e reduzir as emissões deste e de outros gases de efeito estufa. Devemos promover um melhor uso das bacias costeiras, com planejamento que leve em conta as alterações no transporte de sedimento para as praias", disse.
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