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Wednesday, September 23, 2026

Repulsa a bets e tigrinhos une direita e esquerda cristãs

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São Paulo Tem um tema capaz de unir direita e esquerda cristãs: a oposição a apostas esportivas online (as bets) e cassinos digitais (jogo do tigrinho e companhia).

O lançamento, nesta terça (22), da Carta Compromisso: Cristãos Contra Bets, elaborada por organizações religiosas brasileiras, é a nova amostra dessa bandeira comum.

Placa com texto convidando para reuniões do grupo Jogadores Anônimos, indicando horários às terças e quintas às 20h, com número de telefone para contato, posicionada próxima a uma escada onde uma pessoa sobe.
Entrada de grupo dos Jogadores Anônimos no centro de São Paulo - Allison Sales -13.ago.26/Folhapress

Enquanto alas conservadoras enfatizam o endividamento doméstico como ameaça à moral familiar, setores progressistas da fé denunciam também o impacto predatório dessas plataformas sobre as populações mais vulneráveis.

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O documento é assinado por organizações da sociedade civil cristã, sendo as principais: Justiça Pública, Aliança Evangélica, Associação Brasileira Cristãos na Ciência e Médicos de Cristo.

O preâmbulo já mostra a intenção de desarmar a polarização que contamina também as igrejas: "A proteção da família e do próximo é um princípio cristão. Antes de qualquer divisão doutrinária, tradição eclesiástica, visão política ou sobretudo cálculo eleitoral, somos o povo que aprendeu que o amor (a Deus e ao outro) é a síntese de nossa fé".

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O argumento central: a expansão dessas plataformas gera custos humanos e financeiros. "A conta chegou, e não é barata. R$ 38,8 bilhões em: perdas por suicídios adicionais; perda de qualidade de vida associada a quadros depressivos; custos de tratamento; seguro-desemprego; custos de encarceramento por crimes relacionados a apostas; perdas associadas a situações de rua. Nem somando tudo que as bets arrecadaram em 2025 essa conta fecha no azul."

As finanças de Armando, 29, se foram, e por pouco seu casamento não foi junto. Ele conta que nunca tinha jogado nem sequer na Mega-Sena, mas um colega na empresa onde trabalha chegou um dia dizendo que havia faturado R$ 800 em uma bet.

Deixou-se cair em tentação. Armando prefere omitir seu sobrenome, porque o que vai compartilhar o envergonha. Fiel de uma igreja de bairro na zona norte carioca, ele começou com R$ 200 tirados da conta conjunta com a mulher. Foi tudo para o ralo. Desesperado, entrou no que chama de "espiral do demônio", apostando com a esperança de ao menos reverter o prejuízo inicial.

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No fim daquela semana, acumulou pequenas vitórias. "Foi o pior que podia ter acontecido", hoje reconhece. Ganhou confiança e passou a achar que era questão de tempo até multiplicar ganhos. Só parou quando a esposa descobriu o saldo negativo em milhares de reais e ameaçou divórcio.

"Você acha que, por ser crente, ser um cara correto, Deus vai te dar essa moral para ganhar", diz Armando. "Essas coisas destroem a família. Exatamente o que o diabo quer."

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Pastores já estão familiarizados com o problema. Pedro Barreto, que lidera a Comunidade Batista do Rio, relata a história de um crente da classe média alta que, após seu psiquiatra morrer, "foi tomado pela compulsividade".

Começou a beber e mais de uma vez chegou ao trabalho "mais para lá do que pra cá". Superou o alcoolismo, mas "descambou para o lado das bets, colocando em risco o patrimônio", diz o pastor. A família lhe tirou o celular para deter o vício.

Se a Bíblia não fala nada em particular sobre jogatina, há passagens que, no mínimo, recomendam cautela, como em 1 Timóteo 6:9-10: "Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos; porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males".

Já 1 Coríntios 6:12 aponta que nem tudo o que é lícito é necessariamente moral: "Todas as coisas me são permitidas, mas nem todas são proveitosas; todas as coisas me são permitidas, mas eu não deixarei que nada me domine".

A promessa de enriquecimento fácil, contudo, muitas vezes leva a melhor. Mesmo o mote "profetizou, jogou, sacou", popular em empresas de aposta, é tido como particularmente cativante nas igrejas.

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Para combater essa chaga social, a carta redigida por grupos cristãos propõe que candidatos à Presidência assumam um pacto formal com medidas concretas de regulação, como o bloqueio de sites clandestinos e a proibição do uso do Bolsa Família e de outros benefícios sociais em jogos.

Desde o fim do ano passado, o Ministério da Fazenda veta essas apostas para todos os beneficiários do Bolsa Família e do (BPC Benefício de Prestação Continuada) para cumprir uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).

Danilo Erly, presidente do Justiça Pública, destaca o caráter apartidário da ação. "O objetivo é apresentar [o compromisso] ao próximo presidente, independentemente de quem seja."

Erly diz que os responsáveis pelo documento já entraram em contato com as seis campanhas mais bem ranqueadas nas pesquisas, começando por Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). "Esse tema precisa ser central nesta campanha e hoje está acessório. Sabemos que conta com um lobby poderoso, e por isso mesmo o período eleitoral é o momento ideal para que a sociedade levante sua voz e seja ouvida."

Pesquisa realizada pelo PoderData em setembro de 2025, com 2.500 entrevistados em 178 municípios, apontou que evangélicos registram maior adesão a jogos online: 41% afirmaram já ter apostado em alguma bet, enquanto 34% dos católicos disseram o mesmo.

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Pastores à direita e à esquerda convergem na repulsa pública a essa indústria. "É um verdadeiro câncer na nossa sociedade", diz o apóstolo Estevam Hernandes, que lidera a igreja Renascer em Cristo e a Marcha para Jesus. "Temos falado no altar para que as pessoas não joguem, não permitam que seus filhos joguem. Fazemos palestras para os nossos adolescentes sobre isso."

A Igreja Universal do Reino de Deus também investe contra a prática, em postagens como "o jogo que está roubando muito mais do que dinheiro". O pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, já fez um "alerta espiritual" sobre o fenômeno que está "destruindo famílias".

O pastor Henrique Vieira, deputado pelo PSOL-RJ, está na outra ponta política, mas sintoniza a mesma preocupação com o assunto. Ele mira mais diretamente na "propaganda das bets que tomou conta do futebol, das redes e da vida cotidiana", uma indústria bilionária que adoece o povo, que continua "se endividando e perdendo até o direito de viver o esporte como paixão", ele afirma.

O pastor Lucas Graffunder acompanha o problema de perto em Novo Hamburgo (RS). Sua congregação luterana sediou uma reunião do JA (Jogadores Anônimos) pela primeira vez em agosto de 2025, com 15 pessoas. Um ano depois, já eram até 70 por semana.

"A vergonha pode dificultar muito o primeiro pedido de ajuda", diz. "Precisamos ter cuidado com a maneira como falamos do assunto dentro das igrejas. Reduzir o vício a uma simples falta de fé pode afastar justamente quem precisa."

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Graffunder reuniu no ebook "Não Aposte sua Vida" reflexões sobre o tema. Ali reproduziu um relato que o marcou. O jogador dizia estar "no fundo do poço, cogitando suicídio, pensando que a vida da minha família seria melhor se eu simplesmente não existisse". Deixou o filho "passar necessidade para jogar" e, mesmo assim, a criança o via como um herói.

"Minha geladeira não funcionava, com exceção do freezer, e eu não consertava: todo o dinheiro ia para as apostas." Acabou no JA. Em cinco meses de recuperação, pagou R$ 7 mil dos R$ 60 mil em dívidas que contraiu. Também comprou uma geladeira nova. "A primeira coisa que meu filho falou foi: ‘Pai, agora a gente pode fazer gelatina’. Eu chorei."

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