"Sem resposta firme da NATO, a Rússia avança"

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. A análise esta manhã é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia. Bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Temos de falar sobre o que aconteceu no fim de semana. Boris Johnson e outros líderes europeus escaparam por pouco a um ataque de drone russo que explodiu a escassos quilómetros da fronteira com a Polónia. As reações têm sido muitas. Kaja Kallas fala em tentativa de intimidação ao Ocidente, enquanto Mark Rutte diz que Putin atua em desespero e que o apoio a Kiev vai aumentar ainda mais. Bruno, muitos comentários, mas pouca ação. A NATO não fica cada vez mais fragilizada ao não ter uma resposta firme? Até quando é que se vão aceitar estes incidentes, estas provocações?
Eu acho que provavelmente a resposta é até haver uma tragédia, ou seja, até haver algum tipo de incidente em que realmente haja um número significativo de mortos europeus, não ucranianos, porque os ucranianos também são europeus, mas de outros europeus, de países membros da NATO ou da União Europeia, seja no interior da Ucrânia, seja nestas zonas de fronteira. Eu percebo que os países da NATO não queiram invadir a Rússia, não é disso que se está a falar, evidentemente, mas parece-me bastante claro que esta política de ambiguidade estratégica, de facto, não tem funcionado e que era preciso uma resposta mais robusta. Aliás, parece-me que ela já deveria ter acontecido há mais tempo. Algumas ideias existem, não quer dizer que haja respostas fáceis, simples para isto, mas é evidente que o que tem sido feito não tem funcionado, não tem sido suficiente. A Rússia está cada vez mais afoita e, portanto, parece-me que, por exemplo, aquela ideia que já se fala há anos de forma coordenada com a Ucrânia, se fazer uma defesa aérea avançada. No fundo, os países da NATO vizinhos da Ucrânia começarem a usar os seus meios para abater ameaças russas deste tipo, ainda no interior do território ucraniano. Seria uma possibilidade. E outra é realmente avançar com mais apoios à Ucrânia, embora aí também é importante dizer que muito arsenal já está nos seus limites, mas ainda há algumas possibilidades. Por exemplo, os famosos mísseis Taurus, de fabrico alemão, que também são falados há anos.
Bruno, a própria Polónia diz que a NATO derrotaria a Rússia rapidamente se tirássemos as luvas, entre aspas, até porque tem uma superioridade aérea avassaladora sobre Moscovo.
Essas vitórias, à partida, convém ter aí alguma prudência. Mas é verdade que, à partida, os países da NATO têm, pelo menos em qualidade, realmente uma enorme vantagem em relação à Rússia. O grande problema com que os países da NATO se debatem, inclusive os próprios Estados Unidos, e estamos a ver isso, por exemplo, até na guerra com o Irão, é realmente a quantidade, porque todo o modelo que foi desenvolvido desde o final da Guerra Fria foi para ou guerras muito prolongadas, mas de baixa intensidade e contra adversários muito inferiores em termos tecnológicos, coisas como movimentos de guerrilha, o dito Estado Islâmico ou o Estado Livre, etc. Ou então conflitos de maior intensidade contra adversários com níveis mais próximos em termos de tipo de armamento, mas muito mais curtas, porque realmente também foi esse o padrão basicamente desde a Segunda Guerra Mundial. As guerras entre Estados são uma pequena minoria dos conflitos armados desde 1945, menos de 20%. E geralmente quando existiam eram de curta duração, poucos dias ou muito poucos meses, a Guerra dos Seis Dias ou os conflitos entre a Índia e o Paquistão, ainda recentemente, são exemplos disso. E realmente o que se percebe é que isso é o padrão, mas não quer dizer que não haja exceções ou que até a exceção não se torne numa nova regra, como esta guerra de elevada intensidade entre a Rússia e a Ucrânia.
Sobre a Cimeira dos BRICS, na declaração final, multiplicaram-se as referências ao conflito no Médio Oriente e à crise no Irão, mas a guerra na Ucrânia ficou completamente fora do documento final. Esta ausência da guerra na Ucrânia nas conclusões dos BRICS é prova de que Putin conseguiu desviar todas as atenções da sua invasão para o Médio Oriente ou mostra que o Sul Global prefere ignorar o conflito europeu para não criar divisões?
Eu acho que também não se deve dar um certo sentido de demasiada importância, mas alguma ela merece. Realmente os BRICS, que agora são os BRICS+, passaram de cinco grandes potências emergentes do chamado Sul Global, embora uma delas, na verdade até mais do que uma, a Rússia e a China, até estão no Hemisfério Norte, mas a Rússia, a China, o Brasil, a África do Sul, a Índia, agora já são 11, já há vários outros países. Inclusive, temos o Irão e os Emirados Árabes Unidos, que estão em conflito aberto no contexto do Médio Oriente. Portanto, eu percebo que a Índia, que presidia desta vez, tivesse dado prioridade a tentar dizer alguma coisa sobre o conflito no Irão, que é o conflito mais intenso e com mais impacto na economia global, e tendo em conta que havia beligerantes no próprio grupo, que isso tivesse concentrado as maiores atenções. E realmente eles conseguiram dizer alguma coisa sobre a necessidade de contenção, etc. Portanto, encontrar uma linguagem que fosse satisfatória para quer o Irão, quer os Emirados, ou seja, que obviamente interpretam as coisas em sentido oposto, o que lá está dito, acham que aquilo é um recado para o outro lado. Agora em relação à Ucrânia. Por um lado, de facto, não há nenhum grande defensor da Ucrânia no grupo. É extraordinário, mas é assim. Mesmo países democráticos como a Índia ou o Brasil, que passam o tempo a falar do combate ao imperialismo e ao colonialismo, têm mais coisas que fazer realmente do que arriscar a sua relação com a Rússia, nomeadamente em termos comerciais Para denunciar aquilo que é claramente a guerra mais abertamente imperialista de conquista por uma grande potência desde a Segunda Guerra Mundial. Portanto, nesse sentido é verdade, sim, há aqui, em certo sentido, uma vitória russa. Também é verdade e é importante dizer isso, e é sobretudo verdade até para ser justo no caso da Índia, que estes países, embora não tenham aceitado sacrificar aspectos econômicos, por exemplo, das relações com a Rússia, por exemplo, a Índia tem sido crítica da invasão, tem algumas vezes sinalizado preocupação com coisas como, por exemplo, a ameaça de utilização de armas nucleares por parte da Rússia, tem mantido algum esforço para manter também publicamente relações com a Ucrânia. Por exemplo, colegas indianos não se espantariam que houvesse uma visita do Zelensky à Índia nos próximos tempos. E, portanto, também não é verdade que haja aqui um completo alinhamento destes países com a Rússia, porque se isso acontecesse, então teria havido um comunicado de alguma forma de apoio às posições russas.
Temos também de falar dos avanços dos houthis no mar Vermelho, perto de Bab-el-Mandeb. O barril de petróleo disparou, ultrapassou os 100 dólares. Bruno, que leitura faz de tudo isto? O Irão e os aliados conseguiram o golpe perfeito no abastecimento de energia e o Ocidente tem alguma forma travar esta subida descontrolada dos combustíveis?
O Ocidente deve querer dizer, sobretudo, os Estados Unidos, que foi o país que tomou a iniciativa de iniciar este conflito e, portanto, certamente o presidente norte-americano, que não esconde que realmente se considera a si próprio como uma pessoa brilhante e extremamente inteligente e um gênio da estratégia, certamente deve ter aqui uns planos geniais para resolver estes problemas. Infelizmente, as notícias que tivemos foi que quando o governante da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro e primeiro-ministro Mohammed bin Salman, ligou a Donald Trump, aparentemente ele terá dado a entender que não considerava que o assunto tivesse a ver com ele, o que é realmente altamente preocupante e ajudou a alarmar ainda mais os mercados. Portanto, neste caso, tivemos realmente aqui uma ofensiva dos houthis em direção à zona mais a sul do Iêmen. Eles já controlam realmente a zona mais estreita do Estreito de Aden, sem qualquer oposição militarmente eficaz. Obviamente, há uma responsabilidade também saudita. Os sauditas parece que estão habituados a comprar o que querem, onde querem, só que as vitórias nas guerras não se compram, é mesmo preciso combatê-las e ganhá-las. E os sauditas claramente hesitam muito, por exemplo, em colocar tropas no terreno. Uma coisa é ataques aéreos, outra coisa é tropas no terreno. E houve também ataques das milícias pró-iranianas a partir do Iraque. São um dos resultados daquela ideia brilhante de invadir o Iraque em 2003, que uma das consequências que teve foi abrir caminho às milícias, aos grupos pró-iranianos no Iraque. Mas esse ataque terá destruído infraestruturas naquele oleoduto leste-oeste que a Arábia Saudita usava para bombear cerca de cinco milhões de barris dos campos de petróleo que ficam junto ao Golfo para a zona do mar Vermelho. Portanto, não só há o problema de que esse petróleo vai ter dificuldade de ser exportado para a Ásia, porque há este estrangulamento maior sobre o estreito de Aden pelos houthis, como não há petróleo para fazer essa viagem, ou pelo menos os sistemas de bombeamento, etc., estão parcialmente destruídos. Portanto, isto realmente cria um problema adicional enorme nos mercados de energia. Já se volta a falar preços de petróleo do tipo 150 dólares, até 200 dólares, ou seja, ainda uma duplicação quase em relação ao preço que já está. O que isto mostra realmente é que não há aqui nenhum planeamento estratégico, nenhuma ideia clara, nomeadamente da parte dos Estados Unidos, sobre como lidar com estes problemas, com estas ameaças previsíveis do Irão e dos seus aliados.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Boa semana.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.