"Não posso ignorar, é um símbolo da Seleção e de Portugal"

Havia pelo menos a expetativa de que, mesmo “à sua maneira”, aparecesse algo que serenasse o ambiente. Para Jorge Jesus, a conferência antes da partida com a Dinamarca em Copenhaga, que funcionou como gota final para o copo de Cristiano Ronaldo transbordar de vez, teve um pedido de desculpas ou pelo menos o assumir de que também errou – pelo menos “à sua maneira”, como confidenciou a pessoas próximas. A seguir a essa partida, que terminou com a terceira vitória consecutiva da Seleção nesta Liga das Nações, não houve nada disso. Mais: Jesus assumiu a grande figura que é o capitão de Portugal, mostrou esse respeito pelo 7 mas pouco mais referiu a esse propósito, assegurando que não estava arrependido: “Nada, zero”.
O que se passou entretanto? Uma tentativa a vários níveis de criar condições e contexto para um outro tipo de despedida de Ronaldo. Segundo apurou o Observador, Pedro Proença, líder da Federação Portuguesa de Futebol, foi recebendo vários contactos dos demais quadrantes nacionais com o ponto comum de encontrar pontes que possam fazer a transição para um outro adeus (não se colocando, nesta fase, a hipótese de voltar ao grupo de trabalho). Para já, existe uma intenção: promover uma reunião mediada pelo número 1 da FPF entre o jogador e o selecionador. Mais detalhes, só mesmo depois do encontro frente à Noruega.
Em condições normais, tudo apontava para que, depois desse quarto e último encontro da Liga das Nações nesta paragem para seleções, se falasse de forma mais “aberta” sobre o caso Ronaldo. No entanto, e antes do momento indicado em termos internos, havia a conferência de antevisão à partida deste domingo com os noruegueses no Dragão. E, ao contrário do que é normal, foi Jesus a falar antes de Bruno Fernandes.
“O que quero é que possamos ganhar para praticamente estarmos qualificados para os quartos de final. Se conseguirmos fazer o que fizemos com a Dinamarca, com momentos com muita qualidade… Era aquilo que queria mais, mas nem sempre no futebol o que queremos conseguimos. Gostava que Portugal ganhasse, que no nosso país ficasse com o carimbo da qualificação”, começou por referir o selecionador.
“O foco tem que ser a Seleção, por tudo. A Noruega, aquilo que temos que fazer bem, que o nosso povo também esteja em sintonia com a bandeira e com o objetivo. Isso não quer dizer que posso ignorar o Cris, claro. O Cris é um símbolo da Seleção, de Portugal. Depois do jogo há muito tempo para se falar sobre isso. Vou-me focar na equipa, no adversário. A Noruega é uma equipa do top 5 da Europa, com grandes jogadores. Temos que estar focados. Depois temos todos tempo para analisar, até em relação aos jovens jogadores portugueses. Depois temos mais dois jogos, mas primeiro temos que carimbar a qualificação”, apontou de seguida, com uma primeira passagem muito ao de leve pela situação do capitão depois da saída.
“O carinho que procuro e gostava não passa do símbolo da Seleção, o carinho que quero é para a equipa e não para mim. Eu faço parte de uma equipa, sou o comandante. Esse afeto que os adeptos têm pelo País. Antes de ser selecionador, também era adepto da Seleção ferrenho, doido. Olhava para o meu país. Não quero estar à parte de nada da Seleção”, prosseguiu, “fintando” a questão sobre se tinha mantido algum tipo de contacto com Ronaldo. “Estatuto do Cris? Se afeta o Mundial-2030? Não me vou desviar… Já estamos a ir para 2030… O futebol é dia a dia, jogo a jogo. O jogo de amanhã [domingo] é o mais importante. Um jogo que se espera bem jogado. É para aí que eu quero ir. O problema neste momento chama-se Noruega”, frisou.
“Temos feito quatro alterações todos os jogos, tudo depende das condições dos jogadores. Vamos para o quarto jogo. Os jogadores que jogam mais minutos começam a estar no risco da lesão. Vamos mudar alguns jogadores mais carregados. O [João] Félix recuperou, acho que recuperou mas ainda temos que fazer um treino. Ajustes para o jogo? Temos vantagens numas coisas e desvantagens noutros momentos. A questão física, aí perdemos. Têm cinco jogadores entre 1,90m e 1,88m. Mas temos vantagens, não somos tão grandes mas somos rápidos. Os nossos médios são todos jogadores com 1,70m, mas com bola nos pés é difícil pará-los. Tentar que isso entre dentro do jogo. O treinador da Noruega já viu o filme do primeiro jogo”, continuou Jorge Jesus, nesta fase a falar apenas sobre questões relacionadas com o encontro no Dragão.
“A estatística são factos. A Noruega é uma equipa com muita qualidade, eu já disse isto aos meus jogadores. Apareciam em Portugal jogadores altos, grandes, mas não tinham muita qualidade técnica. Hoje em dia não. Têm técnica. Vamos jogar para ganhar, jogando no risco, e por isso não vamos mudar as nossas ideias. Vai ser igual com a Noruega”, reforçou, antes de passar a responder a questões da imprensa estrangeira. “Se vi o jogo do Brasil com a Noruega no Mundial? O que o Brasil não fez, o Ancelotti certamente agora tem uma opinião diferente. Aquilo que identificámos como estratégia foi fechar alguns momentos, não vou dizer quais. Três ou quatro momentos com bola e conseguimos fazer, por isso é que conseguimos vencer”, comentou.
“Dias mais difíceis da carreira? O mais difícil na carreira de um treinador é resolver e quando não ganha arranjar formas para que a vitória esteja próxima. Por muito que possa dizer que a vitória na Dinamarca me encheu de orgulho… Também posso dizer que poderia estar mais feliz”, concluiu Jorge Jesus, em mais uma alusão indireta ao caso Ronaldo que, apesar das 14 questões, acabou por ser contornado da melhor forma… até ao final do encontro com a Noruega. Já Bruno Fernandes, capitão da Seleção que falou depois do selecionador, teve uma resposta mais longa sobre todo o processo… para apelar à união de todos.
“Não tenho a necessidade de falar com os colegas, todos sabemos gerir as nossas próprias situações. Em nada tem a ver com os jogadores, o papel mais importante que podemos ter é dar resultado em campo. Tive uma conversa com ele [Ronaldo], o que lhe disse é que o mais importante é que, independentemente do que aconteça, nunca vai deixar de ser o maior símbolo do nosso futebol, por tudo o que fez. Tem um lugar reservado nos melhores de todos os tempos, no coração de todos os portugueses, temos de deixar de dividir as águas. A Seleção é uma só, independentemente dos ruídos e barulhos de fora, acho que todas as casas devem resolver os assuntos dentro de portas. O mais importante é que acabe tudo bem. Estamos fora do assunto, de toda a polémica. O que peço é que o país não se divida, que não faça escolhas, que respeite e aceite todos os lados. O Cristiano Ronaldo merece o respeito de todos os portugueses”, salientou o médio.
“Jogo com a Noruega? Portugal teve de saber sofrer pela qualidade do adversário. É uma seleção com muita qualidade, jogadores de grande nível. Também temos de dar valor ao trabalho defensivo que foi feito. Provavelmente demos mais oportunidades do que queríamos mas conseguimos ser eficazes. Há sempre coisas a melhorar, contra a Dinamarca não foi diferente. Fora de casa é cada vez mais difícil conseguir resultados, agora que amanhã [domingo] sejam mais três pontos”, frisou o capitão nacional.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.