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Saturday, August 15, 2026

Rússia quer usar Moldávia para destruir a NATO e UE

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Um campo de férias na Sérvia, com o patrocínio de um milionário moldavo-israelita, e uma peregrinação à Rússia por parte de padres moldavos foram concebidos por Moscovo para usar a Moldávia para desestabilizar a NATO e a União Europeia. Esta é a conclusão de uma investigação do New York Times, publicada hoje.

De acordo com documentos obtidos sobre uma reunião secreta que teve lugar no final de dezembro de 2025, Putin terá dito que o objetivo para 2026 seria “o colapso da NATO e da União Europeia por dentro” e que a Moldávia seria “central” para esse objetivo, devido à sua posição estratégica, apesar de publicamente ter afirmado que não tinha pretensões em atacar o país.

“A Moldávia constituiria uma cabeça de ponte ideal para a Rússia efetuar novas agressões, quer contra a Ucrânia quer contra o Ocidente, disseram os responsáveis [pela investigação], acrescentando que Putin ainda espera conquistar uma faixa do sul da Ucrânia para criar uma ligação terrestre entre a Rússia e a Moldávia“, refere o jornal.

Para Stanislav Secrieru, conselheiro de segurança nacional e defesa da Presidente moldava, Maia Sandu, a Rússia pretende usar a Moldávia “como uma plataforma de lançamento para atividades hostis contra a Ucrânia, bem como contra o seu principal apoio financeiro e de defesa, a União Europeia”. O responsável político afirma que, por essa razão, a Rússia investiu “recursos sem precedentes” durante os últimos anos no país, sobretudo nas eleições presidenciais de 2024 e num referendo, realizado no mesmo ano, sobre a inscrição da adesão à União Europeia na constituição.

Questionado sobre o esquema, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou as conclusões da investigação, afirmando que são “falsas e sem fundamento”.

Os campos de férias e o “ABC do Terrorismo Caseiro”

Em outubro de 2024, três participantes num campo de férias da Bósnia foram detidos quando tentavam regressar à Moldávia, trazendo consigo “componentes de drone, incluindo acessórios para lançar granadas”, afirmam os procuradores moldavos que estão a investigar o caso. Além disso, os participantes traziam consigo um livro intitulado “Cozinha Russa: o ABC do Terrorismo Caseiro”.

Quase um ano depois, no verão de 2025, cerca de 500 participantes, na sua maioria moldavos, receberam 400 dólares (345,81 euros) para frequentar um curso de treino de quatro dias numa zona remota da Sérvia não divulgada. Os programas eram instruídos por agentes dos serviços de informações militares da Rússia e incluíam workshops sobre como “aprender a furar cordões policiais e a incendiar edifícios”.

“Vídeos do acampamento, que os procuradores moldavos e o serviço de informações do país afirmam ter sido retirados dos telemóveis dos participantes, mostram homens vestidos com roupas de camuflagem e coletes à prova de bala a treinar com espingardas de assalto”, refere o New York Times.

Além da Sérvia, mais de 100 jovens moldavos participaram num acampamento em Moscovo, supervisionados pelos serviços de informações militares da Rússia, em que, de acordo com procuradores moldavos, praticavam o “fabrico e utilização de engenhos incendiários e explosivos caseiros” e o manuseamento de drones “com acessórios especiais para explosivos ou fogo posto”.

No entanto, tais atividades são negadas por Iuri Vitneanski, um ativista político moldavo, que afirmou que o acampamento servia para criar “relações amigáveis e de cooperação”, com a juventude política russa, enquanto outros participantes afirmam que não estiveram presentes nas sessões de treino. Do mesmo modo, as próprias autoridades moldavas admitem que é possível que o verdadeiro propósito do evento não fosse conhecido por todos os participantes.

Recrutamento de ativistas e o “Travolta”

Uma operação para manipular as eleições presidenciais de 2024 e as legislativas de 2025 também envolveu o financiamento de manifestações anti-Governo por parte de Ilan Shor, milionário moldavo-israelita, líder do partido pró-Kremlin Vitória. Shor fugiu para a Rússia em 2019, após ter sido acusado de ser uma das figuras-chave de um escândalo bancário na Moldávia, cinco anos antes.

Uma das manifestações, realizada em Taraclia, em julho de 2025, contava com um dos participantes no campo de férias de Moscovo, que afirmou que o evento era uma “iniciativa de residentes locais”, apesar de grande parte dos manifestantes terem sido pagos através do milionário.

As despesas de viagem e as ajudas de custo serão reembolsadas“, dizia uma mensagem enviada através do Telegram através de aliados de Shor, que entraram em contacto com milhares de moldavos e que os instruíram a “comparecer no edifício do conselho distrital da cidade com vassouras, como um adereço simbólico para ‘varrer esse tipo de gente'”.

As mensagens, armazenadas num acervo da empresa de serviços financeiros do milionário, continham dados detalhados dos participantes da manifestação, como nomes, moradas e contactos, e mostravam que foram recrutados mais de 150 mil pessoas. As conversas continham um utilizador com o nome de “Travolta”, que se tratava de Ilan Shor. Estes registos estavam guardados numa nuvem pública, tendo o jornal norte-americano contactado os nomes presentes nos registos.

O New York Times também analisou as publicações das redes sociais das pessoas que constavam nos contactos e “rastreou as coordenadas de GPS incluídas na base de dados até ao endereço do seu programador, perto do Centro de Inovação de Skolkovo, nos arredores de Moscovo”. A pasta foi retirada do ar após o jornal ter contactado o programador.

Além das manifestações, os participantes eram instruídos a publicar conteúdo nas redes sociais a apelar ao voto contra o partido da Presidente Maia Sandu e a União Europeia. No total, 38 mil ativistas foram pagos ao longo de quatro meses em 2024, antes das eleições presidenciais e do referendo, totalizando 20 milhões de dólares (17 milhões de euros) em pagamentos. Estes documentos sobre as avenças pagas aos ativistas foram inicialmente divulgados pelo jornal moldavo Ziarul de Gardă e tinham sido retirados da Internet.

Através do Telegram, os programadores de Shor criaram 240 chatbots para recrutar quase 99 mil pessoas, num esquema que operava em pirâmide: para evitar a infiltração por parte de membros das forças policiais, a base era formada pelos recrutas, estando 35 mil pessoas acima deles. No topo da hierarquia constavam 1.200 gestores locais. Apesar de a Rússia ser pouco mencionada nos registos sobre o recrutamento por chatbots, um anúncio que era extensivamente partilhado entre os recrutas avisava que a aproximação da Moldávia ao Ocidente levaria a “uma repetição exata do cenário ucraniano”.

“Tudo somado, tratava-se de uma vasta operação supervisionada por Shor com o objetivo de influenciar a política moldava muito para lá de um único protesto”, afirmaram ao New York Times responsáveis dos serviços de informação ocidentais e procuradores moldavos.

A peregrinação à Rússia

Ilan Shor também terá pago mil dólares (864 euros) a cada padre ortodoxo moldavo para usar as missas para espalharem mensagens contra o Governo europeísta do país e apelar ao voto contra no referendo de 2024.

Um grupo de cerca de cem padres visitou a Rússia no verão de 2024, tendo visitado locais sagrados e líderes da Igreja Ortodoxa russa e assinado um contrato em que se declaravam “funcionários da Evrazia, uma organização ligada ao Kremlin que, segundo responsáveis dos serviços de informação ocidentais, promove políticas pró-russas nos antigos Estados soviéticos”. A organização tem como membro do conselho de administração Ilan Shor.

O arquipresbítero de Orhei, Iulian Raţa, que participou na peregrinação à Rússia, garantiu que nem todos os padres que estão sob a sua alçada fizeram campanha contra as políticas europeístas, mas acusa Maia Sandu de assediar padres que são “leais à Igreja Ortodoxa Russa”.

Eleições de setembro de 2025

Nas semanas que antecederam as eleições de 28 de setembro de 2025, a polícia moldava realizou buscas e deteve pessoas envolvidas nos acampamentos ou que tinham sido pagas por Shor.

No dia da eleição, participantes no acampamento do verão de 2025 prepararam-se para realizar manifestações em Chișinău e alguns deles tinham engenhos incendiários, segundo o procurador moldavo Sergiu Zama. Além disso, hackers russos invadiram as plataformas da Comissão Eleitoral Central da Moldávia e “assumiram o controlo de milhares de routers pessoais”. No entanto, o pior não se confirmou.

O partido de Maia Sandu, o Partido da Ação e Solidariedade venceu as eleições com 50,2% dos votos, conseguindo maioria absoluta.

No entanto, têm sido empreendidos ataques militares com drones contra infraestruturas moldavas. Por exemplo, em março, um ataque russo com drones contra um poste de alta eletricidade na Ucrânia ocidental, que provê energia a mais de 70% da Moldávia, provocou apagões no país.

Para o diretor da Agência Moldava de Cibersegurança, Mihai Lupascu, o país venceu a batalha. “Mas não vencemos a guerra”, sublinha.

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