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Tuesday, October 20, 2026

Conexão entre Flávio Bolsonaro e milicianos vira munição de Lula; relembre casos

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Em junho de 2005, um deputado estadual em primeiro mandato apresentou uma proposta para homenagear um ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Na época, viu motivos de sobra para dar a Medalha Tiradentes —a maior honraria concedida pela Assembleia do Rio de Janeiro— àquele que, quatro anos antes, "logrou êxito em prender 12 marginais no Morro da Coroa", além de apreender fuzis, pistolas, munições, granada, submetralhadora, faca e 90 trouxinhas de maconha.

Flávio Bolsonaro, filiado à época ao PP, mesmo partido do pai, foi à prisão entregar pessoalmente a comenda a Adriano Magalhães da Nóbrega. O militar estava preso sob a acusação de matar um guardador de carros que teria denunciado episódios de tortura e extorsão.

Anos depois, Flávio confirmou ter visitado inúmeras vezes o BEP (Batalhão Especial Prisional), sob justificativa de "ouvir PMs presos injustamente".

Adriano seria apontado como um dos líderes da milícia carioca e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime. Foragido em 2019, ele foi localizado um ano depois numa zona rural da Bahia, onde acabou morto em operação policial.

Após a morte de Adriano, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) disse ter sido ele quem determinou que o primogênito agraciasse o ex-capitão com a medalha. "Naquele ano ele era um herói da Polícia Militar", afirmou na ocasião.

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Episódios assim viraram munição para o presidente Lula (PT), que explora as supostas conexões entre Flávio e grupos milicianos na campanha eleitoral.

No debate da Band deste domingo (18), quando o senador do PL pediu que o presidente se aproximasse dele durante uma resposta, Lula respondeu que não chegaria perto. "Quero distância de miliciano".

Em São Gonçalo (RJ), a dias do primeiro turno, Lula fez comentário semelhante. "Da mesma forma que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, no Palácio do Planalto não cabe a representação de miliciano lá dentro", disse durante ato de campanha.

Procurada na manhã de sexta-feira (16), por email e mensagens, a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas da reportagem.

O presidenciável do PL costuma rebater as críticas sobre esse tema afirmando que as propostas de segurança do adversário são vazias e que "os bandidos sempre ficam felizes" quando o petista fala em segurança pública.

Flávio defende a classificação de facções e milícias como grupos narcoterroristas. Em seus primeiros discursos como pré-candidato, ele focava o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). A partir de junho, passou a incluir nominalmente as milícias.

"Qualquer criminoso que imponha medo coletivo e adote as práticas do CV e PCC tem de ser enquadrado como terrorista, [milicianos] incluídos", disse num fórum organizado pela revista Veja.

As relações entre Flávio e milicianos

Não há provas materiais do envolvimento direto do candidato com essas redes criminosas compostas sobretudo por policiais e ex-policiais que exercem controle territorial armado, extorquindo moradores e comerciantes locais, segundo o sociólogo e professor José Cláudio Sousa Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

"Em termos de participação em esquemas milicianos, em compra de votos, recebimento de grana, isso aí não tem. Eles não são burros a esse ponto", afirma.

O vínculo com esse universo se materializa nas afinidades ideológicas, diz Alves, que é um estudioso do tema. "O que existe são discursos e práticas que o tempo todo vão reforçar a lógica das milícias, do extermínio, da execução sumária e de aplaudir operações sanguinárias."

A ligação com dois nomes publicamente associados à milícia é o que Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP) e autor do livro "A República das Milícias", vê como aspecto mais próximo "de um batom na cueca".

Adriano da Nóbrega já era conhecido "como um dos maiores matadores do Rio" quando Flávio, então deputado estadual, deu cargos à mãe e à ex-esposa dele, lembra Manso. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa, nomeadas para trabalhar no gabinete de Flávio na Assembleia, foram exoneradas em novembro de 2018.

Fabrício Queiroz intermediou a contratação das duas, homem de confiança dos Bolsonaro havia anos. A suspeita era de que Raimunda e Danielle ajudavam a alimentar um esquema de "rachadinha": indicadas como funcionárias fantasmas, repassavam parte de seus salários de volta a Queiroz. A revelação caiu como uma bomba no clã logo após o patriarca ser eleito para a Presidência.

Flávio não foi absolvido ou declarado inocente no caso da rachadinha. Em 2021, a Justiça anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal, o que invalidou as provas centrais da investigação e derrubou a denúncia.

Em depoimento ao Ministério Público do Rio, em 2020, o senador disse que conheceu Adriano dentro do Bope —"ele me dando instrução de tiro". O encontro, declarou na ocasião, aconteceu "por intermédio do Queiroz, que serviu com ele no batalhão". "Sempre fui um parlamentar que gostei de conhecer os policiais que iam para o combate, do dia a dia da rua, para o trabalho mais arriscado", acrescentou.

Em agosto deste ano, durante sabatina promovida pela Globo, Flávio minimizou a homenagem a Adriano da Nóbrega. "[Foi] feita há mais de 20 anos [...], no momento em que ele era um policial reconhecido."

O candidato do PL vinculou a prisão do ex-PM sob acusação de matar um flanelinha a uma questão da época. Segundo ele, havia uma "política" de primeiro punir o policial para que depois ele se explicasse se era inocente ou não. "Ele estava sendo falsamente acusado de ter cometido homicídio, e, na verdade, foi uma troca de tiros com traficantes".

A perícia não provou a tese da troca de tiros, mas a defesa a sustentou no processo que culminou na absolvição de Adriano em 2007, após ter sido inicialmente condenado.

Afora a relação com Adriano da Nóbrega, também pesa contra Flávio o envio de uma emenda parlamentar de R$ 200 mil negociada entre a assessora do congressista e Robson Calixto da Silva, vulgo Peixe, investigado sob acusação de intermediar a compra da arma utilizada no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ).

Peixe assessorava os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados como mandantes da morte de Marielle. A emenda de Flávio beneficiou um projeto de futebol de um instituto na Taquara, bairro na zona oeste carioca sob influência dos Brazão e com forte presença miliciana.

Em 2008, o filho de Jair Bolsonaro votou a favor da instalação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das milícias na Assembleia fluminense, mas declarou publicamente ser contra a investigação.

A comissão foi instalada após uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia" infiltrados na favela do Batan, na zona oeste do Rio, serem capturados, mantidos em cárcere privado e torturados por mais de sete horas. Flávio disse votar a favor do inquérito por respeito à imprensa, sem citar a atuação dos grupos no estado.

Declarações em favor de milícias são reincidentes no discurso de Jair Bolsonaro. "Você tem que pensar que tem gente favorável à milícia, que é a maneira que ele tem de se ver livre da violência", disse à rádio Jovem Pan na campanha presidencial de 2018. "Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência."

Cinco anos depois, já fora da Presidência, o capitão reformado do Exército classificou um ataque a ônibus provocado por milícias no Rio como um "ato de terrorismo".

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