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Friday, October 30, 2026

A conversa que não tive (e troquei por IA), e o que perdemos

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Na semana passada, a minha irmã disse-me, sobre a nossa relação, “gosto quando me pedes ajuda”.

Primeiro, lembrei-me da vez mais recente em que lhe pedi ajuda. Eu estava perdida e muito preocupada. Além da enorme ajuda prática, senti-me acompanhada, próxima e apoiada nesse momento. Teria perdido tudo isso se não lhe tivesse ligado.

Depois, pensei nas vezes em que podia ter-lhe ligado e não o fiz.

Numa dessas vezes, em vez de lhe ligar, perguntei à minha IA como resolver o problema. Recebi soluções. Mas mantive-me isolada com o meu problema e as soluções da IA. A conversa que não tive manteve-me distante da minha irmã.

O que me levou dessa vez a não ter a conversa com ela, e a usar antes a IA?

Ao pensar em falar-lhe, imaginei juízos de valor sobre mim e uma dor que não me apetecia sentir. A IA é mais fácil: responde depressa e sem queixas, e sobretudo não me julga (e tende até a validar-me).

O problema é que a entreajuda é uma das colas das relações humanas, em sociedade, em casa e nas equipas. Quando não assumimos a vulnerabilidade de pedir ajuda, limitamos a entreajuda que acontece em ambos os sentidos, as relações enfraquecem e perdemos muito do seu valor e sentido.

Um artigo da Harvard Business Review fala de “relationslipping” — o enfraquecimento pernicioso das relações de trabalho de uma equipa à medida que os seus membros se substituem uns aos outros pela IA. Investigadores da BetterUp e de Stanford inquiriram mais de mil profissionais e concluíram que, nas equipas onde se recorre mais à IA em vez de aos colegas, a coordenação e a confiança pioram mais de 20%. Quem sente a sua ajuda substituída pela IA (49% dos inquiridos) sente-se mais isolado, menos importante e mais substituível.

Com menos coordenação e confiança, multiplicam-se as duplicações, a dúvida e as verificações. E a resolução de desafios mais complexos piora – os que mais precisam de inteligência coletiva, de perspetivas e experiências variadas que não estão nos “dados” da IA.

E muito não está nos dados: p.ex., a responsável de um restaurante, ao ver a escala de turnos que a IA lhe fez em minutos (e lhe levaria 4 ou 5 horas a fazer), percebeu logo o que não funcionaria. Sabia que duas pessoas da equipa tinham deixado de ser um casal, outra não estava pronta para a posição que queria e outra precisava de descansar. A IA trouxe rapidez analítica, mas este conhecimento não estava escrito: vinha de conversas, de relações de confiança e da sua experiência do contexto.

Quando evitamos pedir ajuda, expor as nossas dúvidas ou o nosso trabalho à opinião de colegas – por desconforto, pressa, ou porque a IA já validou – perdemos várias oportunidades: de estreitar a relação e de permitir à outra pessoa contribuir; de ganhar a perspetiva crítica de alguém com contexto; de descobrir interdependências que não antecipámos e de angariar apoio que não antevimos. E a IA dá-nos uma falsa segurança de que outra opinião humana já não faz tanta falta.

Os grandes desafios e incertezas que enfrentamos hoje pedem relações e equipas fortes – não mais isolamento. A nossa felicidade e saúde também. 

Como usamos então a IA para melhorar o nosso trabalho sem enfraquecer as relações e equipas que nos importam? Precisamos de escolher com mais consciência: usar a IA para “isto” aproxima-nos ou isola-nos (das pessoas, da equipa, do mundo)? E que custo tem esse isolamento?

Quando uso a IA para tarefas técnicas, repetitivas ou de síntese que faria sozinha, pode aproximar. A análise histórica das avaliações da equipa docente de um programa de executivos que coordeno levar-me-ia horas num Excel; a IA fê-la em minutos e foi além do que eu faria. Passei menos tempo sozinha e melhorou a qualidade das conversas que vou ter com estas pessoas.

Quando recorro à IA para substituir uma conversa, nomeadamente para evitar sentir tensão ou juízos de valor, isso pode isolar-nos e ter custos importantes: quando a relação importa, quando precisamos de alinhar prioridades ou de corresponsabilidade, ou quando a dimensão humana do problema é relevante (e o contexto e a intuição humanas acrescentam muito aos “dados”). Nestes casos, a IA não pode substituir a conversa.

Nas equipas com que me cruzo, um dos pedidos que mais oiço é o de tornar a equipa um espaço mais seguro para dizer “não sei”, “tenho dúvidas” ou “tenho uma visão muito diferente”, e receber acolhimento e ajuda sem juízos de valor. A IA não cria esta dificuldade em pedir ajuda ou enfrentar tensões – a falta de segurança psicológica para nos mostrarmos vulneráveis e pedirmos ajuda já existia muito antes de usarmos IA para substituir colegas, e já precisava de atenção. Mas o uso que damos à IA pode ampliar o fenómeno, se não tivermos cuidado.

Na sua vida, que conversas não está a ter (e a substituir por IA) que aproximariam quem lhe importa? Como pode manter essa escolha mais consciente? A quem seria importante pedir mais ajuda?

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