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Saturday, October 3, 2026

Eleição no Brasil pode ser freio ou impulso a projeto de Trump na América Latina, diz pesquisadora

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As eleições deste domingo (4) no Brasil tem um significado inédito para a América Latina, afirma a cientista política Guadalupe González. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diz, pode significar um freio para os planos dos Estados Unidos na região; a de Flávio Bolsonaro (PL), um alinhamento quase completo a Washington.

"O que está em jogo é a capacidade da América Latina, nas próximas décadas, de ser um ator com sua própria agenda ou de acatar o projeto dos EUA de restaurar sua esfera de influência", afirma a pesquisadora do Colmex (Colégio do México) sobre o protagonismo que a região ganhou na política externa de Washington desde que Donald Trump voltou à Casa Branca.

Naturalmente, o pleito é importante também para os EUA, como afirmou o próprio republicano durante entrevista para jornalistas na Casa Branca nesta quinta-feira (1º).

A eleição de Flávio viria na esteira de outras vitórias da direita na América Latina e praticamente isolaria o México, país de origem da pesquisadora. Os mais recentes triunfos incluem os de Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.

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A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

Embora considere a tendência relevante, Guadalupe faz uma ressalva: "64% da população da América Latina é governada por governos de centro e centro-esquerda, enquanto 35% ou 36% são governados por governos de direita ou centro-direita. Acredito que isso pode refletir muito bem a importância da eleição no Brasil", diz, sobre os mais de 214 milhões de habitantes no país.

Para além do peso demográfico, o Brasil é um dos países latino-americanos com mais peso em fóruns multilaterais fora da região, segundo ela —algo que o México, outro gigante também governado pela esquerda, não tem. "Eu definiria o contrapeso do Brasil como aquele com a maior margem de manobra", diz, em referência a esferas como o Brics, bloco de economias emergentes.

O plano dos EUA para a região ficou mais claro em novembro do ano passado, quando Washington afirmou, por meio do documento da Estratégia de Segurança Nacional, que quer "restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental".

Para Guadalupe, "estamos testemunhando algo monumental": o fim de um tipo de ordem liberal e multilateral na América Latina.

Os EUA, segundo ela, estão deixando de ser uma potência hegemônica para se tornar uma potência de domínio em declínio. Nesse novo arranjo, diz, sai a persuasão e a construção de regras e instituições e entra a mudança do status quo pela força —o mesmo que permitiu, aliás, o domínio americano nas últimas décadas.

A consequência disso é um mundo mais incerto. "A dominação sempre depende, em certa medida, de cálculos imediatos", afirma Guadalupe.

O caso que ilustra de forma mais clara essa mudança de postura, segundo ela, é a captura do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro deste ano. A prisão ocorreu após meses de ataques a lanchas no Caribe e no oceano Pacífico que os EUA associam, sem apresentar provas, ao narcotráfico.

"Foi um exemplo de uso unilateral da força que teve baixo custo político e militar para os EUA. Nenhum soldado americano morreu e não houve reação de resistência por parte da América Latina nem retaliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas", diz.

Nesse cenário, a insegurança, uma preocupação antiga da população latino-americana, virou o cavalo de batalha de Trump. "Seus aliados souberam usar muito habilmente essa plataforma eleitoral para chegar ao poder com uma agenda linha-dura", diz. "O medo é uma carta branca para políticas de segurança."

Ao lado das eleições no Brasil, outro termômetro para o projeto de Trump serão as eleições de meio mandato nos EUA. A votação, em novembro, ocorrerá enquanto o republicano lida com mínimas históricas de popularidade.

Diante dessa instabilidade interna, Guadalupe vê o alinhamento cego a Washington como um cálculo errado dos governos latino-americanos.

"Os EUA deixaram de ser um parceiro confiável para todos, até mesmo para seus aliados mais próximos —mas, na América Latina, não estamos vendo isso. Sinto que nossos governos estão extremamente míopes, guiados por um horizonte político e eleitoral muito imediato", afirma.

"É um momento de grandes oportunidades perdidas para a região. Estamos dando absolutamente tudo para os EUA e não recebendo nada em troca, em um momento em que Trump perde sua aprovação interna", completa. "Para onde vai toda essa América Latina alinhada se houver um triunfo democrata?"

Raio-x | Guadalupe González, 71

Mestre em sociologia pela London School of Economics and Political Science e doutora em ciência política pela Universidade da Califórnia, é pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais do Colmex (Colegio de México).

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