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Sunday, October 11, 2026

Judite, a mulher que derrotou um exército

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Judite, a mulher que derrotou um exército. Este é o quinto episódio da terceira temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Esta semana vamos olhar pra história de uma das heroínas mais corajosas do Antigo Testamento. Uma mulher que, sozinha, enganou e derrotou um dos mais poderosos líderes militares da sua época e salvou o povo israelita da destruição. Estou a falar de Judite, a protagonista, precisamente, do livro de Judite. Trata-se, certamente, de um livro de ficção, um pedaço de literatura de guerra escrito para inspirar o povo israelita a resistir aos invasores. O texto chegou-nos já em grego e faz parte do grupo dos livros deuterocanônicos. Ou seja, pode ser encontrado nas Bíblias católicas, mas não nas Bíblias protestantes. Vamos conhecer uma história que tem todos os ingredientes de um bom romance: guerra, heroísmo, sedução, enganos e reviravoltas inesperadas. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos e, como sempre, antes de falarmos da história de Judite, esta história bíblica, quero aproveitar pra lembrar os nossos ouvintes que a nossa caixa de e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt, está sempre à disposição pra perguntas, sugestões, comentários dos nossos ouvintes. Nós respondemos às perguntas que nos chegam num episódio especial que sai todas as quintas-feiras exclusivamente em podcast. Portanto, não se esqueça de seguir o programa na plataforma em que nos ouve, para não perder nenhum episódio, porque esses episódios de quinta-feira não passam na Rádio Observador. Ora bem, vamos falar do tema deste nosso episódio, vamos conversar sobre esta grande heroína do Antigo Testamento, Judite. Daniel, se quer, antes de entrarmos na história propriamente dita, podia ser interessante pensarmos um bocadinho mais sobre este livro. Como eu dizia na introdução, ele surge nas Bíblias católicas, mas não surge nas Bíblias protestantes. No caso das Bíblias católicas, ele é colocado no grupo dos livros históricos, embora, segundo percebo, estamos a falar essencialmente de um livro de ficção, que terá sido escrito ali pelo, talvez, século II a.C., numa altura em que os judeus se revoltavam contra o domínio grego na região. Não sei, isto terá sido um texto lido pelos judeus da altura? Foram buscar aqui inspiração também pra resistir à opressão?

Sim, é um livro que tem como título Judite, que quer dizer judia. Portanto, uma mulher judia. Judeu e Judite têm a mesma etimologia, a mesma raiz e, de fato, surge no contexto deste judaísmo nos últimos séculos a.C. Se consultarmos a Septuaginta ou Setenta, esta Bíblia grega, encontramos lá este texto. No entanto, por vários motivos, que agora também não nos interessa explorar, acaba por não ganhar espaço no que se define como o cânone judaico. Portanto, não é considerado livro sagrado, não é considerado livro bíblico para judeus e por isso, mais tarde, os protestantes, que em geral seguiram esse cânone, não o considerarão. Como vinha na Septuaginta, depois também acaba por entrar na Vulgata, na tradução latina, é aceito como livro canônico pelos católicos. E é um livro que, em conjunto com outros, também deuterocanônicos, como Tobias ou Tobit, como os livros dos Macabeus, é uma história edificante. Sobretudo este, do livro de Judite, é uma espécie de romance histórico. Alguns utilizam este tipo de categorias, que são sempre um bocadinho imprecisas, mas, no fundo, é uma ficção, fazendo remontar ao tempo destes personagens, que até já falámos noutros episódios, o rei Nabucodonosor, assírios, babilônios, persas, mas que terá sido escrito pelos finais do século II, mais ou menos como o livro de Daniel, que falámos na semana passada. Estamos aí nesse contexto histórico, também de um certo conflito cultural com um judaísmo que está helenizado, ou seja, já vivido em ambiente de cultura grega, depois das conquistas de Alexandre, o Grande, e esta dificuldade que o judaísmo tem pra se entender neste contexto cultural diferente.

E também pra, no fundo, resistir diante de uma realidade, diante dos poderes que ali sobreviviam.

De certa forma, é uma literatura de resistência.

Exato. João, vamos então olhar, se quer, pras páginas deste livro. Tudo começa com uma guerra entre dois reis, o nosso já conhecido Nabucodonosor, que falamos na semana passada, e este rei Arfacsad?

Arfacsad, sim, poderia ser assim.

Estes nomes são sempre complicados.

Sim, perigosos e complicados. Sim, e estavas à espera que eu agora tomasse.

Exato, estava só a assistir.

Estavas só a assistir. Até quando nós abrimos o livro, podemos ter uma ideia de que existe aqui uma história realmente 100%, como estaríamos à espera de ver com nomes e cidades muito precisas, mas a verdade é que historicamente estes nomes, as cidades que são atribuídas, são um bocadinho deslocadas. Pensemos, por exemplo, em Nabucodonosor, que é talvez a palavra e a personagem que nós mais usamos no Antigo Testamento a partir de certa altura. Ele aparece como rei da Assíria a governar Nínive, mas ele tinha sido rei da Babilónia, na verdade, não da Assíria, e quando ele subiu ao poder, Nínive já tinha sido destruída em 612 a.C., e curiosamente por uma coligação entre os babilónios e os medos, que agora o Nabucodonosor aparentemente está a combater contra o tal Arfac-Sad. Aliás, isto mostra claramente que não eram propriamente inimigos à época de Nabucodonosor, mas sim aliados. A história, porque Judite só aparece no capítulo sétimo, ou seja, é uma heroína que tarda em entrar, porque há aqui um contexto muito importante. É curioso que muita gente vê este livro como uma espécie de lugar inaugural do humor judaico, portanto, às vezes como numa piada, há uma grande introdução e até entrar Judite.

Até ao ponto de slide.

Sim, até entrar o Joãozinho da história. Precisa de uma grande introdução. Na verdade, aquilo que nós sabemos é que existem estas duas personagens, dois reinos que estão a combater. O próprio Arfac-Sad até tenta fortalecer a sua própria cidade. Nabucodonosor investe sobre ela, mas ao contrário de Arfac-Sad, que tem um conjunto de aliados, Nabucodonosor terá tentado arranjar um conjunto de aliados, só que nenhum deles respondeu positivamente. Não necessariamente por medo, mas por verem que claramente Nabucodonosor era só um homem, não era propriamente Deus Nosso Senhor.

Não valia a pena aliarem-se, não era merecedor.

Não era merecedor. Nabucodonosor, como já sabemos, não terá percebido isto muito bem e depois de derrotar Arfac-Sad, vai incumbir uma vingança pela mão do seu general, do seu segundo general-chefe, que é Holofernes, portanto, aqui mais um nome esquisito, que com 120 mil soldados de infantaria e 12 mil cavalos, começa a fazer este programa, que mais do que propriamente é um programa de vingança diplomática e bélica, é um programa de vingança religiosa. Agora, o Nabucodonosor que nós temos aqui é não só o Nabucodonosor real, mas também é uma espécie de super tirano que junta, por exemplo, traços persas, memória de soberanos selêucidas, que já falámos quando foi o livro Daniel, mas também a imagem de Sanaqueribe. A verdade é que também há aqui uma questão que é: tudo isto, esta vingança pós-conquista do Arfac-Sad, acontece um dia depois da Páscoa judaica, a nível de calendário. Não deixa de ser curioso que quando nós estamos a falar de festejar a libertação, Nabucodonosor, mais uma vez contrariamente a toda a ordem cósmica e ritual, inicia uma nova demanda de escravidão.

Para se vingar basicamente de todos aqueles que não o quiseram-

Para se vingar de tudo e de todos

...dos que não o quiseram ajudar. Daniel, é aqui então, como dizia o João, que entra na história o tal general assírio, Holofernes, que o rei encarrega de conduzir esta campanha militar contra todos aqueles povos que recusaram ajudá-lo na sua luta contra o outro rei. Holofernes e esta comitiva militar vão passando por toda aquela região do Médio Oriente, basicamente, e vão desde a Assíria até à zona costeira, a destruir cidades, a aniquilar povos, um rasto de destruição brutal por todo lado, até que aquele enorme exército acampa às portas do povo hebreu. No fundo, é aí que a história começa, é esse o contexto para depois a história de Judite se desenrolar. O que acontece aí? Como é que encontramos esse exército acampado às portas do povo hebreu?

Este exército está às portas e até aqui vamos tendo uma série de sinais que isto também não é para levar a sério, como o João já disse. Levar a sério neste sentido, Nabucodonosor, este protótipo de um inimigo que está a governar o país errado, no tempo errado e vai aqui contra esta cidade israelita, que também não existe, Betúlia, que é um nome que não se conhece de outro sítio, talvez corresponda a Siquei, mas, no fundo, o próprio texto já está cheio de pistas para o leitor perceber que isto é um texto para ver de outra forma, não como um relato histórico, mas como vamos ver, com uma moral, com uma intenção, com propósito edificante. Aparece depois um tal Aquisor, uma espécie de líder de uma facção na corte destes babilónios

Um tal Aquis, que é líder dos amonitas, que diz que este povo, estes tais israelitas, faz um resumo da sua história, que vieram da Mesopotâmia. No fundo, vai buscar o background do que vemos nos patriarcas, que vêm da Mesopotâmia para a terra de Canaã, depois vão para o Egito, depois libertam-se e entram nesta terra prometida. E este Aquis vem dizer: "Atenção, porque de acordo também com a sua história, do que já lhes aconteceu, quando eles são fiéis a Deus, Deus está com ele e, portanto, atenção, não podem ser vencidos se não tiverem a pecar". Só se eles tiverem a desviar-se do caminho certo é que o deus deles os há de castigar, como já fez noutras ocasiões do passado. Portanto, esta chamada de atenção de Aquis dá em filigrana esta ideia que perpassa todo o livro: a fidelidade a Deus é recompensada com a vitória, com a sobrevivência, a infidelidade é a causa das desgraças.

Mas o Holofernes não leva a bem essa história.

O Holofernes não acha muita piada e recambia este Aquis. Enfim, leva esta mal e depois penso que o expulsa. E acaba por ter Betúlia, esta cidade, e é lá acolhido.

No fundo, a mensagem do Holofernes é: se acreditas assim tanto que eles te vão safar, vai lá ter com eles.

Se acreditas tanto, então vai lá ter com eles, que é o que eu faço. E aliás, no final da história acaba por se converter ao judaísmo, depois do happy ending. Sem querer fazer spoilers, mas acho que a história acaba bem, acho que é mais ou menos óbvio.

João, o quadro em que a história vai estar ou em que vamos encontrar a história quando Judite entra em cena é a tal cidade de Betúlia. Está cercada há mais de um mês, não tem água, não tem alimentos e os israelitas estão ali, de certa maneira, desesperados, revoltam-se contra o chefe da cidade, que é o Uzias, e dizem-lhe que mais valia que eles entrassem e nos escravizassem, porque ao menos estávamos vivos e tínhamos comida. Mas o chefe pede-lhes um pouco mais de paciência.

Sim, pede-lhes cinco dias, é quase um ultimato que ele dirige a Deus, a ver se nestes cinco dias isto se resolve e se nestes cinco dias nós não vencermos, eu vou entregar a cidade. E é aí que Judite, que é uma viúva rica, independente, de certa maneira ascética e profundamente observante, se revolta, manda chamar Uzias, o que não deixa de ser uma inversão social interessante. Uma mulher, que já vimos que na época não era o contexto mais valorizado, que chama o chefe da cidade e que lhe dá uma tremenda descasca e diz-lhe que ele não tem poder nenhum. Não é ninguém para ameaçar Deus, nem estar a condicioná-lo. E ela diz que nesses cinco dias, por ela própria, vai salvar a cidade. E é nesses cinco dias que ela vai desenrolar um plano para vencer o exército, que é um plano que pode nos parecer cambolesco, mas que vamos falar certamente na segunda parte.

É isso, vamos então voltar para a segunda parte das histórias da Bíblia, para conhecer o plano que Judite vai pôr em prática para derrotar este exército de Holofernes. Vamos tentar perceber também quem é que ela era, quem é que era esta personagem, esta mulher que salvou o povo de uma derrota que parecia inevitável. É já a seguir a um curto intervalo que voltamos para a segunda parte das histórias da Bíblia. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre Judite. Daniel, vamos então aqui recapitular. O povo de Israel, concretamente daquela cidade de Betúlia, uma cidade que já vimos que pode ou não ter existido, está em pânico, está em desespero, prestes a desistir. O chefe da cidade pede-lhes ainda um pouco mais de paciência, mais uns cinco dias para ver se Deus se coloca do lado deles. E é como o João dizia agora no final da primeira parte, é nesta altura que o texto introduz essa nova personagem, que é Judite. Explica-nos quem é esta personagem, quem é esta figura.

Em primeiro lugar, sublinhar isto que o João já referiu, é interessante que só é introduzida nesta altura, no capítulo oitavo, depois de sete capítulos, com contexto histórico, pseudohistórico, como já vimos. Há um certo delay, um certo criar suspense aqui até aparecer esta personagem fundamental, que aqui nos aparece introduzida, em primeiro lugar, com uma genealogia, a contar a sua história, descrevendo-a como uma viúva rica, bela, inteligente, piedosa e, portanto, é uma personagem, de certa forma, ideal e que aqui vai aparecer também a expressar a sua piedade contra esta espécie de chantagem a Deus, que seria dizer a Deus que em cinco dias tinha que resolver a situação.

Estavas a mencionar no início do episódio que o próprio nome dela é fundamental, ou seja, ela mais do que uma personagem individual aqui, se calhar, é uma figura.

De certa forma, é uma personagem corporativa. Judite ou Yehudit, em hebraico.

Exato.

E sim, representa aqui o povo E então vem dizer que Deus não deve ser tentado. Devemos ter confiança em Deus e que nada de pôr Deus à prova, agora querer que ele necessariamente aja. Ou seja, se Deus agir ou não agir conforme este prazo que demos, isso não diz nada sobre quem é Deus ou sobre a sua vontade de estar com o povo ou não. E vem com este plano em que ela, piedosa, orante, e há aqui vários momentos de oração, ao que depois disto temos vários parágrafos de Judite a rezar, oferece-se como uma solução.

Mas curiosamente ela chama os anciãos, os chefes da cidade, e diz-lhes que nesses tais cinco dias, ela diz: "Ok, estão a pedir cinco dias às pessoas, mas nesses mesmos cinco dias eu consigo resolver esta situação".

Exatamente. E vai resolver o problema. Na nossa visão, se calhar um bocadinho mais piedosa, aquilo que Judite faz é pouco piedoso. No sentido em que seria piedoso dizer: "Olha, nestes cinco dias vamos confiar em Deus. Se correr bem, correu, se não correr bem, não correu".

Vamos todos.

Vamos todos. E aliás, tinha um problema que era: se Betúlia caísse, Jerusalém cairia a seguir, porque era uma cidade próxima. Claro, mas ela elabora aqui um estratagema que no fundo vai entrar pelo outro campo e vai seduzir o inimigo. E no fundo corresponde também a uma ação de resistência e de luta. Esta ideia da luta, portanto, não apenas no confiar na providência de Deus, mas no lutar contra o inimigo, é também uma ideia importante nesta obra.

Sim, ou seja, tu se queres confiar em Deus, és piedoso, não ficas só à espera. Não, também resistes, fazes alguma coisa.

Pegas em armas e neste caso a arma de Judite é outra.

João, conta-nos o plano, este plano que no fundo acaba por ser o centro do livro de Judite, que é este plano ardiloso que ela põe em prática para tentar salvar.

Tenho aqui alguns pontos para percebermos bem como é que Judite consegue enganar tudo e todos, na verdade. Depois de uma longa oração, Judite abandona as suas vestes próprias de viúva e veste roupas festivas, usadas na época do marido, diríamos nós hoje em dia, que se produz, tal como os soldados. Às vezes no texto dá esta sensação, tal como os soldados vestem espadas, capacetes, outro tipo de escudos, etc. Judite usa perfume, roupa, joias. E é curioso que quando a cidade tem escassez de água, ela banha-se para se preparar neste momento. Judite, antes de levar claramente o seu plano por diante, efetivamente, ela leva consigo um saco, que vai ser muito importante, à frente, porque não quer comer comida assíria. E, portanto, leva um saco, pede para lhe ser preparado uma espécie de saco, onde ela leva alimentos para não se contaminar com os alimentos assírios. Ora então, ela sai, os soldados inimigos encontram-na e ela afirma fugir do seu povo porque percebe que está condenada. E, portanto, ela não concorda com o que está a acontecer e oferece-se para mostrar a Holofernes uma forma de derrotar o povo de Betúlia. Mas como já tinha sido mais ou menos insinuado a estes inimigos, Judite avisa que Betúlia só cairá quando pecar contra Deus e que isso está quase a acontecer, porque eles estão quase a comer carnes proibidas e que ela se oferece para, no exato momento em que eles cometerem esse pecado, avisar Holofernes e os seus soldados para dizimarem a cidade.

Porque aí Deus já não estará.

Já não estará com eles e, portanto, a cidade cairá. Acontece que Judite começa a criar uma espécie de rotina. Sai do acampamento à noite para rezar e leva sempre consigo o saco da comida para se alimentar. Na quarta noite, Judite aceita um convite de Holofernes que, mais uma vez, como nós já vimos em várias histórias, em José, em Daniel, quer dormir com a protagonista da história. Prepara um banquete, só que Holofernes embriaga-se, fica indefeso diante de Judite e Judite retira. Aliás, tem mais um acrescento que é: os criados, porque querem deixar o seu senhor à vontade para o encontro sexual com Judite, deixam também tudo, fecham a tenda, deixam-nos a sós e Judite, como vê Holofernes indefeso e com uma espada, tira a espada e retira a cabeça de Holofernes, tal como David.

"Retira a cabeça de Holofernes" é um eufemismo interessante. É algo que até ficou muito marcado na história da arte. Imensas pinturas de Judite a cortar a cabeça de Holofernes.

A retirar a cabeça de Holofernes. De certa maneira, o instrumento da dominação vira-se contra o dominador, mais uma vez, que esta é esta espécie de inversão da realidade. E como é que Judite se consegue safar e ninguém se apercebe que Holofernes morreu? Porque ela reproduz a rotina habitual e leva dentro do saco

A cabeça de Holofernes e as pessoas não se apercebem porque acham que ela leva a comida.

Porque ela tinha criado essa ideia de que todas as noites saía para ir rezar e tentar perceber se os judeus já tinham ou não pecado. E nessa noite, em vez de sair com os alimentos, sai com a cabeça.

Com a cabeça do Holofernes. E entretanto, era a quarta noite e chega-se ao quinto dia e a Judite acabou por resolver o problema da situação e chega a Betúlia com a cabeça do Holofernes num saco.

Quando Judite chega à cidade com a cabeça do inimigo, Daniel, a história começa, de certa maneira, a precipitar-se pro final.

Sim, rapidamente. Ou seja, o general inimigo está vencido, o povo motiva-se a atacar, atacam, os inimigos quando finalmente descobrem que o seu general, que o seu líder já está morto na tenda com a cabeça retirada, esmorecem e acabam por ser derrotados. E depois o livro termina com esta grande comemoração, com esta grande festa, porque com a ajuda de Judite, elevada a heroína, vão celebrar esta vitória. E isso é interessante, pensarmos que num tempo tão marcial, tão militar e tão preocupado em exaltar a força. Basta olharmos pra literatura judaica desta altura, os livros dos Macabeus, em que se exalta, de certa forma, a masculinidade, a resistência, o combate, é uma mulher e não um homem, que não pela força, mas pela sedução, um certo ardil, acaba por vencer a força. Portanto, de certa forma, o fraco, o feminino, vence o forte, o militar. Ou seja, de alguma forma, invertem-se aqui os padrões daquilo que seria esperado, até dum ponto de vista judaico. Por quê? Qual é o valor que é aqui exaltado? É este do patriotismo. Judite é um livro fundamental deste patriotismo, nacionalismo judaico. Esta ideia de que a identidade judaica representada nesta Judite, que de certa forma corporiza o povo. E também é desta forma que a tradição cristã vai ver Judite também como uma espécie de figura que corporiza o povo e até em ligações com a Virgem Maria, é depois explorada esta ligação, que vai vencer o inimigo. É esse o valor fundamental.

Tal como seria pouco expectável que uma mulher sozinha, de certa maneira até indefesa, conseguisse derrotar um grande general, isso também é uma tradução daquilo que era a expectativa do povo judeu, que era relativamente pequeno, uma pequena comunidade ali perante os assírios, que era um grande império, e que portanto, se calhar, mais do que pela força bruta, precisavam da inteligência para derrotar.

E da fidelidade aos mandamentos de Deus e às leis de Deus. Há quem veja aqui também, neste livro, que é tardio, já estamos quase no virar da nossa era, há quem veja também aqui uma espécie de alegoria, porque há aqui um acontecimento histórico, há aqui uma rainha da dinastia Hasmoneia, depois do tempo dos Macabeus, imediatamente antes dos romanos dominarem ali o que é Israel, há uma dinastia na sequência dos Macabeus, chamada dinastia Hasmoneia, e dada altura há uma mulher, Salomé Alexandra, que reina. Há aqui quem veja Judite correspondendo a esta Salomé, esta rainha Salomé Alexandra, e Nabucodonosor como o rei da Arménia, o Tigranes II, que também ameaça Israel, que também é mais poderoso, também tem um grande exército e acaba por ser vencido graças também à astúcia da Salomé Alexandra. Ou Shlomtzion Hamalka, se gostas mais em hebraico.

Sim, Salomé Alexandra é magnífico. Mais do que apenas uma derrota ali pura e dura, o exército assírio, percebendo-se sem líder, também começa a tentar fugir, mas entretanto já não é só Betúlia, mas sim todas as outras cidades israelitas que começam a perseguir aquele exército por todo lado, portanto acabam por ser totalmente esmagados.

Sim, há um efeito dominó aqui em Judite e também noutros livros. Às vezes acentua-se este fantástico de que basta derrotar um que os outros vão todos atrás.

Mas depois há aqui ainda um dado, não sei como é que o lês, mas ainda é dito no texto que depois os habitantes de Betúlia vão saquear o acampamento dos assírios que estava às portas da cidade. Não sei como é que isso não é depois falta de fair play.

Este nacionalismo exacerbado leva também a isso, que é um elemento que já vimos também no livro de Ester, que já discutimos aqui noutra altura. A rainha Ester providencia não só a salvação deste complô que levaria à eliminação do povo, mas depois também há uma retribuição

Claro. Isto é visto como uma prova de força e de vitalidade de Israel.

Quando chegamos ao final do livro, Judite, como dizia, é elevada a uma grande heroína celebrada por todo o povo. O texto ainda continua um pouco depois da vitória, ainda nos diz, por exemplo, que Judite viveu uma vida pacífica até aos 105 anos. Durante esse tempo Israel já não voltou a ser ameaçado.

Eu até referi isto, há depois certos títulos em invocações marianas, há um cântico mariano, "tu és a honra do nosso povo", que às vezes canta em Fátima, que se vai buscar a Judite, porque depois a piedade cristã vai buscar figuras veterotestamentárias de mulheres do Antigo Testamento e às vezes do povo como um todo do Antigo Testamento, como uma espécie de prefiguração da figura de Maria.

Acabamos por perceber que o tal Aquisor tinha razão.

Tinha razão. E tanto tinha razão que acaba por se converter e integrar o povo de Israel.

Quer Aquisor, naquele discurso que faz perante Holofernes, quer a própria Judite, defendiam que enquanto Israel fosse fiel a Deus, Deus não lhe falharia. Enfim, João, o Daniel estava a tocar justamente nesse ponto, relativamente ao modo como o texto se relaciona com o futuro. Este livro não é particularmente considerado, por exemplo, no cânone judaico, também não é pelos protestantes, o Daniel explicou no início. É incluído na Bíblia Católica, embora não seja um texto assim tão comum, por exemplo, de ouvir na liturgia ao longo do ano. Mas que importância é que este texto e, sobretudo, esta personagem tiveram na história do cristianismo?

E este facto do livro não estar presente nas escrituras hebraicas e na Tanak. Posteriormente não é possível, relativamente àquilo que eu vou dizer, mas nas escrituras judaicas, por exemplo, Orígenes, que era um padre da igreja, um dos filósofos, daqueles pensadores teólogos dos primeiros séculos, referia precisamente que conhecia o texto, mas sabia que os judeus não os inseriam nas suas escrituras.

Sim, um dos motivos, talvez, depois quando se fixou o cânone judaico, talvez tenha sido também a própria questão da língua, porque o original que temos é em grego. Quase com toda a certeza, a opinião maioritária é que foi originariamente escrito em hebraico ou aramaico, mas essa versão não sobreviveu e o que sobreviveu foi uma versão grega. A mesma coisa no primeiro dos Macabeus.

O próprio São Jerónimo, numa carta, refere que traduziu do aramaico, não palavra a palavra, mas pelo sentido, mas só que essa versão perdeu-se. Aquilo que nós sabemos é que logo no início, nestes primeiros teólogos, filósofos, pensadores cristãos, os padres da Igreja, existem referências disto. O próprio Clemente Romano, que faz parte do grupo inicial de pensadores cristãos, com Inácio de Antioquia, tem aquele texto muito conhecido que é a carta a Diagoneto. Estes primeiros autores, logo na sua carta aos coríntios, fala de Ester e de Judite como imagens de mulheres que vencem aqueles que têm uma pretensa coragem, muito embora Clemente Romano às vezes diga que ela está sempre a obedecer à ordem masculina, aquilo que lendo o texto me parece evidente. Ele dá sempre a entender que ela age debaixo de uma espécie de permissão masculina. Não deixa de ser verdade, porque eles deixam-na fazer o que ela quer, mas ela também tem um lado de se insurgir contra aquela própria ordem. Clemente de Alexandria fará o mesmo, acrescentando Ester, Míriam e Susana como mulheres que de certa maneira são um símbolo da virtude. Isso levará que a exegese medieval, mais que a exegese da Idade Antiga, da antiguidade clássica, mas a exegese medieval fale de Judite como a prefiguração de Maria. Portanto, uma mulher aparentemente frágil derrota um inimigo poderoso, uma mulher casta vence a luxúria e a desregação moral do Holofernes. É o caso, por exemplo, dele se embriagar na noite em que quer ter sexo com Judite. A humildade vence o orgulho. E de tal maneira como Judite esmaga Holofernes, também Maria esmaga a cabeça da serpente ou do dragão, com a ajuda também da leitura do Apocalipse, que ajuda um pouco neste contexto. Mas a nível da história, até da recepção da arte, é curioso que em determinados momentos da história, a figura de Judite foi utilizada como um ícone daquilo que se tinha conhecido. A Florença renascentista, pela mão de Botticelli e Donatello, várias vezes usou a figura de Judite para representar uma pequena república, como então era Florença, que tinha vencido um conjunto de grandes repúblicas. E mesmo Veneza vai utilizar a figura de Judite no mesmo sentido. Vivaldi vai aliás compor uma obra chamada "Judite Triunfante", que quer celebrar precisamente a vitória da República de Veneza contra os otomanos. E portanto, a figura de Judite também tem esta capacidade de arregimentar o imaginário e de o fundar. E o quadro de Caravaggio, que é famosíssimo, convido os nossos ouvintes a procurarem e verem a sua expressividade.

O melhor artista da história, Caravaggio.

Muito bem, fica por aqui o quinto episódio desta terceira temporada de As Histórias da Bíblia. No próximo episódio, vamos conhecer duas figuras centrais da época em que o povo de Israel voltou a Jerusalém depois do exílio. Falo de Esdras e Neemias. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós procuramos responder às perguntas dos nossos ouvintes nos episódios especiais de quinta-feira. Nós voltamos no próximo domingo. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Bastos. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

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