Mais de 128 alunos acima de 900 na redação do Enem: o que uma escola de Brasília faz diferente
Mais de 128 alunos do Leonardo da Vinci, escola particular de Brasília, tiraram nota acima de 900 na redação do Enem, segundo a escola. Neste ano, mais de 20% das notas máximas na redação do PAS, o vestibular seriado da UnB, também saíram de lá.
Fundada em 1969 como um cursinho numa sala pequena, nove anos depois da inauguração da capital, a escola tem hoje quase 5 mil alunos em três unidades, na Asa Sul, na Asa Norte e em Taguatinga.
Nos processos seletivos de 2026, somou 585 aprovações em universidades, 508 delas em instituições públicas, com 28 primeiros lugares.
Lápis e caderno desde o 1º ano
A redação é o resultado que a escola mais destaca. “O aluno, desde os primeiros anos, é muito incentivado a ler e a escrever bem”, diz Michelle Manzur, diretora executiva e filha do fundador. Segundo levantamento da escola, o Leonardo da Vinci concentra cinco vezes mais estudantes com nota acima de 900 na redação do Enem do que a média das escolas brasileiras.
O cuidado com o texto ganhou reforço depois da pandemia. Segundo a diretora, havia alunos que chegavam sem lápis e sem caderno, envolvidos demais com telas. A escola fez um “detox” de equipamentos e voltou a cobrar o caderno e o registro escrito. Para Michelle, escrever à mão muda a forma como o cérebro processa a informação. Hoje, a lei que proíbe o celular nas escolas reforça essa linha.
No PAS, o resultado aparece etapa por etapa. Na primeira, os alunos do Leonardo da Vinci ficaram com 3 das 11 notas máximas de redação. Na segunda, com 2 de 13. Na terceira, com 6 de 22.
Professor, faxineiro e carregador de carteiras
O fundador, Jorge Manzur, cursava engenharia civil quando se juntou a dois ou três amigos para dar aulas de cursinho e supletivo. Cada um assumia uma matéria, e todos faziam o resto: limpavam a sala, carregavam material, arrumavam as carteiras. As aulas iam até tarde.
O cursinho cresceu e, em 1975, ganhou a primeira sede, num prédio maior. Depois veio o ensino médio e uma segunda unidade, na Asa Norte. Só então a escola passou a oferecer o ensino fundamental. “A escola nasceu de cima para baixo”, diz Michelle. Em 2003, abriu a terceira unidade, em Taguatinga, e passou a atender do 1º ano do fundamental ao fim do ensino médio.
A chegada das crianças mudou a escola. Uma instituição com DNA de vestibular precisou aprender a ensinar, e não só a aprovar. Hoje a escola se apoia em quatro pilares: formação acadêmica, formação socioemocional, acolhimento e cidadania global. “Não adianta esse aluno estar preparado para tudo em termos acadêmicos se ele não estiver bem emocionalmente”, diz a diretora.
Uma escola de família com conselho de empresa
A segunda unidade obrigou os sócios a profissionalizar a gestão. Para garantir a mesma qualidade nos dois endereços, a escola criou um programa próprio, o Qualivinci, com processos mapeados, reuniões de alinhamento e avaliação de desempenho dos funcionários.
Com a terceira unidade, entrou a Fundação Dom Cabral, por meio de um programa de excelência para gestores. A escola passou a acompanhar indicadores de desempenho, financeiros e de absenteísmo, como qualquer empresa monitorada de perto.
O passo seguinte veio em 2018. Com os sócios ainda ativos e com saúde, a escola contratou uma consultora externa para desenhar um modelo de governança corporativa e de sucessão. Foi nesse processo que Michelle, que chegou à escola em 2014, se tornou diretora executiva. A estrutura inclui comitê de estratégia, comitê de sucessão e governança, um conselho consultivo com membros externos e um fórum de diretoria em que as principais decisões são discutidas.
O pai segue na escola, assim como o professor Dalvo Cardoso, um dos primeiros professores, que se tornou sócio. Para a diretora, ser uma escola familiar pesa num mercado em que muitos colégios passaram a pertencer a grupos de investimento e correm o risco, segundo ela, de virar mais negócio do que projeto educacional.
Os professores de matemática das três unidades na mesma mesa
A padronização entre as unidades depende de reuniões que acontecem fora do horário de aula, num investimento que a diretora descreve como alto. Os professores de cada disciplina se encontram para planejar juntos as aulas e as avaliações das três unidades. As coordenações pedagógicas se reúnem mais de uma vez por semana.
Ao fim de cada bimestre ou trimestre, a equipe pedagógica e a direção analisam gráficos de desempenho dos alunos para localizar os pontos fracos, seja no conteúdo, seja na qualidade das aulas ou no trabalho de um professor específico.
“Não adianta botar robô andando pela escola”
A escola mantém também um comitê de inovação. Fazem parte dele membros da direção, uma especialista em inovação da equipe e ex-alunos que hoje têm uma startup da área. “Somos uma escola de 57 anos, mas não podemos ser uma escola obsoleta”, diz Michelle.
A regra do comitê é que a novidade precisa melhorar o aprendizado. “Não adianta a gente botar um monte de robô andando pela escola se o robô não vai fazer o aluno aprender mais e melhor”, diz a diretora.
Na prática, o comitê funciona como um apoio aos professores. O professor leva um conteúdo que os alunos têm dificuldade de entender, como fuso horário, e o grupo propõe outra forma de ensinar, às vezes com sucata, às vezes com tecnologia. Para as aulas de filosofia, o comitê criou um jogo de tabuleiro com os principais filósofos. Para o 9º ano, ajudou a montar uma competição de conhecimento nos recreios, com provas e desafios por QR code.
O comitê também organiza um calendário de cursos rápidos sobre ferramentas de inteligência artificial e certificações em ferramentas do Google, abertos a professores e funcionários.
A IA que encontra as lacunas de cada aluno
Enquanto tirava as telas da sala, a escola abria espaço para a inteligência artificial, sobretudo nos bastidores. Os professores usam a tecnologia para preparar aulas e analisar resultados de provas e simulados. Os alunos usam plataformas adaptativas, que mostram rapidamente onde estão as fragilidades de cada um e permitem retomar conteúdos.
Ensinar a usar a ferramenta, para Michelle, não é a prioridade. “Os alunos sabem mais do que a gente. Não faz tanto sentido ensinar o uso da ferramenta, porque nisso eles já estão voando longe”, diz. O trabalho da escola, segundo ela, é ensinar a buscar informação da forma correta e a usá-la com responsabilidade. A diretora admite que o processo ainda está em andamento.
De medicina a design: 104 cursos diferentes
A herança de cursinho aparece nos números. Nos processos seletivos de 2026, a escola somou 383 aprovações na UnB, 86 em medicina e 149 em engenharias. Além dos 28 primeiros lugares em públicas, foram 49 aprovações entre os três primeiros colocados, segundo levantamento da escola. Seis ex-alunos foram aprovados em universidades de Portugal, dos Estados Unidos e da Itália.
Segundo a escola, os aprovados de 2026 ficaram com metade das vagas de Ciência da Computação, Jornalismo e Odontologia na UnB, 60% das de Arquitetura e Urbanismo e 70% das de Design. No total, os alunos passaram em 104 cursos de mais de 70 universidades, uma diversidade que a diretora apresenta como prova de que a escola não empurra todos para o mesmo destino. A escola também afirma ter sido, entre as particulares do Distrito Federal, a que mais cresceu no Enem entre as edições de 2024 e 2025.
Cinquenta e sete anos depois da salinha de cursinho, a escola aposta que a nota da redação começa a ser escrita no caderno do 1º ano.
Quando o Leonardo da Vinci foi fundado?
Em 1969, em Brasília, como um cursinho criado por jovens professores, entre eles o fundador, Jorge Manzur. A primeira sede veio em 1975.
Quantas unidades e alunos o Leonardo da Vinci tem?
Três unidades, na Asa Sul, na Asa Norte e em Taguatinga, com quase 5 mil alunos e cerca de 500 funcionários.
Quem dirige o Leonardo da Vinci?
Michelle Manzur, filha do fundador, é diretora executiva desde o processo de governança e sucessão iniciado em 2018.
Quantas aprovações o Leonardo da Vinci teve em 2026?
Segundo a escola, 585 aprovações em universidades, 508 em instituições públicas, incluindo 383 na UnB e 86 em medicina.
Como o Leonardo da Vinci se sai na redação?
Segundo a escola, mais de 128 alunos tiraram nota acima de 900 na redação do Enem, e mais de 20% das notas máximas na redação do PAS/UnB deste ano foram de alunos do Leonardo da Vinci. A escola incentiva leitura e escrita desde os primeiros anos e voltou a cobrar o registro em caderno depois da pandemia.
Como o Leonardo da Vinci usa a inteligência artificial?
Principalmente na formação de professores, na análise de resultados de provas e simulados e em plataformas adaptativas que identificam lacunas de aprendizagem dos alunos.
O que faz o comitê de inovação da escola?
Formado por diretores, uma especialista em inovação e ex-alunos com uma startup, o comitê ajuda professores a criar aulas diferentes, como um jogo de tabuleiro sobre filósofos, e organiza cursos sobre ferramentas de IA.
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