Desmatamento na Amazônia atinge menor nível da série histórica em 2025, aponta MapBiomas

➡️O relatório divulgado pela organização reúne mapas anuais da cobertura e do uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025.
Do total desmatado no ano passado, 639 mil hectares (92%) correspondiam a vegetação primária (vegetação nativa), enquanto 54 mil hectares eram de vegetação secundária (que já sofreu alguma modificação por conta da ação humana).
Bruno Ferreira, pesquisador do Imazon e do MapBiomas, afirma que os dados mostram que 2025 foi o ano em que foi registrada a menor área de destruição de vegetação nativa de toda a série histórica, considerando formações florestais, campos e savanas, além da vegetação secundária.
"A redução observada nos últimos anos ocorre em um contexto de retomada e fortalecimento das políticas de prevenção e controle, com ações de fiscalização, monitoramento por satélite e ordenamento territorial", analisa o pesquisador, em entrevista ao g1.
Ainda que a coincidência não permita atribuir a redução a uma única medida, Ferreira defende que ela reforça a importância de considerar o papel das políticas públicas na análise das tendências do desmatamento.
Apesar do menor índice anual da série, a análise aponta que o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025.
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No mesmo período, a área destinada à agropecuária cresceu 440%, e a área acumulada de conversão da vegetação para usos humanos aumentou 492%, chegando a 74,6 milhões de hectares. (veja mais detalhes abaixo)
Segundo os especialistas do MapBiomas, o avanço das atividades agropecuárias é especialmente expressivo nas áreas próximas às estradas e aos limites de territórios protegidos.
Nos territórios localizados a até cinco quilômetros das vias identificadas pelo levantamento, a agropecuária ocupa 40,2% da área, o equivalente a 63 milhões de hectares.
A participação da atividade diminui conforme aumenta a distância das estradas. Em um raio de 20 quilômetros, a agropecuária representa 26,7% da área.
Já a vegetação nativa corresponde a 56,7% do território localizado a até cinco quilômetros das vias e a 69,3% quando considerado o raio de 20 quilômetros.
👉O levantamento cruzou os mapas anuais do MapBiomas com bases de estradas do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do OpenStreetMap. Foram consideradas vias identificadas nessas bases, inclusive aquelas que não fazem parte da malha rodoviária oficial.
"A expansão das estradas não representa apenas a abertura de novos caminhos de circulação. Ela também amplia o acesso a áreas antes mais isoladas e pode facilitar a chegada de diferentes atividades e formas de ocupação do território", explica Bruno Ferreira.
Segundo ele, a abertura de ramais e acessos secundários pode conectar fronteiras de desmatamento, exploração de madeira e ocupação irregular em áreas extensas de vegetação nativa e territórios protegidos.
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Crescimento da agropecuária
Em 2025, a agropecuária ocupava 65,3 milhões de hectares na Amazônia, o equivalente a 15,5% do bioma. A maior parte dessa área era destinada a pastagens, que somavam 50,8 milhões de hectares, ou 12% do território. A agricultura ocupava outros 8,6 milhões de hectares, cerca de 2% do bioma.
Entre 1985 e 2025, a área de pastagem cresceu 556%. A atividade também foi o principal uso identificado após o desmatamento: em média, 77% dos casos tiveram a pastagem como primeiro uso registrado depois da perda da vegetação nativa.
Ao final da série histórica, em 2025, 37,7 milhões de hectares desmatados haviam se consolidado como áreas de pastagem.
A agricultura também avançou. Em 1985, ocupava 161 mil hectares na Amazônia. Quarenta anos depois, a área chegou a 8,6 milhões de hectares.
A expansão da mineração também foi registrada pelo levantamento. Em 1985, a atividade ocupava 32 mil hectares na Amazônia. Em 2025, a área chegou a 440 mil hectares, quase 14 vezes o valor do início da série. Do total acumulado, 47% foi aberto nos últimos dez anos.
Áreas protegidas mantêm 98% de vegetação nativa
O levantamento tamém mostrou que, dentro das áreas protegidas – que incluem territórios indígenas, unidades de conservação e terras quilombolas –, a vegetação nativa representa 98% da cobertura.
O dado contrasta com a pressão registrada no entorno desses territórios, onde a agropecuária cresceu 561% desde 1985 e ocupa 31% da faixa analisada.
"As áreas protegidas desempenham um papel fundamental na conservação do bioma, funcionando como uma espécie de barreira à transformação da paisagem e mantendo grandes extensões de vegetação nativa", afirma Ives Brandão, da equipe da Amazônia do MapBiomas.
Segundo o pesquisador, a aproximação de estradas, atividades econômicas e novas formas de ocupação aumenta a pressão sobre essas áreas. Ele destaca a importância de políticas e condições que fortaleçam a conservação dos territórios protegidos.
O levantamento também mostra diferenças entre categorias de território. Em 2025, as Terras Indígenas mantinham 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa. Nos imóveis rurais, a agropecuária ocupava 38,8% da área.
Já nas terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, a vegetação nativa correspondia a 76,4%, e a agropecuária, a 21,5%.
Perda de vegetação varia entre regiões e estados
Os mapas do MapBiomas também revelam que as mudanças na cobertura da Amazônia ocorreram de maneira desigual ao longo do bioma.
Na região que reúne municípios do Amazonas, Acre e Rondônia, por exemplo, a vegetação nativa diminuiu cerca de 7 milhões de hectares desde 1985, uma redução de 16%.
Embora ocupe 11% do bioma, a região respondeu por 13% de toda a perda de vegetação nativa registrada na Amazônia no período.
A maior perda ocorreu na última década, quando 2,7 milhões de hectares foram desmatados entre 2015 e 2025. Desde 1985, a área de pastagem na região ficou cerca de 15 vezes maior, com acréscimo de 6,6 milhões de hectares.
A proporção de vegetação nativa também varia entre os estados, considerando apenas a parcela de cada um que está dentro do bioma. Em 2025, o Amapá tinha a maior proporção, com 95,5%, seguido por Amazonas (94,6%), Roraima (92,3%) e Acre (84,2%).
Na outra ponta, Tocantins tinha 24,6% de vegetação nativa na área inserida na Amazônia. Depois do estado, as menores proporções eram as do Maranhão (49,8%), de Rondônia (59,1%) e de Mato Grosso (61,7%).
Nas principais rodovias da região, a proporção de área ocupada pela agropecuária também varia. No raio de 20 quilômetros da BR-163, a atividade representa 39% da área. Na BR-364, o percentual chega a 43,5%. Já no mesmo raio da BR-319, a vegetação nativa corresponde a 86% do território.
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