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Monday, September 14, 2026

A infantilização da mente moderna

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A infantilização da mente moderna foi o título escolhido pela editora Guerra & Paz para a tradução de The coddling of the American Mind, um livro escrito pelo jurista Greg Lukianoff e pelo psicólogo Jonathan Haidt e publicado em 2018. A palavra “coddling” remete para o ato de apaparicar ou dar mimo e é isso que os autores defendem que tem vindo a acontecer na sociedade norte-americana nas últimas décadas com a criação de um clima de superproteção de crianças e adolescentes – com efeitos claramente nocivos.

Em resultado desse “coddling”, os jovens norte-americanos têm chegado às universidades não como jovens adultos que procuram desafios intelectuais e uma transição para a vida adulta, mas como adolescentes tardios ou jovens infantilizados que se revelam incapazes de tomar decisões, resolver conflitos e aprender a mais importante ferramenta de sobrevivência: ignorar o que não é realmente importante.

A parte emocional ocupa um lugar central nesta avaliação: estes jovens – por muitas razões, entre elas o uso obsessivo dos telemóveis-espertos – chegam às universidades com vários diagnósticos, muitas ansiedades e cheios de insegurança. E, na última década, as universidades norte-americanas têm tentado lidar com o problema recorrendo à solução errada: reafirmando os diagnósticos, as ansiedades e as inseguranças em vez de tratar os jovens adultos como jovens adultos. O que importa é organizar atividades de receção, suprir todas as necessidades materiais, garantir que os meninos se divertem, reafirmar identidades, estabelecer “trigger warnings” e, claro, criar “salas seguras”, onde os estudantes podem recuperar emocionalmente de microagressões e pequenos traumas.

A consequência é óbvia: quando chegam ao mercado de trabalho, estes recém-licenciados procuram nos locais de trabalho os mesmos reforços que receberam até então – o que tem conduzido a uma “kindergarterização” dos locais de trabalho (transformando-os numa espécie de jardins de infância). As empresas têm agora salas de convívio, com sofás, “playstations” e outras atividades de bem-estar, e zonas de alimentação, com comida de conforto, donuts e gomas. E como as condições de trabalho modernas são realmente exigentes, as empresas multiplicam ações de formação – que utilizem, de preferência, materiais didáticos como legos, plasticina ou pequenos jogos – com o objetivo de criar “dinâmicas de grupo” e “confiança interpessoal”. Como não podia deixar de ser, estas estratégias modernas conduzem, na verdade, a uma infantilização da mente moderna.

Em Portugal, temos vindo a fazer o mesmo percurso. Também entre nós já encontramos empresas modernaças (aquelas das tecnologias) que acumulam salas de entretenimento e formações de “team building” (em inglês, pois claro). No entanto, e tal como notam Lukianoff e Haidt, o verdadeiro problema começa antes.

Se olharmos para os manuais escolares do secundário, é impossível não ficarmos chocados como, em pouco tempo, se tornaram numa imitação das redes sociais: muitas imagens, cores chamativas, grandes títulos – e, claro está, textos sempre curtos. Os miúdos parecem ter hoje uma capacidade de concentração semelhante à dos peixinhos vermelhos e a escola, ao invés de contrariar a tendência, alimenta-a. Vale a pena dizer que o Ministério da Educação se deveria focar nas reformas que o ensino realmente precisa em vez de perder tempo e dinheiro com a “digitalização de exames”? Precisamos de menos tecnologia na escola, não de mais.

E as universidades?

Se ainda pensa nas universidades como locais onde os professores se dedicam ao estudo e à investigação enquanto procuram partilhar aquilo que aprendem e pensam com jovens curiosos, perdoe-me desiludi-lo.

As universidades estão, por esta altura do ano, ocupadas em organizar atividades de receção para os novos estudantes. O objetivo, muito nobre, é o de que eles se sintam acolhidos e integrados. Afinal, são como crianças. Não podem sentir qualquer dificuldade, não podem andar perdidos no campus e descobrir sozinhos onde são as salas e os refeitórios e, os deuses nos livrem, se tiverem de falar com pessoas desconhecidas para pedir ajuda ou orientação – um dos atos potencialmente mais traumáticos dos nossos dias.

Mas em que medida é que esta infantilização dos jovens os ajudará a tornarem-se adultos e cidadãos responsáveis? E em que medida é que professores universitários poderão contribuir para o país se o seu tempo se consome, não em leitura e investigação, mas em atividades de acolhimento? Nunca gostei da praxe, mas pelo menos “na minha altura” eram estudantes que acolhiam os novos estudantes.

É verdade que a Universidade – como instituição social – dificilmente consegue deixar de refletir as mudanças mais gerais da sociedade. Mas não nos devemos render sem luta: não estamos a fazer bem aos estudantes, nem a beneficiar o país. Parecemos apenas baratas tontas.

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