Cenários

Já em Agosto de 2023 um prestigiado articulista dizia neste jornal o seguinte:
Onde está escrito que as linhas vermelhas que o bem-pensismo quer desenhar em torno do partido [O Chega] não possam ser desenhadas, em caso de qualquer acordo, em torno do isto e aquilo impalatável?
Governar é escolher e escolher é desagradar a alguns no imediato. Ou, se não for assim, desagradar à maioria a prazo. A segregação irracional do Chega deixa-o livre para acentuar a sua pulsão de cavalgar todo o descontentamento, resolver todo o imbróglio, ultrapassar toda a dificuldade a golpes de simplismo – e crescer.
Cresceu. Ou seja, a estratégia clubista para bloquear o penetra que queria entrar na festa falhou. Não adiantou nada que algumas pessoas, vissem ou não vissem o estilo do Chega com bons olhos, manifestassem a conveniência de, antes das eleições por coligação (que potencia ganhos eleitorais por causa de votos desperdiçados se em partidos separados), ou depois sob a forma de acordo de governo ou ao menos parlamentar, houvesse alguma forma permanente de entendimento.
Que pessoas foram essas? Poucas: raras do Chega, algumas do PSD de Passos (não confundir com o PSD de Rio, que é um partido diferente), algumas da IL e do que resta do CDS e um ou outro magistrado da opinião, como Rui Ramos, Alberto Gonçalves e alguns mais.
Poucas então, hoje bastante mais, mas ainda se podem enumerar as cabeças. Coisa curiosa, porém: Não é que já há na esquerda alguns espíritos mais atentos que percebem o que está em causa? Numa newsletter oriunda daquele lado do espectro, que assino porque tem boas resenhas de notícias, diz-se, a propósito da recente entrevista de Maria João Avilez a Passos Coelho:
Um Parlamento tripartido não é uma fatalidade: é uma oportunidade. O PSD falhou-a e falhou ao país. Não há volta a dar: em vez de arriscar em grande, Montenegro escolheu ficar quieto. Daqui resulta uma governação fraca, com um executivo frouxo e um Parlamento limitado a pontualidades e ziguezagues ideológicos, insuficiente para legislar com eficácia nas zonas de alta exposição como a habitação, a saúde, a educação e a adaptação climática. Um líder faz limonada quando o eleitorado lhe dá limões. Montenegro queixa-se do amargo enquanto espera que algum dos limões apodreça.
Descontada a necessidade da adaptação climática (que certamente o autor não refere, como seria lógico, para recomendar camisolas, guarda-chuvas, ar condicionado ou outros expedientes para tratar do conforto sem imaginações delirantes que antecipam calamidades), é uma boa análise.
É natural que no PS não falte quem entenda que um acordo pós-eleições com a AD, e isto quer ganhe um quer outro (e mesmo que ganhe o Chega), é imensamente desejável. E também não surpreende por aí além que já haja quem no PSD venha com ar grave defender acordos de incidência parlamentar para evitar a “extrema-direita”, que horror, e realizar aquelas reformas do estado em que o PS deixou o Estado e o país. Desde que haja diálogo, boa vontade, fortes sentimentos democráticos, paz sindical, abundância de corrupios no alto dos montes e lugares, tudo se arranja, até reformas às quais o Expresso e o Público cantem hossanas.
Sucede que Passos não deixa dúvidas sobre o que entende dever ser reformado (o como é objecto, sabe-se, de um estudo que está a ser feito, promovido pela Associação Comercial do Porto e que engloba várias pessoas e entidades, ainda que se ignore a extensão do seu contributo porque Passos divide a coordenação com Sérgio Sousa Pinto) nem ilusões sobre a veemência adversarial dos interesses feridos. E esse esforço não é nada que o PS possa acompanhar – os pilriteiros dão, como é tradicionalmente sabido, apenas pilritos.
Diz um amigo meu, referindo-se à situação actual e na sequência da acima referida entrevista de Passos, que uma coligação AD/Chega/IL afugentaria pelo menos 1/3 dos votantes do PSD e ¾ da IL.
Claro que se esse meu amigo (Telmo Azevedo Fernandes) tiver razão mal se entende como poderia a IL fazer parte de uma tal coligação porque o sentimento dos eleitores, a corresponder a este palpite, não será talvez muito distante do dos dirigentes; falar de coligação pré-eleitoral (a tal que deveria ter havido, mas não houve, nas últimas legislativas) não cola com a interpretação dos entendidos nestas fascinantes suputações porque o cabeça de lista social-democrata será Montenegro, que defenderá o absurdo cordão sanitário com o qual o PSD se vem enforcando; e o que Passos disse é, parece, para a hipótese de o PSD perder as eleições e ele se candidatar à substituição de Montenegro. Ora, Ventura já esclareceu que, ganhando e mesmo com alianças com o PSD, será ele o PM. Isto, é claro, imaginando-se que alguma vez o eleitorado de direita achará maioritariamente que Ventura tem a mesma auctoritas de Passos – não tem, pelo que que numa coligação pré-eleitoral o Chega será sempre o sócio júnior.
Sendo isto assim, não é um exercício completamente inútil (salvo na medida em que todos os raciocínios sobre cenários podem falhar e provavelmente falharão) tentar perceber se, tudo o mais igual, a tal defecção de parte do PSD e IL comprometeria uma maioria de direita. O exercício é complicado porque, não havendo um círculo nacional único e sendo a contagem segundo o método de Hondt, a quantidade de votos para eleger um deputado varia de distrito para distrito (por exemplo, nas últimas legislativas cada deputado da IL “custou” à volta de 37.000 votos, da AD 22.000 e do Chega quase 24.000).
O resultado das minhas contas sábias é que para uma maioria absoluta a IL é necessária – por pouco. De modo que seria desejável que as luminárias que pontificam naquele partido encasquetassem a ideia de que a pureza ideológica é às vezes inimiga da eficácia.
Temos portanto que coligações pré-eleitorais (a menos que Passos disputasse antes delas a liderança do PSD, mais que muito desejável iniciativa que nega e nada indica tomará), com o que neste momento sabemos, nem mo-lo digas.
E acordos parlamentares ou de governo, em caso de vitória do Chega e bota-fora de Montenegro no PSD? O eleitorado de Ventura não lhe consentiria que recusasse e Passos, no caso de apenas poder ser vice-pm, talvez não recusasse, desde que em torno de um programa que achasse suficientemente reformista – é a minha convicção, pela qual tenho naturalmente grande respeito. Ou nunca aceitaria (por razões aliás compreensíveis, sobre as quais não vou elaborar) e o que teríamos seria barafunda.
Há em tudo isto, para além de cenários e previsões que se podem fazer, mas onde quem as faz (como eu) confunde as suas inclinações (que podem ser erróneas porque o futuro só vai acontecer de uma maneira e há muitas de o imaginar) com probabilidades, uma incógnita sobre a qual nem o Diabo tem certezas: Ventura tem genuínas pulsões reformistas para além das anti-woke, justicialistas e para contentar indignados? A julgar pelas votações erráticas não. Mas pode bem ser que o homem de tácticas entenda muito (como se vê pelo percurso de sucesso eleitoral e pelas sondagens actuais) mas albergue mais do que apenas o objectivo estratégico de chegar a Primeiro-ministro. A dúvida é legítima. Já a irrefragável natureza do PS, consolidada com um enquistamento no aparelho de Estado, uma política geneticamente dirigista da economia e grande conforto com o situacionismo, não oferece quaisquer dúvidas.
E a extrema-esquerda, que forneceu duas das pernas do tripé da geringonça? Não entra para estas contas nem para nenhumas. Está nos acampamentos palestinianos, para já só nas praças em Lisboa e no Porto, à espera que de França venha a revolução.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.
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