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Friday, October 23, 2026

Agora temos um primeiro-ministro a viver na clandestinidade?

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. O teu bom é Aguiar Branco.

Sim, o presidente da Assembleia da República deu uma entrevista onde falou sobre a decisão de o Parlamento se ter constituído como assistente no processo judicial que está a investigar o alegado assalto ao gabinete de André Ventura. Segundo Aguiar Branco, existe uma urgência de haver um processo que termine o mais rapidamente possível. E tem toda a razão. Esta é uma das coisas mais graves que aconteceu no edifício do Parlamento e não pode simplesmente desaparecer sem que alguma coisa aconteça. Nós sabemos que por vezes os processos ficam atolados na Justiça, por isso é muito útil que a Assembleia da República tenha acesso a todos os passos para que possa ajudar a Justiça, com certeza, e também para que nos possa ir explicando o que se está a passar, porque alguém vai ter que ir falando e dizendo como é que a coisa está, porque o tempo está a passar.

Pois, e até agora ninguém fez esse papel devidamente.

Não, e já sabemos, claro, o Ministério Público não tem esse talento. Por isso é bom que haja lá alguém que nos vá dando notícias.

Estamos a esperar.

Miguel, o teu mau falou.

Pois falou. O presidente do IHRU, o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, falou ontem numa cerimónia pública. Benjamim Pereira comentou as manifestações pela habitação da seguinte forma, vou citá-lo: "Eu não sei se a sociedade atual está disponível pro nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram pra ter uma casa." E depois prosseguiu explicando que sacrifício é esse na cabeça dele. "Só estou a dizer que os meus avós emigraram pra o Brasil e pra Argentina pra poderem ter uma casa e o meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida.", fim de citação. Há vários problemas com estas declarações do presidente do IHRU. O primeiro é que ele não é pago pra dizer estas coisas. Ele não é político, não é ministro, não é secretário de Estado. Ele é apenas um alto funcionário que tem a missão de executar políticas públicas de habitação. Terá as suas opiniões, que poderá partilhar com a família, que poderá partilhar no café do bairro, mas em público, se calhar, menos, como diria uma manifestante na Praça Dom João I. O segundo problema é que isto não é assim. Aliás, um dos nossos problemas não é os jovens emigrarem pouco, é emigrarem demasiado. Números recentes do Observatório da Imigração diziam-nos que 30% dos jovens nascidos em Portugal vivem lá fora. O presidente do IHRU acha pouco, 30%? Atenção, é que nem estou a falar disto. O presidente do IHRU está a reconhecer que a única forma de comprar casa em Portugal é emigrando. A mensagem que ele está a dar é essa: querem casa? Emigrem, porque se ficarem cá dentro, meus meninos, vão ter uma vida desgraçada. Nunca, por mais que trabalhem, vão conseguir comprar uma casa. Enfim, uma desgraça.

Pois, não sei se isto ajuda a esconder, se quisermos, que provavelmente o IHRU não é a entidade pública que melhor cumpre os seus objetivos. Isto pra ser simpático.

Mas se foi isso, Paulo, eu não sei, mas eu ficaria muito surpreendido se o presidente do IHRU chegasse ao fim de semana no cargo. Mas vamos ver. Ontem tivemos sinais contraditórios do poder político, Hugo Soares a tentar explicar, Miguel Pinto Luz perplexo com isto. Enfim, mas se o objetivo é ajudar a fazer mais um cartaz ali pras praças de Lisboa e do Porto, então foi muito bem sucedido. Isso vai dar cartazes ótimos.

E por onde anda o teu vilão?

Olha, grande pergunta. Acho que vamos ter que passar a fazer essa pergunta mais vezes.

É? Então.

É, porque o primeiro-ministro fez uma publicação ontem, toda gente começou a perguntar: onde é que está Luís Montenegro? Por onde anda? Será que está fechado em casa? Será que está a almoçar com o presidente do IHRU? Onde é que está o primeiro-ministro? E Luís Montenegro fez então uma publicação nas redes sociais onde anunciou que fez uma visita de surpresa, a expressão é dele, a uma escola. Segundo Montenegro, esta forma de fazer as coisas, que ele descreveu como sendo mais informal, permite uma troca de ideias muito produtiva. E aliás, ele escreveu, eu presumo que com uma lágrima furtiva no canto do olho, que durante esta visita surpresa pôde testemunhar, atenção, a felicidade dos alunos. Estavam todos muito felizes, presumo, com bolas saltando no ar e entoando cânticos de louvor à AD. Ora, obviamente, o primeiro-ministro está a tomar-nos por tontos com esta conversa, porque só há duas vantagens nesta forma de atuar e ambas servem apenas a Luís Montenegro. Primeira vantagem: se a agenda pública do primeiro-ministro for secreta, é impossível eventuais manifestantes organizarem-se pra protestar junto dele. Ele poderá dizer: "Protestos, onde? Não está aqui ninguém pra protestar." Segunda vantagem: se a agenda pública do primeiro-ministro for secreta, é impossível os jornalistas acompanharem o que ele faz. E se por acaso alguém, mesmo sem pré-aviso, se manifestar, imaginem um professor da escola, um aluno, se alguém dizer alguma coisa, esse protesto será escondido do país. A verdade é que neste momento nenhum de nós sabe se o Luís Montenegro foi mal ou bem recebido na escola que visitou ontem, porque, lá está, escrevam esta máxima numa T-shirt: quando não há jornalistas, sobra a propaganda. E nós só temos a propaganda do primeiro-ministro. Um fotógrafo profissional lá do governo há de ter tirado uma foto muito bonita do primeiro-ministro com um grande sorriso, acompanhado de pessoas felizes, toda a gente a sorrir. E é tudo o que nós sabemos. E eu só não tinha percebido que o Luís Montenegro estava assim tão assustado. Eu não tinha dado por isso. E fico perplexo ao perceber que nós vamos passar a ter um primeiro-ministro, pelos vistos, que vive na clandestinidade. Aparece sem ninguém saber de onde vem e depois entra no automóvel e zarpa para o próximo destino secreto. Se isto vai ser assim, está bem.

E o passo seguinte é ir lá para fora lutar pela vida, como sugere o presidente do IRU.

Ou pelo menos. Eu fico espantadíssimo com estas coisas. Como é que não há ninguém no governo? Eu já disse isto uma vez: o governo devia pagar a alguém para estar fora daquela bolha, um assessor que ficasse em casa e a quem o primeiro-ministro ligasse a dizer: "Olha, Manel, tive esta ideia genial, o que é que tu achas?" E o assessor, que está fora da bolha, dir-lhe-ia: "Ó Luís, menos." Para continuar a citar a manifestante.

Vamos ao resumo: o bom desta sexta-feira é José Pedro Aguiar Branco, o mau é o presidente do IRU e o vilão é Luís Montenegro. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.

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