Jovem de escola pública aprovada em medicina na Unicamp estudava 8 horas por dia com videoaulas gratuitas

Estudante de escola pública e sem dinheiro para pagar um cursinho, ela organizou o próprio cronograma de estudos e recorreu a videoaulas gratuitas, provas antigas e à ajuda de professores.
Depois de uma rotina de cerca de oito horas diárias de dedicação, a aprovação veio em 2021, na primeira chamada da universidade. Agora, aos 23, se prepara para colar grau em novembro de 2026.
A rotina de preparação foi construída em meio a outras responsabilidades. Aos 16 anos, ela trabalhava no caixa de uma padaria para juntar dinheiro e comprar um computador.
Com o apoio da mãe, deixou o emprego para se dedicar ao vestibular, enquanto conciliava os estudos com as tarefas domésticas e os cuidados dos três irmãos mais novos.
Juntas, elas também precisaram enfrentar as expectativas e pressões da família extremamente religiosa, que esperava que ela se casasse em vez de priorizar os estudos.
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Como Kelly organizou os estudos
À direita, Kelly ao lado da mãe, após ser aprovada em Medicina na Unicamp, em 2021. À esquerda, a estudante em ensaio fotográfico para a formatura, em 2026. — Foto: Arquivo Pessoal
Sem condições de pagar por um cursinho, Kelly precisou descobrir quais conteúdos estudar, como distribuir as disciplinas ao longo da semana e como acompanhar a própria evolução.
A principal ferramenta foi a internet. Ela recorria a videoaulas gratuitas no YouTube e aproveitava aulas de cursinhos que disponibilizaram parte do conteúdo gratuitamente durante a pandemia.
Para estruturar a preparação, a estudante também:
- Pesquisava os assuntos mais cobrados: usava essas informações para orientar a escolha dos conteúdos.
- Montou um cronograma próprio: organizava as disciplinas e estabelecia a meta de avançar em cerca de três tópicos por dia.
- Resolvia provas de anos anteriores: usava os exercícios para conhecer o estilo das questões e identificar os assuntos que precisavam de mais atenção.
- Fazia simulados aos sábados: aproveitava o dia para treinar o ritmo exigido pelo vestibular
- Reservava os domingos para descansar: mantinha um dia livre na semana.
Oito horas de estudo por dia
De segunda a sexta-feira, a rotina de Kelly chegava a aproximadamente oito horas de estudo por dia. O esquema era assim:
- a manhã era dedicada principalmente às revisões e à resolução de exercícios;
- à tarde, ela estudava conteúdos novos.
Ao longo da preparação, as provas antigas também ajudavam a avaliar o desempenho e direcionar os estudos. A organização era importante porque Kelly não podia se dedicar exclusivamente aos livros. Em casa, também ajudava nas tarefas domésticas e cuidava dos três irmãos mais novos.
Como lidou com a ansiedade
Apesar do cronograma organizado, Kelly enfrentou momentos de ansiedade e insegurança. No início da preparação, os resultados dos simulados ficavam abaixo das notas de corte, o que provocava frustração e fazia a jovem duvidar de que conseguiria a aprovação.
“Tinha muita ansiedade envolvida no processo, incerteza, né? Eu não comecei a minha preparação atingindo as notas de corte, muito pelo contrário, eu fazia muito abaixo. Então tinha um quê de frustração também”, relatou.
Para lidar com a pressão, ela passou a praticar yoga e meditação durante a pandemia. Por volta das 9h, interrompia os estudos para fazer os exercícios, sempre no mesmo horário, e mantinha os domingos livres para descansar.
Na semana anterior à primeira fase da Unicamp, Kelly teve uma crise de ansiedade e duvidou que conseguiria passar. Para ajudá-la a recuperar a confiança, a mãe a levou para conhecer o campus da universidade pela primeira vez.
A experiência no Enem ajudou na escolha
Kelly no dia em prestou o Enem. — Foto: Arquivo pessoal
A medicina não era um sonho definido desde a infância. A possibilidade começou a ganhar força no segundo ano do ensino médio, quando Kelly fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez, inicialmente para testar os próprios conhecimentos e conhecer o formato da prova.
Incentivada por uma professora de língua portuguesa, ela participou do exame e tirou 920 pontos na redação. O resultado chamou a atenção da professora, que passou a incentivá-la a considerar a medicina como uma possibilidade real.
A escolha também tinha uma motivação concreta: melhorar as condições financeiras da família. A mãe, técnica de enfermagem aposentada, sustentava a casa com cerca de um salário mínimo, como conta a estudante.
“Eu entrei no curso pensando em mudar a situação financeira da minha família mesmo. Minha mãe é técnica de enfermagem, só que ela era aposentada e ganhava um salário mínimo. Nós somos em quatro crianças lá em casa, então era uma situação financeira muito difícil”.
O apoio da mãe e a decisão de deixar o emprego
Quando decidiu se dedicar ao vestibular, Kelly precisou deixar o trabalho na padaria. Foi a mãe quem tomou a iniciativa de ir até o estabelecimento para comunicar que a filha não continuaria trabalhando.
“Ela falou: ‘Não, ela não vai trabalhar aqui não, ela vai estudar pra ser médica’”, relembrou Kelly.
O apoio também foi importante diante das expectativas de parte da família. Segundo a jovem, alguns parentes, por serem muito religiosos, esperavam que as mulheres priorizassem o casamento, e não os estudos.
“Minha família realmente é muito religiosa e tinha essa expectativa sobre as mulheres, de se casarem, de não estudar. Não era uma coisa que se esperava de uma mulher. Mas minha mãe, especificamente, sempre me ajudou muito", contou.
Aprovação na primeira chamada
Kelly durante sua primeira visita à Unicamp, antes de prestar o vestibular. — Foto: Arquivo pessoal
A Unicamp era a principal escolha de Kelly. Ela também prestou vestibulares da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), chegou à segunda fase de ambas, mas não concluiu essas etapas porque o resultado da Unicamp saiu primeiro.
Em 2021, aos 18 anos, foi aprovada em medicina na primeira chamada, na 371ª posição. Kelly ingressou por uma modalidade de reserva de vagas destinada a estudantes de escola pública e candidatos autodeclarados pardos.
Para conseguir permanecer na universidade, contou inicialmente com uma bolsa de mérito destinada a estudantes cotistas e, mais tarde, também recebeu auxílio estudantil. Aos 23 anos, ela se prepara para colar grau em novembro de 2026 e pretende se especializar na área de oftalmologia.
Aos estudantes que vão prestar o vestibular da Unicamp, Kelly deixa uma mensagem de incentivo:
"Mesmo que você venha de uma escola pública, mesmo que você não tenha todas as privilégios do mundo quando você está se preparando, a gente tem, hoje em dia, um monte de ação social, um monte de ação afirmativa, lembrando que é possível , ajudando você a não deixar de sonhar. Eu vejo muita gente parando de sonhar porque não vê isso e eu acho que você tem que correr sim atrás dos seus sonhos, eu sou prova viva de que é possível ", disse.
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