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Sunday, October 4, 2026

O fenómeno que está causar chuvas diluvianas na Catalunha

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Primeiro vêm as trovoadas. Uma a uma. E, só para que isso aconteça, tem de existir muito ar quente e húmido a chegar constantemente. Depois, os ventos têm de as empurrar de forma a juntá-las num único sistema, gigante e persistente, para criar a grande área da tempestade, que essas trovoadas alimentam. Isso significa que, enquanto umas enfraquecem, outras têm de nascer. Para que a tempestade dure horas ou dias, com células que passam várias vezes pelo mesmo lugar e deixam cair chuva intensa sempre no mesmo sítio, criando os acumulados brutais, e recorde, que estão a acontecer na Catalunha. Se o conjunto de trovoadas funcionar desta forma organizada, está-se perante um Sistema Convectivo de Mesoescala (SCM).

Mas pode piorar. E piorou. Porque todo este movimento faz com que existam sempre enormes quantidades de ar a subir e a descer. Já se sabe que o ar quente (e húmido), portanto, o que está à superfície da terra e do mar, num Mediterrâneo que nunca esteve tão quente, e num terreno que passou por várias ondas de calor, sobe. O vapor passa a gotas de água. No processo, há uma libertação de calor que faz com que as fortes correntes dentro da tempestade se mantenham ou até se fortaleçam. Com o tempo suficiente e os ventos organizados, o ar começa a rodar à volta da zona central. Essa rotação no centro do sistema de trovoadas é o Vórtice Convectivo de Mesoescala (VCM).

Foi esta rotação que lhe deu, nas imagens de satélite e radar, um aspeto semelhante ao dos pequenos furacões. Mas são coisas muito diferentes. Ao largo da Catalunha nasceu um comboio de trovoadas que começou a funcionar como uma só tempestade e acabou por desenvolver rotação no seu centro.

Ainda assim, para haver um SCM, têm de estar reunidos vários fatores. A tal grande quantidade de vapor de água à superfície, aqui em grande parte fornecida pelo Mediterrâneo quente. Depois, ar mais frio em altitude que crie uma atmosfera instável. É essencial um mecanismo que faça o ar quente e húmido subir, mecanismo que pode ir dos ventos a uma frente ou simplesmente ao relevo do terreno. Também ar húmido a chegar constantemente à mesma região, o que, no caso, é fácil devido ao fluxo marítimo. E ainda mudanças certas na velocidade dos ventos em altitude para que as trovoadas se organizem e durem.

Com um Sistema Convectivo de grandes dimensões, organizado e que possa durar muito tempo, a hipótese de desenvolver rotação no seu interior é enorme. Essa convecção interna transporta ar na vertical, liberta calor no processo, altera a forma como a pressão se distribui, reorganiza os ventos e concentra a tendência do ar para este começar a rodar. Com tempo suficiente, essa rotação pode organizar-se numa circulação ciclónica. E é aqui que as duas coisas se ligam: nasce o Vórtice Convectivo.

O vórtice pode ajudar a manter o sistema. Ao organizar a circulação no interior e também ao concentrar a humidade e a convergência, cria o ambiente perfeito para que nasçam novas trovoadas, que haja ainda mais libertação de calor e que o sistema possa durar ainda mais. E dá-lhe a aparência de ciclone tropical, porque pode estar a chegar quase lá. O sistema da Catalunha quase chegou. E ainda vai ser um grande desafio para os meteorologistas estudá-lo e perceber o que lhe chamariam se o local onde se desenvolvesse fosse nos trópicos e não neste extremo do Mediterrâneo.

Mas há algumas diferenças entre um Vórtice Convectivo de Mesoescala e uma depressão. Um VCM é a rotação que se produz e se organiza dentro de um Sistema Convectivo. Para que evoluísse para um ciclone com características tropicais, a sua circulação teria de se tornar mais fechada, mais persistente, mais simétrica e ainda mais organizada à volta do centro. E teria de estar ligada a uma convecção que se aprofundasse e fosse alimentada por fluxos de calor e humidade do mar, de modo a desenvolver um núcleo quente. Mas, e sobretudo, teria de se manter sobre o mar e continuar a encontrar estas condições: passaríamos de um grande sistema de trovoadas que desenvolveu uma rotação em vórtice para um sistema em transição subtropical/tropical.

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