A favela que vota: 2026 e o direito de permanecer

Não estamos falando de um problema à margem da cidade, esperando ser corrigido por algum programa habitacional. Estamos falando de uma parte importante da própria vida urbana brasileira, da força de trabalho, do consumo, da cultura e da produção econômica do país.
E é justamente aí que começa o problema. Quando observamos os projetos que disputam o eleitor em 2026, fica evidente que a política brasileira não está falando da mesma favela.
Para alguns, ela é uma carência estrutural que precisa de integração estatal. Para outros, um território dominado pelo crime que precisa ser retomado pela força. Há quem defenda que a própria favela precisa deixar de existir como modelo de moradia. E há quem enxergue nesses territórios um grande polo de empreendedorismo e capitalismo popular.
A disputa, portanto, não é apenas sobre políticas públicas. É sobre qual cidade queremos construir e, principalmente, sobre quem terá o direito de permanecer nela.
O modelo apresentado por Lula, parte de uma ideia que considero fundamental, a favela é cidade.
A aposta no Periferia Viva, com urbanização, saneamento, regularização fundiária, contenção de encostas e investimentos continuados, reconhece que esses territórios não podem continuar tratados como exceções urbanas. Também existe uma compreensão importante sobre cultura e tecnologia. Levar conectividade para as periferias e fortalecer a produção cultural significa reconhecer que inclusão digital e identidade também fazem parte do direito à cidade.
Mas, como alguém que vive e trabalha nesses territórios, preciso trazer para a análise, essa integração, sozinha, resolve a exclusão econômica?
O Estado brasileiro tem uma característica conhecida por quem vive na periferia, chega muitas vezes tarde, de forma burocrática e, não raramente, decidindo pelo território sem ouvir quem está nele.
Uma obra de infraestrutura pode transformar uma rua. Um programa social pode aliviar uma dificuldade. Mas isso não significa, necessariamente, criar mobilidade social.
Integrar a favela à cidade formal sem oferecer acesso real a tecnologia, qualificação, crédito, empreendedorismo e geração de renda é como pavimentar a rua e continuar mantendo as portas do mercado fechadas.
Já Flávio Bolsonaro parte de perspectiva diferente e propõe outras abordagens.
Sua premissa é direta, ninguém é dono de verdade da própria casa enquanto o crime organizado controlar a rua. Quem vive em territórios dominados por facções ou milícias sabe que não existe cidadania plena quando o Estado perde o controle sobre o espaço público.
A proposta de retomada territorial, associada à expansão da segurança e à regularização fundiária, parte dessa realidade. A ideia de priorizar a escritura da casa no nome das mulheres também merece atenção, porque propriedade pode representar proteção patrimonial e autonomia.
O problema começa quando a segurança passa a ser tratada quase exclusivamente como questão de repressão. Câmeras, presídios de segurança máxima e operações policiais podem recuperar o controle de uma região. Mas o que acontece no dia seguinte?
Se depois da retomada não vierem escola, saúde, infraestrutura, cultura, emprego e oportunidade econômica, a ocupação corre o risco de ser apenas temporária. Segurança é condição para a cidadania. Mas, sozinha, não produz cidadania.
Ronaldo Caiado apresenta uma proposta baseada em uma ideia simples, fazer o Estado chegar de forma mais integrada às famílias periféricas.
A criação de um sistema único de dados sociais pretende conectar saúde, educação e assistência, reduzindo a burocracia e permitindo acompanhar melhor as necessidades de cada família. Na prevenção da violência, a aposta está em escolas em tempo integral, esporte, cultura e apoio psicológico para crianças e jovens.
Na infraestrutura, o foco passa por iluminação pública, saneamento e intervenções como contenção de encostas. Na saúde, telessaúde e uma carreira federal para atrair médicos às regiões periféricas. Para geração de renda, o Crédito Social busca apoiar mulheres e jovens na abertura ou manutenção de pequenos negócios.
É uma proposta que tenta juntar políticas diferentes em torno de uma mesma lógica, fazer o Estado chegar antes que o problema se transforme em emergência.
Mas eficiência na prestação de serviços não é o mesmo que mobilidade social. O desafio continua sendo transformar essa presença do Estado em autonomia, oportunidades e capacidade de escolha.
A abordagem de Romeu Zema acrescenta outra dimensão ao debate. Ao defender a flexibilização do uso do solo e o adensamento das regiões centrais, há uma tentativa de aproximar moradia e emprego.
A ideia toca em um dos problemas mais antigos das grandes cidades brasileiras, a população de menor renda é frequentemente empurrada para áreas cada vez mais distantes dos centros de emprego e serviços. Mas o problema aparece quando a informalidade habitacional é tratada apenas como desordem a ser removida.
Se a alternativa para quem vive de maneira informal é simplesmente sair dali, sem uma política de moradia bem localizada, estamos apenas empurrando a pobreza para mais longe. Urbanizar também precisa significar permitir que as pessoas permaneçam onde construíram suas vidas.
Talvez nenhuma proposta seja tão radical quanto a de Renan Santos.
Seu projeto parte de uma premissa diferente, a favela, como modalidade de moradia popular, deveria deixar de existir em dez anos. A proposta de desfavelização pretende transformar comunidades em bairros formais, com infraestrutura, equipamentos públicos e mistura de classes. Para isso, cria mecanismos de financiamento de longo prazo e instrumentos de regularização e reorganização urbana.
É uma proposta que merece ser discutida seriamente justamente porque rompe com a lógica tradicional de simplesmente melhorar a favela sem alterar sua estrutura.
E logo surgem perguntas que precisam entrar no debate, quando transformamos um lugar, o que exatamente estamos tentando transformar?
Uma favela não é apenas um conjunto de casas construídas sem planejamento. É história, rede de vizinhança, comércio, cultura, memória e uma economia que nasceu, muitas vezes, justamente porque o Estado não estava presente.
Redesenhar o espaço urbano pode melhorar a infraestrutura, mas também destruir vínculos que levaram décadas para ser construídos. E existe um risco ainda maior, transformar a valorização imobiliária em expulsão de seus moradores.
Não basta perguntar se a favela vai virar um bairro formal. É preciso perguntar quem terá condições de continuar morando nele quando estiver valorizado.
Augusto Cury apresenta outra leitura. Seu programa Comunidades Empreendedoras parte de uma crítica que considero justa, a favela não pode ser enxergada apenas pela lente da carência. Existe criatividade, trabalho, consumo, inovação e circulação de dinheiro nesses lugares. A proposta de combinar regularização fundiária, tecnologia, formação empreendedora e microcrédito reconhece uma potência que há muito tempo existe nas periferias.
Mas também aqui existe uma armadilha. Quando chamamos toda atividade de sobrevivência de empreendedorismo, podemos acabar romantizando a precariedade.
O jovem que vende um produto na rua ou trabalha por aplicativo nem sempre está realizando um sonho empreendedor. Muitas vezes está tentando sobreviver à falta de emprego formal e de oportunidades.
Crédito e capacitação são importantes. Mas não adianta oferecer dinheiro para abrir um negócio se a enchente destrói a loja todos os anos, se não existe saneamento, internet adequada ou segurança para funcionar.
Empreendedorismo precisa ser ferramenta de autonomia, não desculpa para transferir ao indivíduo responsabilidades que também são do Estado e do mercado.
Quando olho para esses modelos, vejo que cada um enxerga uma parte verdadeira do problema. Urbanização, segurança, regularização, geração de renda e tecnologia fazem parte da solução. O problema é imaginar que qualquer uma delas, sozinha, seja capaz de resolver a complexidade da favela.
Infraestrutura, escritura, policiamento ou crédito podem resolver partes do problema sem garantir, por si só, permanência, oportunidades e qualidade de vida.
Direito à cidade não é apenas receber uma escritura ou ter uma viatura na esquina. É ter escola que funcione, creche que permita à mãe trabalhar, internet de qualidade, acesso a crédito, saúde, cultura, transporte e segurança.
Mas é também ter voz. Nenhuma transformação urbana será legítima se quem vive nesses lugares não participar das decisões sobre o seu futuro. O futuro das periferias precisa ser construído também por quem colocou esses lugares de pé, tijolo por tijolo, muitas vezes sem o apoio de ninguém.
E seremos um país verdadeiramente desenvolvido quando a favela deixar de ser tratada como um território invisível a ser controlado, corrigido ou extinto.
E passar a ser reconhecida pelo que sempre foi, um dos lugares onde o Brasil mais insiste em dar certo.
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Opinião
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