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Thursday, October 22, 2026

Brasil reduz emissões em 6%, mas não cumpre meta climática de 2025

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O Brasil reduziu em 6% suas emissões brutas de gases de efeito estufa em 2025, chegando ao menor patamar em oito anos. Apesar do terceiro ano consecutivo de queda, o país não conseguiu cumprir a meta de emissões estabelecida para 2025 em sua primeira contribuição nacional ao Acordo de Paris.

Segundo dados divulgados pelo Observatório do Clima nesta terça-feira, 20, o país emitiu 2,06 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), ante 2,19 bilhões de toneladas em 2024.

A redução foi impulsionada principalmente pela desaceleração do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, que compensou o aumento das emissões em setores como energia e resíduos.

Os números fazem parte da 14ª coleção do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), iniciativa do Observatório do Clima que reúne estimativas anuais das emissões brasileiras em uma série histórica iniciada em 1970.

Quando consideradas as emissões líquidas, que descontam o carbono removido da atmosfera pelo crescimento da vegetação e pelas áreas protegidas, o Brasil registrou 1,41 bilhão de toneladas de CO₂e, queda de 9% em relação ao ano anterior e menor resultado desde 2012.

É esse indicador que serve de referência para avaliar o cumprimento dos compromissos climáticos brasileiros. A meta para 2025, apresentada na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), estabelecia um limite de 1,32 bilhão de toneladas de CO₂e.

O resultado deixou o Brasil 85 milhões de toneladas acima do limite estabelecido, ou cerca de 6%. Apesar de não atingir o compromisso, o país acumulou uma redução de aproximadamente um quarto das emissões brutas desde 2022, revertendo uma trajetória de crescimento registrada nos anos anteriores.

"Nos últimos quatro anos, o Brasil correu atrás do prejuízo e cortou em um quarto as suas emissões brutas. É um feito digno de nota, dado que nos 13 anos anteriores, desde que publicou sua Política Nacional do Clima em 2009, o país viu suas emissões crescerem em dois terços", afirmou David Tsai, gerente do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) e pesquisador do Observatório do Clima.

Para o pesquisador, no entanto, a concentração dos resultados em um único setor representa um desafio para os próximos compromissos do Brasil.

"Preocupa que nosso desempenho climático ainda dependa tanto de um só setor, o de uso da terra. É imprescindível avançar nos outros setores para que as próximas metas, de 2030 e 2035, sejam cumpridas", afirmou.

Desmatamento responde pela maior parte da redução das emissões

O setor de mudança de uso da terra, que contabiliza principalmente as emissões provocadas pelo desmatamento e pela conversão de vegetação nativa para outras atividades, registrou uma queda de 15% nas emissões brutas entre 2024 e 2025.

O volume passou de 957 milhões para 814 milhões de toneladas de CO₂e.

Embora tenha apresentado a maior redução, o setor continuou como a principal fonte de gases de efeito estufa do Brasil, responsável por 39% das emissões brutas nacionais.

Na comparação com 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro, as emissões brutas por mudança de uso da terra recuaram 46%. Já as líquidas diminuíram 81%, passando de aproximadamente 860 milhões para 162 milhões de toneladas.

A diferença entre os dois indicadores está relacionada às remoções de carbono contabilizadas no setor, principalmente pelo crescimento da vegetação em áreas protegidas e pela regeneração de vegetação secundária.

De acordo com Bárbara Zimbres, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a redução das emissões acompanhou a queda do desmatamento nos diferentes biomas brasileiros.

"A redução das emissões observada nos últimos três anos no setor de mudança do uso da terra reflete os resultados positivos das políticas de controle do desmatamento no Brasil. Essa é a principal mudança recente no perfil de emissões do país e a que mais contribui, atualmente, para o cumprimento das metas estabelecidas em sua NDC", afirmou.

Em 2025, as emissões relacionadas às mudanças de uso da terra caíram 20% na Amazônia, 5% no Cerrado e na Mata Atlântica, 21% no Pampa, 18% na Caatinga e 45% no Pantanal.

A Amazônia continuou concentrando a maior parcela das emissões brutas do setor, com 57%, seguida pelo Cerrado, com 26%, e pela Mata Atlântica, com 10%.

A pesquisadora destacou, durante a coletiva, que a redução da área desmatada não se traduz necessariamente em queda proporcional das emissões. Isso ocorre porque a quantidade de carbono armazenada na vegetação varia entre regiões e tipos de cobertura vegetal.

Outro movimento observado foi a diminuição das emissões por queimadas não associadas ao desmatamento, após os níveis excepcionais registrados em 2024.

Essas emissões são calculadas separadamente pelo Seeg, pois não integram a metodologia utilizada no Inventário Nacional de Emissões.

Agropecuária concentra 30% das emissões brasileiras

Apesar da redução do desmatamento, a agropecuária permaneceu praticamente estável em 2025, com 626,3 milhões de toneladas de CO₂e, ante 626,7 milhões no ano anterior.

A variação negativa de 0,1% foi a menor registrada entre dois anos consecutivos desde o início da série histórica, em 1970.

O resultado, porém, esconde movimentos diferentes dentro do setor: enquanto as emissões da pecuária recuaram 1,68%, as da agricultura cresceram 6,45%.

A atividade pecuária foi responsável por 494,1 milhões de toneladas de CO₂e. Já a agricultura emitiu 132,1 milhões de toneladas.

A principal fonte de emissões do setor continua sendo a fermentação entérica, processo digestivo dos animais ruminantes conhecido como "arroto do boi", responsável pela liberação de metano.

Essa atividade respondeu por 396,8 milhões de toneladas de CO₂e em 2025, queda de 1,8% em relação ao ano anterior.

Segundo o levantamento, a redução das emissões da pecuária está relacionada ao recorde de abate de bovinos, que chegou a 42,94 milhões de animais em 2025. Com isso, o rebanho caiu 1,7%, para 234,2 milhões de cabeças, enquanto a produção de carcaças aumentou 7,2%, alcançando 11,1 milhões de toneladas.

Na agricultura, o crescimento das emissões foi associado principalmente ao manejo dos solos, à utilização de fertilizantes nitrogenados e à decomposição de resíduos agrícolas.

As emissões provenientes dos solos manejados aumentaram 3%, alcançando 188,6 milhões de toneladas de CO₂e.

"A redução das emissões da pecuária foi compensada pelo aumento das emissões da agricultura, acompanhadas pela maior produção do setor", explicou Gabriel Quintana, coordenador de Ciência do Clima do Imaflora.

Quando consideradas tanto as emissões diretas da produção quanto aquelas relacionadas à conversão de vegetação nativa, a agropecuária responde por aproximadamente 70% das emissões brutas brasileiras, segundo o levantamento.

Somente a pecuária, incluindo o desmatamento para abertura de pastagens, foi responsável por 721 milhões de toneladas de CO₂e em 2025.

Os resultados mostram que a redução do desmatamento altera o perfil das emissões nacionais, mas não elimina o peso climático das atividades agropecuárias.

Transportes batem recorde e pressionam emissões de energia

Enquanto o desmatamento recuou, as emissões do setor de energia cresceram 1,2% em 2025, passando de 422 milhões para 427 milhões de toneladas de CO₂e.

O aumento foi puxado principalmente pelo consumo de combustíveis fósseis no transporte de cargas e passageiros.

O setor de transportes atingiu 228 milhões de toneladas de CO₂e, o maior valor da série histórica, sendo 123 milhões provenientes do transporte de cargas e 105 milhões do transporte de passageiros.

O consumo de diesel de petróleo cresceu 3% no período. Já o consumo de gasolina A, combustível sem adição de etanol, aumentou 4%. Os biocombustíveis também ganharam espaço: etanol e biodiesel representaram, juntos, 26% da energia consumida pelos transportes em 2025, a maior participação da série.

Apesar dessa participação, as emissões dos transportes continuaram crescendo. O Observatório do Clima aponta que a expansão da frota compensou o aumento do consumo de etanol.

Outro movimento observado foi o aumento da comercialização de veículos eletrificados. Em 2025, aproximadamente 14% dos automóveis vendidos no Brasil pertenciam a essa categoria, somando cerca de 280 mil unidades.

A participação, entretanto, foi menor nos veículos pesados. Apenas 0,3% dos caminhões e cerca de 3% dos ônibus comercializados no período eram elétricos.

Segundo Ingrid Graces, pesquisadora do Iema, a eletrificação precisa ser acompanhada de investimentos em infraestrutura e políticas de mobilidade.

Durante a coletiva, ela destacou a necessidade de ampliar os pontos de recarga e preparar a rede elétrica, mas também de investir na mudança dos modos de transporte e no fortalecimento do transporte coletivo.

Na geração de eletricidade, as emissões aumentaram 6%, apesar da expansão das fontes renováveis. A geração solar cresceu 25% em 2025 e ultrapassou, pela primeira vez, o conjunto das fontes fósseis. A energia eólica avançou 8%. Mesmo assim, o acionamento de termelétricas a gás contribuiu para o aumento das emissões.

Ao longo do ano, aproximadamente 37 terawatts-hora de geração eólica e solar deixaram de ser aproveitados devido a limitações de transmissão, excesso de oferta em determinados horários e restrições operacionais do sistema elétrico.

O fenômeno, conhecido como curtailment, ou corte de geração de energia disponível, evidencia uma das contradições da transição energética brasileira: o crescimento da geração renovável não significa, necessariamente, a substituição imediata dos combustíveis fósseis.

O levantamento também chama atenção para a produção de petróleo. Em 2025, o Brasil exportou mais da metade do volume produzido, aproximadamente 2 milhões de barris por dia.

A queima desse petróleo no exterior pode representar cerca de 314 milhões de toneladas de CO₂, segundo estimativas apresentadas pelo Iema.

Essas emissões não entram no inventário brasileiro, porque a contabilização ocorre no país onde o combustível é consumido.

Ao mesmo tempo, o Brasil continua dependente da importação de parte dos combustíveis utilizados internamente: um em cada quatro litros de diesel e um em cada dez litros de gasolina consumidos no transporte têm origem externa.

Resíduos registram maior aumento proporcional de emissões

O setor de resíduos apresentou a maior alta percentual entre os segmentos analisados, com crescimento de 3,6% em 2025.

As emissões chegaram a 95,7 milhões de toneladas de CO₂e, contra aproximadamente 92 milhões no ano anterior.

Embora responda por menos de 5% das emissões brasileiras, o setor mantém uma trajetória histórica de crescimento.

Segundo o Observatório do Clima, esse aumento está fortemente relacionado ao crescimento da população. Durante a coletiva, os pesquisadores também apontaram os efeitos da expansão dos serviços de saneamento sobre os indicadores de emissões.

Os aterros sanitários, aterros controlados e lixões responderam por 65% das emissões do setor. O tratamento de esgoto doméstico representou outros 26%.

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Segundo Iris Coluna, do ICLEI América do Sul, o país avançou no encaminhamento de resíduos para aterros sanitários, mas a recuperação de materiais por meio de reciclagem e compostagem continua limitada.

Em 2025, apenas 88 municípios informaram encaminhar resíduos para unidades de compostagem, enquanto menos de 3% dos resíduos brasileiros foram recuperados pela reciclagem.

"Observamos que historicamente tivemos avanços relevantes, como o aumento da quantidade de resíduos que são encaminhados para aterros sanitários e também uma diminuição na quantidade de lixões, mas ainda temos muito que avançar", afirmou.

Iris explicou que a ampliação do acesso aos serviços de saneamento, embora traga benefícios para a população e o meio ambiente, pode resultar em aumento das emissões, especialmente no tratamento de esgoto doméstico.

Brasil pode alcançar em 2026 a meta que não cumpriu em 2025

Apesar de ter encerrado 2025 acima do limite estabelecido no Acordo de Paris, o Brasil pode alcançar o compromisso em 2026, segundo projeções preliminares do Observatório do Clima.

Com base nos dados de desmatamento e em uma estimativa de continuidade das tendências de emissões dos demais setores, o Seeg calcula que o país poderá terminar o ano com 1,23 bilhão de toneladas de emissões líquidas de CO₂e.

Esse resultado ficaria abaixo do limite de 1,32 bilhão de toneladas previsto para 2025 e próximo da meta de 1,20 bilhão estabelecida para 2030.

A projeção considera que as emissões líquidas associadas ao desmatamento poderão se tornar negativas pela primeira vez, chegando a menos 24 milhões de toneladas de CO₂e. Isso significa que as remoções de carbono contabilizadas nesse componente superariam suas emissões.

Os números, no entanto, ainda não representam o balanço consolidado de 2026. Para os demais setores, a estimativa utiliza uma extrapolação linear do comportamento observado nos cinco anos anteriores.

Para 2035, o Brasil estabeleceu uma faixa de emissões líquidas entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO₂e.

O cumprimento desses compromissos dependerá não apenas da manutenção da queda do desmatamento, mas também da capacidade de reduzir emissões em atividades que, até agora, apresentam pouca alteração ou seguem em crescimento.

Em 2025, enquanto o setor de mudança de uso da terra reduziu suas emissões brutas em 143 milhões de toneladas de CO₂e, energia e resíduos registraram aumentos, e a agropecuária permaneceu praticamente estável.

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