Em área vigiada por jagunços e PMs na Amazônia, acampados esperam acessar terra na véspera da eleição
Num lugar dominado pela soja, marcado pela grilagem e vigiado por homens armados, duas datas são aguardadas por dezenas de famílias acampadas na margem de uma rodovia, no norte de Mato Grosso.
Uma data é o próximo dia 24 de outubro. Para os acampados, esse é o prazo final —estabelecido pela Justiça Federal— para que fazendeiros desocupem 2.000 hectares de terras da União, bem ao lado da estrada. A área integra a Fazenda Cinco Estrelas, que servirá para um novo assentamento rural, o PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) Novo Mundo.
A outra data é o dia seguinte, 25 de outubro, quando ocorre o segundo turno das eleições de 2026. Pelas pesquisas de intenção de voto, o mais provável é que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sejam os concorrentes.
Os acampados que esperam a concretização do assentamento —o acampamento existe há nove anos, e o projeto do PDS tem 24 anos— apoiam a candidatura de Lula e acreditam que uma derrota do petista nas urnas pode inviabilizar o assentamento. Isso se a desocupação dos 2.000 hectares, dentro do que estabeleceu a Justiça, não for efetivada antes do resultado das urnas.
A família Bolsonaro, por sua vez, tem amplo apoio de fazendeiros, plantadores de soja e milho, operadores de commodities, criadores de gado, empresários e funcionários de empresas agrícolas. A lista inclui ainda exploradores de madeira, garimpeiros e moradores das cidades que estão na linha da BR-163, um corredor de grãos que conecta o norte de Mato Grosso e o sul do Pará.
Mato Grosso, líder nacional em produção de soja, depende do cultivo nessa parte do estado, que concentra 40% da produção. Cidades como Sinop e Sorriso estão entre as principais produtoras. Já a parte sul do Pará é fundamental para o escoamento dos grãos até portos amazônicos.
Essa região tem vastos bolsões bolsonaristas, que garantem amplo apoio à família Bolsonaro nas urnas. Em Novo Mundo (MT), por exemplo, a cidade mais próxima da Fazenda Cinco Estrelas, Bolsonaro teve 67% dos votos válidos no primeiro turno em 2022. No segundo turno, 71%. Esse padrão se repete em todas as cidades que estão no curso da BR-163.
A dicotomia política e ideológica se traduz, muitas vezes, em uma disputa violenta pela terra.
As famílias sob lona ou teto de zinco no Acampamento União Recanto Cinco Estrelas ficam a poucos metros dos 2.000 hectares almejados, uma área pública, da União, como já decidiu a Justiça Federal. A área está do outro lado da rodovia MT-322. O acampamento pontilha uma vicinal de um assentamento colado na mesma rodovia.
Em 2024, acampados decidiram ocupar uma área nos 2.000 hectares da União, diante do vaivém judicial sobre a desocupação por parte dos fazendeiros.
Segundo as famílias, a patrulha rural da PM de Mato Grosso foi acionada, e acampados foram presos, mesmo sem a existência de um mandado judicial. No mesmo episódio foram detidos um padre, uma defensora pública e uma agente da CPT (Comissão Pastoral da Terra).
Os acampados ficaram presos por uma semana. Dois anos depois, eles dizem que a área é vigiada por homens armados —os "guachebas", termo usado pelas famílias, um sinônimo de jagunços—, com atuação ostensiva de PMs contra os acampados e ameaças crescentes à medida que a eleição se aproxima.
A Justiça Federal, em primeira e segunda instâncias, decidiu que a área é da União e que os fazendeiros —integrantes da família Rodrigues da Cunha— devem desocupá-la. A família conseguiu um prazo para essa saída: 180 dias, conforme decisão proferida em 24 de abril. A Justiça estabeleceu em seguida que esse prazo deve ser contado em dias corridos. Ainda cabe recurso.
Assim, pela conta dos acampados, o prazo se encerra em 24 de outubro, véspera do segundo turno. Os 180 dias corridos terminam, em termos mais exatos, em 21 de outubro.
Em nota, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) afirma que a Fazenda Cinco Estrelas, com 4.354 hectares, teve o domínio da União reconhecido pela Justiça. "Não se trata de desapropriação de imóvel privado, mas sim de imóvel público", diz.
O prazo de 180 dias para desocupação pode ser prorrogado pelo juízo de origem, segundo o órgão federal. O Incra disse atuar para resolver os conflitos e garantir a integridade das famílias. "Estão em curso medidas judiciais para a desocupação e imissão do Incra na posse, de forma a permitir a efetiva implantação do assentamento e o ingresso das famílias beneficiárias."
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O Governo de Mato Grosso escreveu, em nota, que a PM recebeu uma denúncia sobre invasão ilegal, em 2024, e que a polícia cumpriu as diretrizes do Programa Tolerância Zero às Invasões de Terra.
"A PM realizou a prisão de 13 envolvidos e apreendeu os materiais utilizados na ação, entre eles espingarda, facas, facões e armas artesanais, incluindo um bastão de beisebol com pregos fixados em uma das extremidades", disse. A PM atua para garantir a segurança de assentados e proprietários rurais, segundo o governo estadual.
A reportagem fez contato com um dos advogados que representou a família Rodrigues da Cunha no TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, no último dia 15 de setembro, por WhatsApp. O nome da advogada consta no andamento processual. Ela disse ter renunciado à defesa e que não sabe quem representa a família atualmente. Outros advogados não foram localizados.
Parte da área que se destina ao assentamento foi arrendada a plantadores de soja. Um garimpo também se instalou em uma área voltada ao projeto.
Lideranças do acampamento e do assentamento próximo dizem receber ameaças de agressão e de morte, o que se intensificou com o período eleitoral.
Enquanto o assentamento não sai, os acampados vivem sem energia elétrica, na beira de uma estrada vicinal e de uma rodovia, sem água encanada ou de poços. São comuns os alagamentos das casas.
Segundo eles, as plantações de soja, na terra ao lado, levam nuvens de agrotóxico ao acampamento. "A soja está em volta da represa onde a gente pega água. Quando pulveriza, tem uma brisa de veneno aqui", diz Edna Lima, 49, uma das acampadas que esperam a saída dos fazendeiros da Cinco Estrelas. Os efeitos da "brisa de veneno" duram quase um semestre inteiro, afirma ela.
Maria Lúcia Vaz, 56, é uma das acampadas mais antigas da região. Ela espera entrar de vez na Fazenda Cinco Estrelas antes da segunda e definitiva volta da disputa presidencial. "Quando fomos retirados da área, em 2024, não nos deixaram retirar nada. Colocaram fogo em tudo."
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