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Sunday, September 13, 2026

A arca de Noé salvou o mundo da fúria de Deus?

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A Arca de Noé salvou o mundo da fúria de Deus? Estamos de volta para a terceira temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Sou Daniel Nascimento, padre e professor da Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.

E nós preparamos mais uma temporada de Histórias da Bíblia, porque apesar de já termos feito 24 episódios, a Bíblia é uma fonte inesgotável de histórias e personagens que moldaram decisivamente a nossa cultura ao longo de séculos. Com a ajuda destes dois especialistas, vamos continuar ao longo das próximas semanas a olhar para algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. Neste episódio, regressamos às primeiras páginas da Bíblia e vamos olhar para um episódio de que ainda não falamos aqui: o dilúvio e a Arca de Noé. É talvez uma das histórias mais famosas da Bíblia, mas também é possível que nem sempre a compreendamos bem. Surge na reta final dos mitos bíblicos da criação, situa-se num tempo e num espaço fora da história, talvez antes da história, e abre a porta ao início da história humana, com os filhos daqueles que sobreviveram ao dilúvio. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. É verdade, as Histórias da Bíblia estão de volta para mais uma temporada. Depois das férias, voltamos a estar na antena da Rádio Observador todas as semanas com o João Basto e o Daniel Nascimento. Digam-me lá, vocês levaram a Bíblia pra praia ou levaram outra coisa?

Eu não fui muito à praia, mas fica-me bem dizer que levo a Bíblia pra todo lado.

Eu também não fui muito, mas no telemóvel temos sempre acesso à Bíblia.

Pronto, ok. É isso, tens uma saída.

Então tiveram a ler a Bíblia com os pés de molho. Claro, muito obrigado a todos os ouvintes que nos têm acompanhado ao longo das semanas. São milhares de pessoas que nos têm ouvido e que também nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões. E por isso quero aproveitar para lembrar que a nossa caixa de e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt, ainda tem espaço para continuar a receber perguntas. Temos muitas em atraso para responder, por isso nesta terceira temporada vamos continuar a ter um episódio especial às quintas-feiras para responder às perguntas dos nossos ouvintes. É um episódio que não passa na rádio, fica apenas em podcast. Os nossos ouvintes podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixar um comentário no YouTube ou nas plataformas de podcast. Bom, vamos então ao tema do nosso episódio, a história do dilúvio e da Arca de Noé. Nós temos de voltar até ao capítulo 5 do livro do Gênesis. É ali que encontramos a reta final da história de Caim e Abel. Falamos dela no episódio da segunda temporada. Depois da morte de Abel e da expulsão de Caim, Adão e Eva têm um terceiro filho, chama-se Sete, e neste capítulo 5 do Gênesis encontramos precisamente a genealogia dos descendentes deste Sete. São várias gerações, inclui o famoso Matusalém, que viveu 969 anos. E a dada altura chegamos então a esta personagem, Noé. O capítulo 6 do livro do Gênesis, e talvez seja aqui que vamos começar, começa de uma forma um bocadinho estranha, pelo menos para quem olha a Bíblia a partir de uma perspectiva cristã ocidental. É uma descrição da humanidade a começar a transgredir as regras. Os filhos dos deuses envolvem-se com mulheres humanas. Há umas referências a gigantes. Daniel, o que é isto? Temos aqui vestígios, se calhar, de outras tradições e de outras mitologias da Mesopotâmia, que são figuras e personagens que não associamos muito ao universo cristão.

Sim, temos aqui claramente uma influência da cultura de outras grandes civilizações vizinhas, no espaço, sobretudo, e precedentes no tempo. Referiste algo que é importante, ainda estamos nesses textos míticos. Já falamos de Adão e Eva, de Caim e Abel, da Torre de Babel. Tudo isso são histórias que estão antes do tempo e, portanto, não conseguimos localizar numa cronologia e não são históricas nesse sentido estrito. A história da Arca de Noé, que nos ocupa hoje, é também um ponto comum, podemos aprofundar isso mais à frente com outras culturas, e começa com esta introdução um bocadinho estranha. Estranha neste sentido em que nos aparecem aqui estes filhos dos deuses com filhos dos homens. Parece-nos mais uma história grega, da mitologia grega, do que propriamente algo que estamos acostumados a ver na Bíblia. E mostra-nos que também há aqui alguma contaminação com elementos de outras culturas, que o autor bíblico e que esta tradição bíblica, que também não sabemos muito bem identificar, mas nos livros, nos comentários, nos livros mais da especialidade, falarão aqui de uma tradição já vista, portanto, um certo tipo de fonte destes textos mais antigo, mas ainda assim poderá ser algum resquício mitológico e, de certa forma, politeísta. É interessante que nós olhemos pra Bíblia como um livro Essencialmente monoteísta, mas aqui e acolá há indícios de uma outra forma de olhar para a divindade que não é do estrito monoteísmo que depois se vai impor.

Que é antes de

E aparece na história de Job, que já falámos, numa espécie de corte celestial, também noutros lugares. E este é um dos sítios onde se nota esse tipo de interferências que não são propriamente depois purificadas completamente na edição final da Bíblia.

Não sei é possível situar, estamos a falar de um texto que foi escrito mais ou menos quando? É possível encontrar uma...?

É sempre muito difícil dizer isso. Até porque o próprio conceito de escrita não é o colocar por escrito, mas perceber há quanto tempo é que isso, por exemplo, sobrevive em tradições orais.

Que essa narrativa se foi consolidando.

Sim, mas por exemplo, esta tal tradição, estes textos ditos javistas, em meados do século XX ainda se estava bastante seguro em colocá-los numa espécie de continuidade da corte de Salomão. Hoje a tendência é colocá-los um bocadinho mais tarde. Mas sim, século nono, oitavo, sétimo.

Exato.

Não é do século I. Portanto, já são antigos, já serão de um extrato redaccional mais antigo dentro destes textos.

Muito bem. Estávamos justamente a falar desta ideia de que a história da Arca de Noé começa a apresentar-nos a humanidade a transgredir as regras. E é justamente aqui que surge esta ameaça da destruição com um dilúvio. A certa altura, Deus diz que o homem é carne e não pode ser como Deus. Até determina que o homem vai viver um tempo limitado, que é 120 anos. Nós vínhamos de uma linhagem de personagens que viviam muitas centenas de anos. Isto também é uma forma de encontrar uma explicação literária para uma fatalidade da vida que é a nossa finitude, a limitação da nossa vida?

Se calhar, antes de responder directamente à tua pergunta, para aqueles que estão a ouvir este episódio e é o primeiro episódio das Histórias da Bíblia, se calhar podem ficar chocados ou preocupados, porque há aqui dois padres a dizer que são textos míticos. Se estão preocupados com isso, não se preocupem, mas vão ouvir o primeiro episódio da primeira temporada, se calhar, ou até o primeiro da segunda, e isso é mais esclarecido. Não queremos que ninguém vá fazer queixa de nós à Santa Inquisição.

As palavras também se contaminam. Mítico, não estamos a dizer que isto é tudo mentira, uma invenção. Mito enquanto categoria literária não diz uma mentira, não é como dizemos nas pessoas: "Isto é um mito", que significa isso não é verdade. Não, isto são textos que falam de uma verdade que se exprime de um outro tipo de forma.

Através de uma história.

E portanto, pegando nisso, esta ideia também que pode parecer que Deus aqui está de novo, como no início do Gênesis, a competir com o ser humano e a dizer: "Tu não vais ser como eu", é aliás, isso que a serpente diz a Adão, acho que precisa de ser um bocadinho ampliada. Nós quando olhámos para a história, percebemos que os próprios seres humanos estavam a repetir aquele gesto de posse que Caim já tinha feito, que Adão e Eva já tinham feito, e por isso Deus, de certa maneira, o que faz é perceber ou deixar a entender que ser como Deus não é exercer o poder de maneira ilimitada. Já falámos isto várias vezes. O Gênesis tem uma estrutura muitas vezes narrativa, que é uma repetição, estilos literários muito sequenciais. Vamos ver isso no próximo episódio com José. E parece que aquilo que Deus está a querer deixar a entender várias vezes nestes ciclos é de que o poder ilimitado não significa ou não é igual a Deus. Aliás, Deus é aquele que limita o seu próprio poder para que o outro possa existir, que se dá a ele próprio. Nessa questão da longevidade, realmente, há essa intuição de que é uma forma de regressão da longevidade humana, dado que a humanidade parece que desperdiça as suas possibilidades. Mas também é preciso ver que depois do dilúvio, a humanidade vai voltar a viver mais anos que os ditos 120. Portanto, não vai igualar Matusalém, que fica assim uma espécie de marco bíblico, mas acima de tudo aqui a finitude da vida também é uma forma de marco ético que quer relembrar a própria finitude que no paraíso foi dada a Adão e Eva como sinal de dom e de bem.

Só que um aspecto, só pra recuar um minuto. Esta ideia de transgressão humana como causa da punição divina é uma maneira do texto também evitar aquela pergunta difícil que é estes grandes cataclismos, este dilúvio e estas outras grandes crises lançadas por Deus contra a humanidade não são um mero capricho de Deus. Porque é fácil interpretar a coisa dessa forma.

Mas é como também o Daniel dizia logo na primeira resposta. Nós estamos aqui diante de um texto que às vezes paga um preço por ser assim. E essa interpretação é possível, não parece que seja a mais linear e até contextual dentro daquilo que nós temos até do próprio livro. Agora, realmente que existem aqui traços de uma imagem de Deus, uma imagem de transcendência e divindade que são diferentes daqueles que acabaram por se impor com o tempo, é verdade, e isso é um preço que o texto paga, mas para transmitir uma mensagem que não é essa.

Muito bem, vamos então entrar na narrativa propriamente dita, Daniel. A dada altura, lemos que Deus vê que a maldade do homem é muito grande, até é dito, por exemplo, que Deus se arrepende de criar o homem e decide exterminar toda a gente, até os animais, que não são sujeitos capazes de pecar Porque é que Deus decide exterminar toda a vida da Terra a dada altura?

Nestes capítulos de Gênesis 1 a 11, há também uma espécie de crescendo depois da criação em sentido mais estrito. Nestes textos nós falamos da criação do universo, da criação do homem e da mulher. Vemos que há aqui um crescendo da humanidade, que vai crescendo, se vai multiplicando, que se vai desenvolvendo, mas também se vai afastando dele. E, portanto, a questão da culpa passa de ser só de um homem e de uma mulher para ser de uma sociedade. E este texto do dilúvio é uma espécie de reset coletivo, como que dizendo: "O homem, a humanidade entregue a si próprio descamba e, portanto, é preciso recomeçar, fazer este tal reset para introduzir Deus melhor nesta equação". E, portanto, o mal quase como uma espécie de contaminação que vai multiplicando e infectando a humanidade, que chega a este ponto. Mas é interessante que já falámos que este texto tem paralelos com textos de outras civilizações e mais antigos, na Suméria, na Babilônia. Nesses textos, que são claramente politeístas, os deuses são mais caprichosos. Nestes relatos de Gênesis, o castigo é por motivos mais levianos, porque a humanidade faz muito barulho, porque não deixa os homens dormir, convenientemente. Enquanto em Gênesis 1 a 11, há um caráter ético muito mais marcado. O mal é sempre fruto de más decisões, da liberdade mal utilizada por parte do homem.

Todos os seres humanos e animais acabam por receber a punição do extermínio, que vai ser aplicado com o dilúvio, exceto Noé, esta personagem que nos aparece aqui, que a dada altura é avisado por Deus de que isto vai acontecer e é encarregado por Deus de construir uma arca, uma espécie de um navio ou quase um submarino, para ele e para a família, e ainda para salvar um macho e uma fêmea de cada espécie de animais. Estamos a chegar ao final da primeira parte, mas talvez ainda valha a pena olharmos para isto. Que papel é que tem aqui esta personagem, Noé? Sabemos que ele era um homem justo e íntegro, isto é nos dito, mas era o único justo e íntegro do mundo?

Noé é apresentado de maneira excepcional, mas depois do dilúvio, Noé continua a fazer as mesmas patranhas que a humanidade fazia antes. Ou seja, o dilúvio é um reset, mas também não é um reset a 100%, porque Noé vai matar os animais a seguir, vai ser apanhado bêbado e nu na tenda pelas filhas.

Já lá iremos.

Já lá iremos. Mas se calhar aqui só dois pontos. Primeiro, o facto de Noé não ser salvo sozinho. O que é salvo é uma teia de relações. Às vezes associamos essa ideia de salvação a uma coisa individual e não acontece. Noé é salvo com a família. Isso também é uma lição para nós, de certa maneira, nos dias de hoje, que é: uma só pessoa pode salvar a humanidade inteira. Não é por acaso que Emmanuel Levinas desenvolveu toda aquela teoria da alteridade do rosto do outro, mas também a ideia de que embora no exterior da arca tudo pareça um caos, dentro da arca a ordem da criação permanece com aquelas divisões claras e regras, até a nível alimentar, que remetem para o início da Bíblia.

Muito bem, nós já voltamos para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos continuar a olhar para a história do dilúvio e perceber como é que a arca permitiu reconstruir a humanidade. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre o episódio do dilúvio e da arca de Noé. Daniel, esta história, e tu falavas disso na primeira parte deste nosso episódio, esta história de um grande dilúvio e de um herói que constrói uma arca para sobreviver, na verdade, não é inédita da Bíblia. O paralelo mais conhecido será o do "Épico de Gilgamesh", que tem realmente paralelos conhecidos com os textos bíblicos. É um poema muito conhecido da época da Mesopotâmia. Não sei se queres explicar-nos um pouco que texto é este e os paralelos com esta história do dilúvio.

Sim, durante séculos pensou-se que isto era algo único da Bíblia, mas depois, com a descoberta do antigo Próximo Oriente, basicamente século XIX, as expedições de Napoleão no Egito descobriram umas coisas irrelevantes, a Pedra de Roseta, os ingleses na Mesopotâmia, na Babilônia, onde hoje é o Iraque, sobretudo, fizeram uma série de descobertas de textos em tabuinhas de argila, inscrita cuneiforme, ou seja, uma inscrição, uma espécie de cunha, que são os textos que eram utilizados nessa altura na Suméria, na Assíria, na Babilônia, nesses lugares que são o berço da civilização. E qual foi o espanto quando se conseguiu finalmente decodificar isso, que foi um processo que demorou algumas décadas. Podemos imaginar estes exploradores a descobrir coisas que supunham que eram textos, mas de uma língua desconhecida, que não sabiam bem o que é que diziam. Até há um episódio muito curioso que um tal George Smith, em Londres, no Museu Britânico, que foi um destes primeiros a tentar e a conseguir decifrar os textos em 1872, e portanto já mais para os finais do século XIX, já na segunda metade, foi o primeiro a ver uma destas tabuinhas que fazem parte deste tal "Épico de Gilgamesh", que referiste, que conta uma história Não é em tudo igual, mas muito semelhante ao dilúvio, com um dilúvio universal, Deus a escolher um homem e a sua família para escolher representantes dos animais, para construir uma arca, para depois libertar umas aves para dar o sinal de quando aquilo está pronto ou não, quando podem sair da arca, com oferta de sacrifícios no final. Este tal George Smith, de tal forma entusiasmado por ser este primeiro a ler depois de milênios. Estes textos são anteriores à Bíblia. Estes textos mesopotâmicos, do épico de Gilgamesh. Há umas versões que são cerca do ano 2000 antes de Cristo, outras de alguns séculos posteriores, mas de qualquer forma são textos bastante mais antigos. As versões mais antigas. Depois há várias intermédias. Conseguiram ler. Conta-se que ele terá andado pelos corredores a saltar e até a tirar peças de roupa. Quase podemos imaginar o senhor a ficar seminu, de tal forma entusiasmado com esta descoberta. E isso provocou uma grande revolução nos estudos bíblicos e permitiu perceber que há aqui uma intuição, um dado cultural transversal que passou em várias culturas e que mostra que cada uma destas culturas tem esta ideia deste refazer da humanidade. Gilgamesh é um rei de Uruk, no Iraque, parece um personagem inventado por Tolkien, mas não. Uruk é mais ou menos de onde vem também Abraão, portanto no sul do Iraque. É já de si uma personagem parte humana, parte divina, que vai numa demanda da vida eterna. E mesmo aqueles textos do Gênesis, da questão da árvore da vida, há aqui vários paralelos que os especialistas depois foram conseguir estabelecer. No fundo, há vários paralelos, mas depois a literatura bíblica, em particular este episódio da Arca de Noé, tem especificidades monoteístas, digamos, bíblicas, de uma certa novidade bíblica em relação a isso. E há aqui uma dinâmica de continuidade, mas também de novidade.

O povo que escreveu este texto da Arca de Noé, obviamente, teria noção, conheceria essas histórias. Muito bem, João, o dilúvio dura 40 dias e 40 noites, toda a Terra fica coberta de água, tudo é exterminado, até que no fim resta apenas aquela arca solitária a boiar à tona da água. E finalmente Deus manda as águas descer. Surge então aqui um momento bastante curioso desta história. Noé tenta saber se já está tudo seco ou não, abre uma janela, manda uma pomba, aquela história em que a pomba vai e vem várias vezes. Primeiro volta porque não encontra onde pousar, depois volta com um ramo de oliveira no bico, quer dizer que as árvores já estavam à vista, e depois na terceira vez já nem sequer volta, quer dizer que já encontrou onde pousar. E é aí que Noé abre a arca, saem todos, ele faz um altar, faz novos sacrifícios. Ajuda-nos um bocadinho a ler este momento. O que significa este momento da saída da arca? No fundo, é uma espécie de restaurar da relação entre Deus e a humanidade? Aquela aliança entre Deus e a humanidade tinha sido posta em causa e é reconstruída a partir desse momento?

Primeiro, se calhar precisar que o dilúvio não dura propriamente 40 dias. As 40 dias, 40 noites são as chuvas, depois as águas permanecem 150 dias e o processo todo, se nós fôssemos aqui fazer um calendário, demorava quase um ano.

Pois é, as águas vão baixando devagarinho.

Também não é assim, é preciso a modinha. O próprio texto também é uma mistura de versões diferentes, e portanto também é difícil perceber no texto qual é a duração. Esta é a cronologia adjetivação. Mesmo assim, apesar de ser mitologia, mitos.

Há que fazer as contas.

Não é modinha. O sacrifício que falaste, que sucede esta saída da arca, precisar só que Noé antes de mandar uma pomba, manda um corvo, e esse só faz uma viagem, a pomba é que faz três. O sacrifício é um bocadinho ambíguo, porque Deus não o pediu. É um bocadinho contraproducente, porque os animais foram preservados para que a humanidade pudesse continuar e a natureza pudesse continuar. Saem da arca e são sacrificados, parece um bocado contraproducente. Noé nunca tinha feito nada na arca semelhante e Deus já tinha parado as águas, não precisava daqui de alguma coisa para ficar mais sossegado, se tivesse que ficar sossegado. Aliás, Deus quando vê o sacrifício, a certa altura, diz que o coração dos homens não está purificado e que desde a juventude têm uma inclinação má. Parece aqui qualquer coisa que às vezes é difícil de perceber, muito embora se possa entender que há aqui uma influência da ideia de que o sacrifício é também oferecer do melhor que foi preservado ao próprio criador. Se calhar um ponto interessante, esta ideia do arco-íris, que aparece em muitas representações, até naqueles livros da Bíblia para crianças. Arco-íris em hebraico, eu espero que o professor não me desminta, é a mesma palavra que se usa para arco de guerra. Parece ser uma certa indireta de Deus. A humanidade foi salva da violência e Deus coloca um arco-íris, que é a mesma coisa que arco de guerra, como dizendo que ele renuncia à violência, transformando essa arma num sinal luminoso

Isto é uma interpretação que pode correr o risco de ser muito psicologizada.

Mas essa é a história que também procura explicar a origem do arco-íris.

Do arco-íris.

Depois das chuvas.

Sim, que aparece depois das chuvas e depois vem a história dos duendes e do pote de ouro, que aqui não aparece. Não há pote de ouro no final do arco-íris.

Daniel, depois do dilúvio, parece haver uma espécie de repetição do relato primordial da criação, em que Deus dá a Terra ao homem pra que ele cuide, dá lhe os alimentos, diz-lhe pra cuidar da Terra. Há realmente esta história que o João mencionava do arco-íris. Podemos olhar pro pós dilúvio como um recomeço da história? É isso que esta narrativa procura fazer?

Sim, até estava aqui a olhar pro texto. Por acaso não sei de onde é que vem o íris. O texto bíblico falava de arco, daí estes paralelos que o João fazia entre o arco, tradicionalmente, um instrumento de guerra. O íris não sei exatamente de onde é que vem.

Se bem aqui fala do arco.

Que forma um sinal visível desta aliança.

É o arco de Deus. Deus diz que pôs o seu arco no céu.

Há aqui, de fato, um recomeço, mas não a partir do mesmo ponto. Há uma progressão, por exemplo, na dieta alimentar. Se formos ver os primeiros relatos, os primeiros capítulos do livro do Gênesis, Deus dá ao homem a erva pra comer. Portanto, é um homem vegetariano. Agora, depois da transgressão, depois do dilúvio, Deus já coloca os animais à disposição, mas não o sangue dos animais, porque o sangue representa a vida. Isto depois é levado de forma um pouco mais extremista ou fundamentalista por outro tipo de correntes, que se recusam a fazer transfusões de sangue ou comer carne vermelha. Mas aí é o valor do sangue como símbolo da vida. E depois também há aqui uma espécie de proporcionalidade. Não é bem esta lei de talião, mas há uma espécie de proporcionalidade na ação do homem contra o outro. Um homem que é responsável pelo sangue e pela vida do outro. E depois há um renovar destas bênçãos da criação, deste "crescei e multiplicai-vos". Mas aqui eu acho que o sacrifício é essencial, porque até na comparação com os outros textos míticos, mitológicos da Babilônia Antiga e da Suméria, este tal sacrifício é uma espécie de apaziguamento da divindade, que cheira o aroma dos sacrifícios e fica mais calmo. Aqui não é bem isso, porque o retrato de Deus que encontramos aqui não é tão caprichoso quanto desses relatos mais antigos, mas ainda assim, o sacrifício que Noé oferece a Deus, como vemos depois nesta teologia dos sacrifícios no restante Pentateuco e no restante Antigo Testamento, é muito da criação de uma relação e da comunhão com Deus, com a divindade. O sacrifício é uma espécie de estar à mesa com Deus, de uma refeição partilhada com Deus. Isto pra nossa sensibilidade religiosa, muito baseada no Novo Testamento, é mais estranho, mas marca aqui uma ideia da comunhão com Deus, que facilmente menosprezamos, mas que tem um sentido religioso importante. Eu dizia há pouco que estes textos, como temos na Bíblia, são fruto de duas grandes tradições, uma talvez mais antiga, que eu referi há pouco por já vista, também alguns textos de tradição sacerdotal, que enfatizam a importância, por exemplo, dos sacrifícios. Tanto que há aqui incongruências claras no texto. O João falou de um par de animais, enfim, um de vocês referiu que a instrução de Deus é levar um par de animais, mas depois uma joinha mais à frente, não é um par, são sete pares.

De alguns animais.

Sim, porque há uns que têm que ser sacrificados pra continuar a alimentar esta relação com Deus.

O Daniel estava aqui a tocar no sentido religioso desta história e basta, no contexto católico, por exemplo, irmos a um batizado pra ouvir referências às águas do dilúvio, que são também uma imagem do batismo. João, que ressonâncias é que este episódio bíblico vai ter na história do cristianismo e no pensamento cristão?

São Pedro, na primeira carta de Pedro, há uma referência direta. São Pedro, pelo menos a nível textual, é aquela primeira pessoa que relaciona o dilúvio com a ideia de batismo. Mas a figura de Noé também é referida nos evangelhos, os dias de Noé, por exemplo, são muitas vezes referidos. E depois também em Hebreus, na Epístola aos Hebreus. Os primeiros pensadores cristãos também fizeram esta relação. Tertuliano, que é um pensador cristão dali do norte da África, referiu o dilúvio como uma espécie de batismo do mundo. E Santo Agostinho, que é uma das grandes cabeças do mundo ocidental e não ocidental, viu na ideia da arca a figura de Cristo e da Igreja. A ideia da madeira ligada à cruz, a porta lateral como ao lado aberto de Jesus na cruz, a travessia das águas da arca como a Igreja também atravessa o mundo. Claro que Santo Agostinho tinha esta leitura alegórica da Bíblia, pegando a porta lateral que Noé abriu para a pomba e o corvo saírem, são o lado aberto. Claro que pra nós, pra nossa sensibilidade um bocado mais histórico-crítica Racionalista, custa-nos um bocado este tipo de interpretação. Ainda assim, se calhar três pontos. Acho que não devemos confundir imediatamente o sentido original com a interpretação cristã. Acho que há uma possibilidade de nós percebemos que não são linhas coincidentes. Depois, acho que há um perigo de a arca ser interpretada como uma espécie de grupo restrito que se salva. Quando nós vemos aqui, há bocado disse efectivamente que Deus, depois dos sacrifícios, diz que os homens têm o coração inclinado para o mal desde a juventude. Isso é verdade, mas anteriormente Deus diz que nunca mais amaldiçoará toda a humanidade. Portanto, a arca não é só o símbolo de uma elite que se salva, é um símbolo universal de salvação. Terceiro, também acho que devemos ter atenção que isto não é a ideia de que se eliminam os maus e salvam os bons, porque já vimos na questão de Noé e veremos, se calhar, um pouquinho mais à frente, que não é propriamente isso que acontece. O próprio texto parece contradizer esta ideia de um reset total em que o mal nunca mais existe. Portanto, às vezes precisamos ter um bocadinho também de cuidado com a forma como reinterpretamos o texto.

Mas talvez a pergunta seja, tal como o pensamento cristão considera que o batismo é necessário, até para a salvação. Olhando para esta narrativa que procura dar uma representação de Deus, o dilúvio, com a consequência que tem, que é exterminar toda a humanidade e toda a vida, era necessário para a salvação do mundo?

Acho que quando se coloca aqui a questão do necessário, não é propriamente a palavra com a qual me sinta mais confortável. Claramente que aqui o texto tem uma modalidade narrativa, não estamos a falar de algo necessário, como é necessário um prego para montar uma estante. Acho que são coisas diferentes.

É um caminho.

Sim, a linguagem é um bocado piedosa.

Sim, acho que não é tanto partir daí, mas perceber que a Bíblia, o Antigo Testamento, oferece linguagem, categorias de interpretação daquilo que é o evento Jesus Cristo. Ou seja, os cristãos, após a morte e ressurreição de Jesus, vão ler nas escrituras, por exemplo, a figura do tal servo sofredor de Isaías para interpretar, para dar significado ao que aconteceu na cruz. E também estes textos que no fundo são uma espécie de ajuda à leitura de coisas essenciais e, neste caso, o paralelo é interessante. O dilúvio representa destruição, o batismo tem esta dimensão de destruição, de destruição do mal. Mas não podemos levar assim tão à letra, senão quase dizíamos: aqui no livro do Gênesis, Noé é o único bom.

E vai destruir todos os maus.

Aqui não foi batizado.

Era a tal pergunta: do Este tinha então que ser o único homem justo e íntegro para ser o único que merecia a salvação?

Claro.

Vocês já disseram que não na primeira parte.

E é bom relembrarmos, não se trata de figuras históricas. E infelizmente ainda basta procurar qualquer documentário, ainda há muita gente à procura da madeira de uma arca que terá ficado pendurada no alto de uma montanha como se fosse um evento histórico descrito. Isso é uma visão empobrecedora e redutora disto.

Daniel, vamos então, para encerrar o episódio, vamos encerrar também com aquilo que é a vida de Noé depois do dilúvio e da história da arca e da salvação. O João há pouco já antecipou um pouco essa história. Encontramos a dada altura Noé com os seus três filhos e o famoso episódio da bebedeira. Noé também parece que era um produtor de vinho, tinha a sua própria vinha.

Foi o primeiro.

Enólogo, exato. Embebeda-se a dada altura, bebe muito vinho, embebeda-se, despe-se, fica todo nu, caído no chão. E depois há um dos filhos dele, que é o Cam, que vai dizer aos irmãos que o pai estava naquele estado e os irmãos voltam, os irmãos do Cam vão tentar cobri-lo com um cobertor. Mas a história é assim muito bizarra, porque eles vão de costas para não olharem para ele. E depois Noé irrita-se imenso porque o Cam foi dizer. Enfim, para que serve esta história no final do episódio? Há aqui pelo menos algumas pistas que têm a ver com as genealogias de cada um destes filhos.

Sim, vai muito na continuidade com outras que já lemos anteriormente. Um leitor que queira ver estes capítulos de seguida, que não são assim muitos, perceberá claramente que amiúde aparece: o fulano tal foi o primeiro a fazer tal coisa. O primeiro a fundar uma cidade, o primeiro a tocar um instrumento musical, o primeiro pastor. E, portanto, há toda aqui uma tentativa de explicar as várias origens da civilização e das coisas da civilização. E, portanto, aqui Noé foi o primeiro a plantar a vinha. Enfim, não um enólogo, que esses não bebem muito. Provam.

É um viticultor.

E, portanto, também para explicar essa realidade conhecida e basilar no tempo da escrita, no tempo da vida, da cultura bíblica. Portanto, por um lado, isso, tentar explicar as origens e, por outro lado, explicar também a história. Os filhos de Noé, que depois nos capítulos a seguir, sobretudo no capítulo décimo a seguir, há aqui uma grande genealogia, mostrar três grandes ramos, que não são propriamente científicos e históricos, mas tentam, de acordo com o mundo de evidência do tempo, dividir entre os filhos de Cam, que no fundo são os, entre aspas, maus. Daí Cam ser o que se portou mal, porque não respeitou a nudez do pai. Esta questão da nudez do pai tem sempre umas conotações, às vezes, um bocadinho sexuais ou, de certa forma, uma certa transgressão. Portanto, Cam transgride e são os maus, os cananeus, outros maus. O Jafete, que é um dos filhos, dá origem aos povos basicamente da Europa, e Seme, dos povos semitas, que será o povo de Israel.

Vão ser então o grande antepassado desse povo de Israel. Muito bem, fica por aqui o primeiro episódio desta terceira temporada de Histórias da Bíblia. No próximo episódio vamos falar de outra personagem muito importante dos primórdios bíblicos, o patriarca José, o primeiro a chegar ao Egito. Até para a semana. E já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Despedimo-nos aqui. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

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