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Sunday, September 27, 2026

Após sucesso de projeto no Vale do Ribeira, em SP, biólogos estudam jiboia mais rara do mundo

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Era outubro de 2016 e, após um trabalho intenso de comunicação com moradores, a espera valeu a pena. "Olha, tem uma cobra aqui que acho que é a que vocês estão procurando". O aviso chegou até Bruno Rocha, 43, biólogo e cofundador do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR).

Era o primeiro exemplar vivo da jiboia-do-Ribeira (Corallus cropanii) encontrado em mais de 60 anos, desde a descrição da espécie, em 1953, pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan. A cobra foi encontrada em uma área rural do município de Sete Barras, na comunidade Guapiruvu, e batizada de Dona Crô (a escolha do nome veio de um menino da região).

De coloração que mescla ventre amarelo com padrão triangular de escamas dorsais negras e marrons, a jiboia-do-Ribeira é uma serpente não peçonhenta da família dos boídeos, a mesma das jiboias e sucuris. De hábitos arborícolas, ela é endêmica da mata atlântica da região do Vale do Ribeira, que engloba 22 municípios no sul do estado de São Paulo.

A raridade do réptil se dá também pelas ocorrências que se sucederam após a descrição de Hoge. "Foram encontrados apenas seis outros espécimes de 1953 até 2016, todos mortos. De 2016 para cá, com as nossas ações na região, foram 20 novos registros", relata Daniela Gennari, 37, outra bióloga por trás do projeto e técnica da Coleção de Herpetologia do MZUSP (Museu de Zoologia da USP).

Os novos registros podem elucidar algumas questões relacionadas à biologia do bicho. Pouco se sabe sobre a maturação sexual, número de filhotes por gestação ou até dados ecológicos de atividade. "Nós sabemos que são serpentes que passam quase todo o tempo no topo de árvores, e se deslocam lentamente, tanto nas copas quanto no chão. Mas não sabemos o que faz elas descerem", explica Gennari.

A Dona Crô foi monitorada com um aparelho de radiofrequência em seu corpo, mas quando a bateria acabou, o monitoramento foi encerrado. A expedição inicial e o aparelho de rastreamento tiveram apoio de projeto coordenado pela curadoria da Coleção de Herpetologia do MZUSP.

Uma outra fêmea, batizada de Esperança, também foi encontrada em Guapiruvu durante a pandemia de Covid-19, seguida de outros três indivíduos: o macho Ribeiro, uma fêmea "idosa", Juquiá, e um macho jovem sem nome, acompanhado dentro de uma área natural. Estes achados, feitos por moradores, revelam o que décadas de esforços de coleta por pesquisadores não conseguiram localizar.

"Esta é a potência da educação ambiental que o projeto traz. Por conta das ações de comunicação e educação ambiental no território as pessoas começam a se indagar ‘será que é [a cobra]?’", diz Rafael Guimarães, diretor técnico da Preservalle, uma empresa de soluções ambientais da região e também parceiro do PJR.

O Vale do Ribeira é uma das que guardam a maior área remanescente de mata atlântica no estado. A região, porém, é pressionada pela devastação e aumento da atividade humana, principalmente agrícola e construção de rodovias.

E é justamente aí que entra o trabalho do PJR, que contou com a ajuda da comunidade para não apenas encontrar novos indivíduos de C. cropanii, mas também acabar com o medo da população frente à espécie, classificada como ameaçada de extinção na Lista Vermelha da Fauna.

Um desses medos era associado à semelhança dessa jiboia com a jararacuçu (Bothrops jararacussu), espécie peçonhenta comum na região. A característica mais marcante da C. cropanii, ausente na jararacuçu, são as fossetas labiais, "furinhos" na região da boca.

Após dez anos de atuação, hoje parte dos moradores da região reconhecem os animais e avisam os pesquisadores quando eles aparecem.

Esta combinação rara de uma ciência cidadã com a mobilização social é o que fez do PJR um caso de sucesso, diz Nondas Okiama, da ONG Instituto Conservação Brasil. O PJR agora integra o Conservação Brasil com o objetivo de ter maior segurança jurídica e ajuda na obtenção de recursos financeiros. Em contrapartida, a ONG pretende expandir as ações do projeto para todos os municípios que hoje fazem parte do Vale do Ribeira, tornando a jiboia-do-Ribeira espécie símbolo da região.

"O que chama a atenção no projeto deles é que uma espécie distante do que chamamos comumente de ‘fofofauna’, animais bonitinhos com os quais as pessoas se identificam. É o primeiro projeto de conservação do Brasil, de que tenho conhecimento, com uma cobra como espécie-símbolo", diz o ambientalista.

Por serem predadoras de topo, as serpentes são pressionadas por mudanças ambientais. Preservar a jiboia-do-Ribeira, portanto, mantém o ambiente saudável, garantindo a conservação de outras espécies.

Thiago Barbosa, produtor rural e dono da fazenda onde foi encontrada a Juquiá, que agora está sob cuidados temporariamente no Instituto Rio Itarari, em Pedro de Toledo, diz esperar que mais competências públicas se engajem no movimento de conservação da espécie e demais animais na região."

É muito importante que eles [pesquisadores] venham aqui, mas acredito que o intuito era a gente fazer um trabalho junto ao pessoal [das comunidades] se conscientizarem da importância da gente preservar", diz.

Procurado, o estado de São Paulo, por meio da Fundação Florestal e da Divisão de Biodiversidade e Biotecnologia, ambos ligados à Semil (Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística), disse que desenvolve ações voltadas à conservação da biodiversidade e dos habitats naturais no Vale do Ribeira, região que abriga a jiboia-do-Ribeira. Afirma também que esta estratégia contempla pesquisas e monitoramento de indivíduos em vida livre.

Para os próximos dez anos do projeto, Gennari diz que o maior desafio é a obtenção de recursos, que são escassos desde o início, frequentemente tirados do próprio bolso. "Esperávamos, nestes dez anos, ter mais resultados, tanto científicos quanto socioambientais, mas já vimos a transformação na relação das comunidades com a cropanii. Esperamos crescer ainda mais nos próximos dez", completa.

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