'Serra Pelada, 1986': imagem de Sebastião Salgado marca homenagem da RFI aos 200 anos da fotografia
Já a redação romena escolheu uma imagem que não pertence à guerra nem à política, mas à ideia de perfeição: Nadia Comaneci em Montreal, 1976, no instante em que o placar eletrônico, incapaz de registrar o primeiro 10 da história olímpica, exibiu um "1.00". A fotografia, que captura a serenidade quase impossível de uma adolescente diante de um feito que reconfigurou o esporte mundial, lembra que a busca humana por excelência também é documento histórico.
A redação chinesa retorna à figura solitária do manifestante diante dos tanques na Praça da Paz Celestial, em 1989, lembrando que a imagem continua sendo uma das poucas formas de memória pública sobre um episódio que o Estado tenta apagar. A redação de língua espanhola revisita a imagem icônica de Che Guevara feita por Alberto Korda, talvez o retrato político mais difundido do século 20, destacando como a fotografia pode transformar um indivíduo em símbolo global de resistência - e de consumo pop.
Nesse conjunto composto por 18 imagens, a escolha brasileira de Serra Pelada se insere com naturalidade: cada redação da RFI procurou trazer uma ferida, uma revelação ou um ponto de ruptura imortalizado pela fotografia, e a cratera amazônica de Salgado dialoga com todas elas ao expor, sem filtros, a engrenagem humana que sustenta a história da modernidade. A escolha brasileira sintetiza temas que permanecem atuais como desigualdade, exploração, impacto ambiental, economia globalizada e a persistência de formas de trabalho insalubres.
A última entrevista que Sebastião Salgado concedeu à redação brasileira da RFI, em março de 2026, aconteceu durante a retrospectiva no centro cultural Les Franciscaines, no norte da França. Ali, o fotógrafo se emocionou, revisitou sua trajetória, e refletiu sobre ética, memória e responsabilidade, discutindo o papel da fotografia documental num mundo saturado de imagens.
"O dia mais feliz da minha vida foi quando completei 80 anos... Simplesmente porque eu estava aqui. Eu não estava morto. Quantos amigos perdi, éramos todos amigos durante quatro anos em Goma [,na República Democrática do Congo], quatro fotógrafos foram assassinados, eu estava lá. Então para mim, estar vivo com 80 anos, é um privilégio enorme", confessou o artista brasileiro na abertura da retrospectiva, dois meses antes de sua morte, em 23 de maio de 2025.
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