Sexto disco de Glockenwise recupera "guerra do caulino"

O sexto disco da banda Glockenwise, Vale tudo para chegar a algum lado, é lançado quarta-feira e reflete sobre um momento presente em que “o futuro não tem devir”, aproveitando a chamada “guerra do caulino” para a reflexão.
“Nós crescemos um bocadinho com isto na consciência, era uma coisa que estava na ordem do dia ainda que tenha acontecido ainda antes de nascermos. […] Era costume, até ao início dos anos 2000, passar pelas [Estradas] Nacionais em direção a Barcelos e verem-se faixas pintadas a preto, da luta popular”, recorda o vocalista Nuno Rodrigues, em entrevista à Lusa.
Segundo o músico, autor das letras do novo disco que sai pela editora que a própria banda criou, Vida Vã, esse conflito em torno de terrenos para explorar o minério caulino que envolveu o povo de Barqueiros, em Barcelos, acabou por ser “redescoberto” para um álbum que não é sobre esse evento, mas que tem essa “âncora para tratar uma série de temas que são relevantes” pela banda barcelense.
“Há aqui uma ideia de ciclo eterno, de que estamos sempre à espera que chegue algo, […] mas se olharmos para o passado recente, vemos sempre os mesmos agentes, as mesmas peças em cima do tabuleiro, as mesmas tensões. A ‘guerra do caulino’ acaba por encapsular muito bem isto, porque temos paralelos deste universo de forma muito evidente hoje, como as questões relacionadas com o lítio, no Barroso, e a resistência popular a esse tipo de exploração”, reflete.
Para Nuno Rodrigues, o lado cíclico repete-se: “O Estado, a iniciativa privada, a população local, o governo local”, ficando a faltar “saber quem é que vence o jogo”, e “até ao momento não parece que tenha sido a sociedade a vencer”.
Ao longo de nove faixas, esta reflexão sobre impotência, futuro e presente, destino e ação política vai-se desenrolando, seguindo na linha de uma banda a editar discos há década e meia.
“É fácil traçar uma série de interesses que temos enquanto artistas, mas também os nossos desenvolvimentos pessoais, e a música acaba por refletir isso. Quando éramos mais novos, se calhar, os discos apontavam totalmente ao futuro, a ideia de querer sair, ir, fazer, fugir a um certo tédio. E as coisas, agora, estão a tornar-se um bocadinho mais filosóficas e inquietantes”, diz Nuno Rodrigues, que aos 36 anos diz estar “no sítio em que deveria saber para onde é que a vida vai”.
Essa “idade de charneira”, a que “os americanos chamam o ‘rush hour of life'”, ou a hora de ponta da vida, surge aqui como conceção temática, porque identificam uma “falta de resposta coletiva”, e o álbum oferece “muitas perguntas”, mais do que respostas.
Cresceu a aprender a reciclar na escola, e havia “uma ideia qualquer de fim da história”, de que foi campeão Francis Fukuyama, e que estava “comprovadamente errada” mas em que se intuía um mundo em que o muro de Berlim tinha caído, que algo “melhor estava mesmo ali ao virar da esquina”, um mundo a herdar pelos mais novos que revelou ser apenas uma “fantasia que não se verificou”.
“Neste estado transitório constante, neste devir constante, fica a sensação de que há algo por cumprir e que ninguém nos está propriamente a preparar para o que vem aí. Devia haver alguma coisa melhor. Ou não devíamos já estar num sítio melhor? Parece que todos os dias estamos num pior. E, portanto, tudo isto não oferece grandes respostas. […] Sinto que agora, sim, estou na idade dos porquês”, atira.
No sentido instrumental e musical, Vale tudo para chegar a algum lado serve como “súmula do último ciclo” de criação, incluindo Plástico, em 2018, e Gótico Português, em 2023.
[Outubro de 1965. O diplomata suíço Raymond Quendoz espera pela mulher na pista do aeroporto de Havana, mas a portuguesa Annie Silva Pais simplesmente não aparece. O desaparecimento dela vai dar origem a um mistério de dimensão internacional que vai mobilizar o responsável da CIA em Cuba, o chefe dos serviços de segurança suíços, o mais alto representante de Portugal no país, e até Salazar e Fidel Castro. Porque Annie não é só casada com um diplomata suíço. Também é filha de um dos homens mais importantes do Estado Novo, Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE. Já estreou “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
“Tem algumas das músicas mais sofisticadas que já fizemos, tem outras que, se calhar, são fora do território habitual, uma música que é fundamentalmente só guitarra acústica e voz. Portanto, não fazemos música experimental, mas experimentámos dentro do que é esperado, canonicamente, ser Glockenwise”, explica.
Ao vivo, o disco tem apresentação marcada para o Theatro Circo, em Braga, no dia 10 de outubro, e para a Culturgest, em Lisboa, a 16 de dezembro, com duas idas a Espanha pelo meio, apresentando-se na Galiza a 30 de outubro (Vigo) e 31 de outubro (Santiago de Compostela).
Os Glockenwise, compostos por Nuno Rodrigues (voz e guitarra), Rafael Ferreira (guitarra), Rui Fiusa (baixo) e Cláudio Tavares (bateria), lançam quarta-feira o sucessor de Gótico Português (2023, Vida Vã), num percurso discográfico iniciado com Building Waves (2011, Lovers & Lollypops) e que inclui, entre outros, o disco de 2018 Plástico, lançado pela Valentim de Carvalho.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.