Após controle das chamas em Alter do Chão, autoridades investigam ação criminosa
Concluída a etapa de controle do incêndio que atingiu uma área do chamado Lago Verde, entre esta sexta-feira (30) e sábado (31), na região de Alter do Chão, em Santarém (PA), os focos de fogo agora geram outras frentes de trabalho: monitoramento por brigadistas para evitar novos pontos de chama e a perícia e as investigações pelas autoridades policiais sobre a origem do incêndio, algo que é cobrado por lideranças indígenas locais.
De acordo com informações do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Pará, as chamas foram percebidas na tarde desta sexta-feira (30) e avançaram rapidamente.
“Não é possível ainda dimensionar a extensão, mas foi necessário um trabalho intenso junto com os brigadistas de Alter”, afirma o comandante regional dos Bombeiros, coronel Celso Piquet.
Com doze brigadistas, sendo quatro do posto avançado do Corpo de Bombeiros e mais oito civis da Brigada de Alter, o trabalho de combate às chamas avançou pela madrugada e o fogo só foi controlado na manhã deste sábado (31).
“Foi controlado, mas é necessário um acompanhamento permanente para que não volte, por conta do calor”, afirma Gutierrez Govino, membro da Brigada de Alter.
“Não podemos considerar que foi extinto o fogo no local. Ainda tem muitos focos pequenos que com o vento e o calor do dia podem voltar”, ressalta.
Ele informa que os voluntários acionaram outras brigadas comunitárias de comunidades próximas e que o trabalho deve receber reforço também das equipes do PrevFogo, Ibama e ICMBio, além do apoio de equipes da prefeitura e do Corpo de Bombeiros.
Suspeita de origem criminosa é alta
Após conter as chamas, um dos focos das equipes da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará é o trabalho investigativo sobre a origem do fogo. O comandante Piquet afirmou que já foi realizada uma reunião envolvendo a Polícia Militar e a Polícia Civil.
“Ali é uma área que não tem residência, é uma área verde… não é uma área seca, não era para estar pegando fogo desse jeito. É sim algo estranho, pois ali é mata, não tem pessoas transitando, não tem propriedade."
"Existe a possibilidade de ser criminoso, mas isso a investigação que vai dizer, para identificar de quem seriam as atitudes. Como disse, é uma área natural, isolada pela água. Existe a suspeita de ter alguém interessado nessa queima, mas isso a perícia e a polícia vai investigar”, declarou Celso Piquet.
Rigor nas investigações e punição
A cobrança pelas investigações e maior rigor nas fiscalizações são demandas recorrentes de lideranças locais, uma vez que focos de fogo e incêndios na região ocorrem com certa frequência.
Para Osmar Borari, cacique do território Borari, as comunidades já vinham alertando sobre o crescimento dos incêndios em diferentes pontos. Segundo ele, os incêndios teriam como foco abrir áreas para posterior venda, o que é irregular numa Área de Proteção Ambiental.
“O fogo ocorre justamente onde sabemos que tem vendas irregulares de terra. Após o fogo vem uma cerca, uma placa de venda ou uma construção”, afirma.
Ele relata que no início da semana fez contato com autoridades municipais e estaduais para alertar sobre o risco dos focos observados perderem controle.
“É uma situação que está acontecendo não só em Alter do Chão, mas em outros territórios e outros locais. Estamos cobrando por esclarecimento e investigações, porque o fogo não tem CPF, mas quem toca fogo tem."
"Precisa ter uma investigação urgente e punir quem faz essas construções irregulares. Elas têm que parar imediatamente e as pessoas que estão por trás disso devem ser investigadas”, aponta.
Osmar destaca que a região de Alter do Chão é conhecida mundialmente por seu atrativo turístico, mas é também território de vários povos.
“Nós queremos que o mundo inteiro e que todos os órgãos possam respeitar Alter do Chão, porque Alter do Chão não é um balneário. Alter do Chão não é uma vila. Alter do Chão é um território indígena, um território do povo Borari, a qual esse povo aqui vive e resiste há anos."
"E o nosso povo vem sofrendo todo tipo de ameaça: especulação imobiliária, queimada, invasão de território. Então, a falta de fiscalização vai deixando o território nessa situação”, relata.
“A preocupação é manter a nossa floresta de pé, os lugares sagrados dos nossos encantados, daqueles que nos guiam, daqueles que nos fortalecem, os sítios arqueológicos."
"É uma situação dentro do território Borari, mas estamos lutando também pelos outros territórios que estão passando por essa mesma situação”, pontua Osmar Borari.
Prefeitura afirma que mantém monitoramento e mobilização
Em nota, a Prefeitura de Santarém afirma que segue mobilizada e acompanhando de perto a situação do incêndio.
De acordo com o posicionamento, o prefeito de Santarém, José Maria Tapajós, esteve no local durante a noite para acompanhar a situação, verificar a dimensão da ocorrência e acompanhar o trabalho das equipes mobilizadas.
“A gestão municipal permanece atuando de forma integrada com os órgãos envolvidos, contribuindo com as ações necessárias para garantir a segurança da população e o acompanhamento da área afetada”, pontua o texto.
A prefeitura informa ainda que mobilizou agentes de fiscalização ambiental, que permanecem trabalhando em Alter do Chão neste sábado (31).
“A atuação dos servidores municipais está concentrada no acompanhamento da ocorrência, na fiscalização ambiental e no levantamento de informações sobre a área atingida, enquanto o combate direto ao fogo é realizado pelas equipes especializadas”, diz o texto.
A prefeitura também relata que irá colaborar com as investigações, por conta da suspeita de origem criminosa.
“O trabalho permitirá dimensionar com maior precisão a extensão do incêndio, identificar possíveis danos ambientais e reunir informações que possam contribuir para a apuração das circunstâncias que deram origem ao fogo, inclusive quanto à possibilidade de ação criminosa”, afirma a nota da prefeitura.
Atualmente, estão em vigor decretos municipais que estabelecem situação de emergência em decorrência da estiagem e emergência ambiental devido ao aumento dos incêndios, incluindo a proibição do uso do fogo pelo período de 180 dias.
Doações
Voluntários que atuam em apoio à Brigada de Alter disponibilizaram uma chave Pix para doações (dorisson1158@gmail.com) e abriram um posto de coleta para contribuições que ajudem no trabalho dos brigadistas, como água potável, pães, comida pronta, frutas e lanches.
As doações podem ser feitas na Pousada do Mingote, na vila de Alter do Chão.
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