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Sunday, September 13, 2026

Vinte cinco anos depois do 11 de setembro, duas lições

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Os ataques criminosos da al-Qaida, visando deliberadamente um alvo civil, as Torres Gémeas (a par do Pentágono), a 11 de setembro de 2001, fizeram quase 3000 mortos. Foi um dos eventos marcantes do início do meu percurso de vida. Tinha estado no ano anterior em Nova Iorque e tinha adiado a visita às Torres Gémeas para uma oportunidade futura em que o tempo estivesse menos nublado, com o que aprendi a não adiar esse tipo de visitas. Marcou também o meu percurso no estudo dos conflitos armados. Foi uma das razões que me levaram a focar, no meu Doutoramento em War Studies no King’s College, no estudo dos conflitos irregulares, assimétricos, não-convencionais. Foi, sobretudo, um evento que marcou a política e a segurança globais. E voltando a um dos ensinamentos mais avisados do padre António Vieira – que até com o diabo se aprende – vale a pena ponderar duas lições importantes que podemos retirar deste quarto de século.

O perigo de subestimar um inimigo

Estima-se que a al-Qaida – fundada em 1988, com base numa rede de apoio aos resistentes islamistas afegãos à brutal invasão soviética de 1979 – tivesse poucas centenas de homens armados e treinados em setembro de 2001. Em campo aberto, numa batalha convencional teriam sido eliminados em poucas horas pela maior potência militar do mundo, os EUA. No entanto, bastaram 19 terroristas para organizarem a partir do seu santuário afegão, providenciado pelo regime talibã, o mais bem-sucedido e mortífero ataque ao território continental dos EUA desde a invasão britânica na guerra de 1812-14. Temos muitos estudos e até um relatório oficial que deixam claro que a Administração do Presidente George W. Bush desconsiderava o terrorismo, desprezava as ameaças públicas do líder carismático da al-Qaida, Usama bin Ladin, um engenheiro saudita que trocou a empresa de construção familiar por uma empresa de destruição terrorista. Hoje é fácil criticar Bush e alguns dos seus conselheiros mais próximos. Mas a verdade é que essa era uma tendência quase universal.

Toda a disciplina das Relações Internacionais se centra tradicionalmente no estudo dos Estados e sobretudo das Grandes Potências. Os Estudos de Segurança – apesar de mais de 80% dos conflitos armados desde 1945 serem de tipo irregular, não-convencional, assimétrico – concentravam-se sobretudo nas grandes guerras convencionais entre grandes potências ou na possibilidade de uma guerra nuclear. Claro que o poder pesa muito na política internacional. Mas não basta contar canhões ou mísseis para saber quem poderá atacar com sucesso ou vencer no final. Atores mais fracos podem recorrer a ataques surpresa, a táticas de guerrilha e terrorismo como forma de reduzir vulnerabilidades e negar a atores mais poderosos vitórias fáceis e rápidas. Estamos a ver isso com o movimento armado dos Huthis no Iémen, um exército de pés descalços, mas que já controla hoje c. de 1/3 do território do país e mais de 70% da população. Mais, parece estar a retomar a ofensiva, tomando o porto de Mocha, avançando para sul em direção a Áden, o que representa uma ameaça ainda maior sobre a segurança da navegação no estreito do Bab El-Mandeb por onde passa cerca de 15% do comércio global inclusive de petróleo, e quase metade do comércio entre a Ásia e a Europa.

Vencer é cada vez mais difícil

É verdade que os EUA conseguiram eliminar o fundador da al-Qaida, Usama bin Ladin, depois de 10 anos de esforços, em maio de 2011. Também conseguiram eliminar o seu sucessor e principal ideólogo do movimento, Ayman al-Zawahiri, há quatro anos, em Cabul. Mas os talibã estão de regresso ao poder no Afeganistão, embora jurem que “desta vez” não irão permitir ataques terroristas transnacionais. O Médio Oriente não está mais democrático, parece mais violento e instável do que nunca.

É claro que não havia respostas fáceis a esta ameaça, e qualquer Estado com os meios dos EUA teria respondido violentamente. É certo que a al-Qaida “central” está muito enfraquecida. Isso deveu-se menos a grandes operações militares que a uma guerra mais limitada nas sombras: nas informações, no combate ao financiamento ilegal, na vigilância, no uso de drones (a arma por excelência a emergir deste período pós-11 de setembro), nas operações especiais. No entanto, a al-Qaida não desapareceu completamente. As suas “filiais”, nomeadamente no Sahel e na África Oriental, até ganharam força. A ameaça do terrorismo, nomeadamente jihadista, está longe de estar completamente eliminada. O terrorismo, devido à sua natureza clandestina, assente em grupos pequenos e militantes, é muito difícil de eliminar completamente. O contra-terrorista tem de acertar 100% do tempo, o terrorista só tem de acertar uma vez. Isso não quer dizer que se possa desistir desse combate, mas ele é por natureza um jogo de equilíbrios, escolhas difíceis, vitórias parciais e frequentemente amargas.

Num mundo com cada vez mais atores poderosos, ricos e tecnologicamente avançados – Estados e não-Estados –, com cada vez mais palcos relevantes, é cada vez mais difícil, mesmo a uma grande potência atingir facilmente os seus objetivos. Os EUA continuam a representar quase um quarto da economia global, mas há cada vez mais Estados historicamente não-alinhados com Washington D.C., como a China ou a Índia a crescer em riqueza, capacidade de inovação tecnológica e poderio militar. E há todos os atores não estatais prontos a explorar, por exemplo, o tremendo potencial para um mau uso da inteligência artificial.

Donald Trump, apesar de promessas de contenção na frente externa, parece determinado a voltar a aprender a lição de que ser uma grande potência não é o mesmo que ser omnipotente. Se assim for, os EUA poderão apostar numa política externa mais modesta nos seus objetivos, mais prudente no uso da força militar – é sempre mais fácil começar uma guerra do que pôr-lhe fim – e que aprecia as vantagens de ter aliados voluntários em vez de vassalos forçados. Nenhum Estado é suficientemente poderoso para poder dar-se ao luxo de dispensar a prudência e aliados.

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