The Daily Newsstand · Free, Always
Thursday, October 8, 2026

Heterossexual, branco, católico e talvez fascista!

Translate

Hoje peço que façamos um exercício simples. Descreva-se, sem adjetivos de intenção, o europeu mediano de há um século: heterossexual na sua larguíssima maioria dos casos, branco porque vivia num continente ainda quase todo branco, batizado numa igreja católica porque era isso que praticamente toda a gente fazia ao nascer, casado e com filhos porque essa era a forma natural de organizar uma vida. Ninguém, na altura, via nesta descrição um qualquer programa político. Via-se nisto, simplesmente, uma pessoa. Hoje, a mesma descrição, dita em voz alta num painel de televisão ou num comentário nas redes sociais, é o suficiente para alguém sussurrar a palavra que mais se usa e menos se define em todo o debate público europeu: fascista.

A ironia é densa. Esta Europa que hoje trata a normalidade estatística do seu próprio passado como suspeita não nasceu de um vazio. Nasceu de três heranças muito concretas, que qualquer manual de história da civilização europeia reconhece sem pestanejar: a filosofia grega, que nos deu a ideia de que o indivíduo pensa e argumenta por si; o direito romano, que nos deu a noção de lei universal e de cidadania que vale da mesma forma para todos; e os valores cristãos, que nos deram a ideia — revolucionária na sua altura — de que cada ser humano tem dignidade igual, independentemente de nascença ou estatuto. Três cidades, Atenas, Roma e Jerusalém. Tirem qualquer uma destas três pedras basilares e a Europa que conhecemos, incluindo os direitos humanos hoje invocados para acusar meio continente de fascismo, simplesmente não existe.

E, no entanto, é exatamente quem carrega essa herança de forma mais visível e menos ideológica — o cidadão comum que vai à missa de vez em quando, que acredita que uma família com pai e mãe é um bem a proteger, que não tem vergonha de dizer que é heterossexual porque nunca lhe ocorreu que isso fosse uma declaração de guerra — que se vê hoje empurrado para o limiar semântico do fascismo histórico. Não pelo que faz. Simplesmente, pelo que é, por aquilo em que acredita.

Isto não é uma impressão paranoica. É uma prática com consequências jurídicas visíveis. Na Alemanha, um tribunal viu-se obrigado a travar, em fevereiro deste ano, a classificação do serviço de informações do país, que qualificava a AfD como organização de “extrema-direita comprovada” — não porque o partido seja simpático, mas porque um Estado de Direito não pode decidir por decreto administrativo quem é extremista sem que isso passe pelo escrutínio judicial que qualquer acusação séria exige. Em Itália, a primeira-ministra de um país fundador da União Europeia continua a ser apresentada, rotineiramente, pela imprensa internacional, como “pós-fascista” — uma etiqueta genealógica colada a uma chefe de governo eleita, não às suas políticas concretas. Em Portugal, chama-se fascista a um partido parlamentar com a mesma facilidade com que se muda de canal, independentemente de o seu programa ter alguma coisa a ver com corporativismo, partido único ou supressão de liberdades civis — que é, convém lembrar, do que o fascismo histórico era feito.

O resultado mede-se. A UNESCO publicou, no final do ano passado, um relatório que mostra a liberdade de expressão a recuar 10% a nível mundial desde 2012, com a autocensura a crescer 63% no mesmo período — apontando a polarização como um dos motores centrais dessa espiral. Quando chamar fascista a quem discorda se torna reflexo automático, o efeito não é isolar extremistas: é ensinar milhões de pessoas comuns a calarem-se sobre o que pensam da família, da fé ou do próprio país, por medo do rótulo, não por falta de argumento.

E há uma segunda ironia, ainda mais reveladora: a tal ameaça cristã que supostamente paira sobre a Europa está, estatisticamente, a desaparecer (infelizmente). A população cristã da Europa caiu de 75% em 2010 para 67% em 2020, enquanto os sem religião subiram de 18% para 25% — Pasmem-se, ou não, a França e Reino Unido perderam mesmo a maioria cristã nesse período. Não é um continente a caminho de uma teocracia. É um continente cada vez menos religioso que continua, mesmo assim, a tratar o resíduo da sua própria identidade cristã como uma ameaça iminente, em vez de a reconhecer pelo que é: o alicerce cultural sobre o qual se construiu, entre muitas outras coisas, a própria ideia de que todo o ser humano merece dignidade — a mesma ideia que hoje se invoca contra quem dela discorda.

A leitura que faço no início do texto não é o de um extremista. É o dos nossos avós, ou de grande parte deles. Se hoje isso soa a ameaça, o problema não está em quem corresponde a essa descrição banal. Está em quem decidiu, por conveniência política, que normalidade histórica e perigo ideológico passaram a ser sinónimos.

Fascismo foi, e continua a ser, uma coisa muito concreta — censura, partido único, culto da violência, supressão de direitos. Chamar-lhe a quem vai à missa ao domingo não torna ninguém mais seguro. Torna apenas a palavra mais vazia, precisamente quando mais precisávamos dela cheia de significado.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.