Inteligência artificial: o fim do mundo visto da China

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: Inteligência Artificial, o fim do mundo, visto da China.
"We're leading China in AI. We're the most sophisticated country in the world, and frankly, I wanna keep it that way, because whoever wins AI, wins."
"Quem ganhar a guerra da inteligência artificial, ganha tudo." A frase de Donald Trump, dita em plena crise de alertas dos gigantes da inteligência artificial, pode tranquilizar alguns e deixar outros numa crise de ansiedade. O presidente dos Estados Unidos relativizou o potencial catastrófico de uma IA desenvolvida sem limites. Ele preferiu concentrar-se na competição Estados Unidos-China, que nesta matéria estão num braço de ferro pelo domínio da tecnologia. Por isso, hoje vamos falar disto, da forma como a China olha para este problema, o que tem sido feito em Pequim para lidar com o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial, e como é que os chineses propõem resolver este paradoxo. Como é que se usam os travões, se o objetivo é ganhar a corrida? Eu vou conversar sobre isto tudo com Jorge Tavares da Silva, professor da Universidade da Beira Interior e analista de assuntos chineses. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 15 de setembro. Olá, senhor professor, bem-vindo.
Muito obrigado pelo convite.
Nós é que agradecemos que esteja disponível para conversar conosco, para falarmos um pouquinho deste gigante inevitável e misterioso que é a China. E sobretudo agora que se fala destes alertas da inteligência artificial, nós acabamos por estar aqui numa espécie de paradoxo, que é as grandes empresas americanas a dizerem que é preciso que haja qualquer ação política para travar o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. E depois temos o presidente dos Estados Unidos a fazer declarações públicas a dizer: "Não, nós temos que avançar, porque isto é uma competição com a China e nós temos que estar na frente, porque quem estiver na frente nisto ganha tudo". Como é que interpreta estas palavras do presidente dos Estados Unidos, sobretudo a fazer este duelo com a China em matéria de inteligência artificial?
Em primeiro lugar, dizer que, de facto, há uma competição entre estes dois gigantes pela supremacia do ponto de vista tecnológico. Isso é inevitável, é um caminho que a China tem vindo a desenvolver, sabendo nós que tradicionalmente eram os Estados Unidos que estiveram muito na dianteira, no domínio tecnológico, o Silicon Valley, todo aquele ecossistema tecnológico que foi criado ao longo dos anos e, de facto, é esse ecossistema, é essa liderança que, em muitos sentidos, a China hoje vem tentar suplantar. Os Estados Unidos, pela presidência, numa vertente um pouco mais aberta, se quisermos, ou dando liberdade às empresas tecnológicas de desenvolver de forma mais livre essa tecnologia. E curiosamente, a própria China tem vindo a alertar para algum excesso de liberdade ou de autonomia por parte das empresas tecnológicas, em que é preciso, de alguma forma, articular, e o objetivo é este, por parte da liderança chinesa, articular o poder político com esses centros de desenvolvimento tecnológico do ponto de vista internacional. Ou seja, que o poder político não perca o controle no domínio da inteligência artificial. É isto que Pequim tem vindo mais a defender, ao contrário dos Estados Unidos e particularmente da liderança americana, que vive um pouco mais, nós sabemos disso. Os Estados Unidos têm a sua tradição liberal, muito menos ciosos, ou menos preocupados, se quisermos, com um certo descontrole que pode existir para as liberdades do ponto de vista social. E há aqui preocupações de um lado e do outro, que têm a ver com os seus regimes políticos, têm a ver com a natureza dos seus sistemas políticos.
E desse ponto de vista, podemos dizer que a visão norte-americana, pelo menos aquela que sai, não necessariamente a visão da presidência dos Estados Unidos, mas a visão que tem saído nos media e que tem tido eco das declarações dos principais responsáveis destas tecnológicas, é uma visão quase de Hollywood, que é a máquina pode destruir a humanidade. Enquanto que a China, também por causa do seu sistema político, está preocupada, sim, com aquilo que pode acontecer à humanidade, porque também não o escondem, mas também com a ameaça que a inteligência artificial pode representar para a segurança do próprio Estado.
Claro, há uma relação muito forte. Eu acho que isso é transversal. Há depois a discussão do ponto de vista da opinião pública, muito generalizada, e aqui vamos falar mais a nível global. Há também essa discussão, e também há essa discussão, particularmente nos Estados Unidos. E essa é que põe em causa se eventualmente, olhe, por exemplo, eu no domínio também mais a nível pessoal e profissional, a nível do próprio ensino superior, todos estes impactos que tem na própria educação. Claro que há essa discussão do ponto de vista social, em termos globais. Isso está na mesa, isso está a ser discutido. Por outro lado, há esta dimensão mais política. E assim, é aqui que Pequim, sempre com as suas preocupações com a sustentabilidade política do regime, claro que vai alertando para que esse processo não se descontrole e que possa, em muitos sentidos, essa autonomia da inteligência artificial colocar em causa alguns princípios que são muito defendidos Pelo próprio partido e tem feito, nós sabemos, o seu regime político é fechado, o seu regime político não quer dar determinadas liberdades individuais e portanto está sempre atento a tudo aquilo que possa ganhar autonomia e que lhe possa fugir do controle. Daí que haja uma grande diferença entre estes dois espaços e com estas sensibilidades também para as questões individuais e pessoais que possam desafiar esse mesmo poder político.
Sinto que uma questão interessante é que nós ouvimos estes alertas dos Estados Unidos, ouvimos também da China, porque eles também chegam de lá, o próprio governo chinês tem dado alertas e tem feito e tomado medidas precisamente por causa deste risco que existe. No entanto, este duelo que existe entre os dois países também se reflete na forma como se deve lidar com o problema. A reação de Pequim às medidas que estão a ser discutidas nos Estados Unidos, foi uma reação de algum descontentamento, porque a China sentiu que basicamente tudo isto era uma desculpa para os Estados Unidos quererem impedir a aceleração tecnológica da China.
Sim, essa é sempre uma sensibilidade também grande, que é a competição, porque esta dimensão da inteligência artificial naturalmente começa pelo domínio tecnológico, depois implica também o desenvolvimento da própria economia chinesa, mas acima disto está a questão geopolítica, está a competição global, porque quem liderar este domínio, em muitos sentidos, tenderá também a dominar a economia global. E este é um objetivo, já agora também lembro isto, e nós pensando bem na história da China, é um objetivo muito antigo, mesmo nos períodos revolucionários, mesmo no período do Mao, quiseram estar muitas vezes, ainda que nesse período não tenha corrido bem, e todos os programas, eu estou me a lembrar, por exemplo, do Grande Salto em Frente, era um programa de desenvolvimento que queria colocar a China na liderança do desenvolvimento industrial, ser uma potência industrial como era, por exemplo, o Reino Unido. E não conseguiram por motivos ideológicos na altura. Hoje, com o seu pragmatismo todo, também é esse o objetivo. É estar na linha da frente no domínio, neste caso tecnológico, com o seu pragmatismo, e hoje o instrumento não é revolucionário nem ideológico, é um instrumento pragmático, vai tentar também, esse é um grande sonho de tal rejuvenescimento, da afirmação da China moderna, com toda esta exaltação nacionalista, é estar na linha da frente no domínio tecnológico e portanto quer mostrar e tem vindo a mostrar, vejam essas demonstrações todas tecnológicas para o mundo. Quando há uma comitiva estrangeira que chega à China, já me aconteceu a mim, mostram orgulhosamente tudo o que de melhor vão fazendo e portanto têm vontade e querer que sejam hoje olhados como uma potência tecnológica moderna, um país avançado. Este é o objetivo do ponto de vista de imagem e que o estão a fazer. E portanto, nesta competição com os Estados Unidos, evidentemente que querem ir mais longe que os Estados Unidos. Eu costumo dizer que a China, na sua tradição milenar, centralista, mais do que cooperar, eu não posso dizer que não coopera, mas supera, ou seja, tenta ir mais longe. E foi este o objetivo que tem vindo a fazer. Agora, claro, falando do risco como tinha colocado na questão, também há riscos. Há oportunidades para a China estar neste domínio tecnológico a desenvolvê-lo, mas simultaneamente também tem riscos. E riscos, por exemplo, estou-me aqui a lembrar de uma medida muito recente, tem uns dias, em que o governo chinês proibiu as empresas chinesas de substituir trabalhadores por robôs. Por quê? Porque tem elevadas taxas de desemprego e não pode estar a dar só o luxo de dispensar pessoas quando há tanta necessidade no país. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade, já para dizer os dois, o envelhecimento da população pode ser colmatado, por exemplo, com a introdução de alguma tecnologia robótica nas empresas. Eu estou aqui a juntar inteligência artificial, robótica, enfim, um conjunto de áreas que nós aqui podemos simplificar por tecnológicas, vamos dizer assim, ou tecnologia avançada. Mas no fundo está aqui um pouco tudo junto.
É porque nada disso, na verdade, está desligado daquilo que é o modelo e a ambição que a China tem, um projeto que, como aliás disse, não é uma coisa de curto prazo, é uma coisa com uma visão de longo prazo que habitualmente associamos também à China. Agora a questão é: é verdade que estes países que estão mais avançados e que dominam o mercado da inteligência artificial estão neste momento a dar sinais de que é preciso fazer qualquer coisa. Aquilo que nós percebemos é que embora nos Estados Unidos isso não seja consensual nas próprias empresas e até ao nível político, como já percebemos, na China a coisa, por força do regime, é naturalmente mais fácil de chegar a esse tipo de consensos. Mas o que a China não quer, parece-me a mim, vendo as notícias que têm saído nos últimos dias, é que sejam os Estados Unidos a ditar as regras de como é que se deve fazer esta desaceleração do desenvolvimento da inteligência artificial. Ou seja, a China quer cooperar, mas quer ser tratada como igual e não como um mero executante ou um agente passivo daquilo que os Estados Unidos decidirem. É correta esta interpretação?
É, na minha leitura também penso dessa maneira e julgo que está correto. Aliás, esse é um dos grandes objetivos, e estava um pouco implícito também na questão que formulou anteriormente. A China também por questões históricas, por todo um conjunto de acontecimentos que estão lá para trás e que a colocaram muito num patamar de inferioridade no mundo, quer hoje superar essa postura. E portanto, quer hoje participar, e vamos agora literalmente àquilo que está a tentar fazer, participar no processo de governação global relacionado com as questões de inteligência artificial. E portanto, esta questão não podem ser os Estados Unidos. Mais uma vez, é também aqui lutar contra aquela visão unilateral, aquela postura unilateralista e hegemônica que os Estados Unidos tiveram depois do final da Guerra Fria. A China tem vindo a lutar isso, que era um mundo multipolar, aquele discurso que nós conhecemos, o mundo do multilateralismo e, portanto, quer contribuir para este processo, quer que a sua voz seja atendida, o que em muitos sentidos quer dizer que quer que a sua perspectiva sobre estas questões tecnológicas, nomeadamente uma inteligência artificial sem autonomia do poder político, atenção que isto aqui vai chocar com a visão americana, quer que esta visão seja atendida pelas grandes organizações internacionais, nomeadamente até as próprias Nações Unidas, para que depois haja aqui uma forma de governação com uma influenciazinha por parte da China nesse processo. E é isso que está a tentar, que o processo não seja unilateral, mas que seja multilateral, quase com características chinesas, como nós sabemos que tão bem a China tem feito nas grandes organizações, às vezes introduzindo expressões chinesas, o win-win, a própria Rota da Seda, enfim, que hoje é tão apadrinhada pelas Nações Unidas, mas que não deixam de ser projetos de natureza chinesa. E, portanto, é trazer a China e trazer alguns dos seus conceitos e visões para o processo de governação global.
Vamos ver se há a possibilidade de um entendimento a tempo, uma vez que estes processos, no que diz respeito ao desenvolvimento da inteligência artificial, são às vezes muito mais rápidos do que aquilo que os governos são capazes de antecipar. Senhor professor, muito obrigado.
Obrigado, foi um gosto.
Igualmente. Eu conversei hoje com o professor Jorge Tavares da Silva, analista de assuntos chineses e membro fundador do Observatório da China. Falámos sobre a perspectiva chinesa dos avanços e dos riscos da inteligência artificial depois do alarme que fez soar as campainhas nos Estados Unidos. Um setor que está agora a olhar para si próprio e que tem já um poder tão grande que bastou os líderes da inteligência artificial lançarem alertas sobre o futuro para as bolsas afundarem. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.