Wolff e a matemática da filosofia
Cássio Leite Vieira é um excelente jornalista científico que conheço há mais tempo do que gostaria de confessar: foi a primeira pessoa que me entrevistou, tem mais de três décadas, para uma matéria na revista Superinteressante. Ficamos amigos e, mesmo radicado no exterior, volta e meia ele me escreve com dicas interessantes sobre ciência. Uma das mais recentes trata de um personagem muito interessante, que eu tinha que ter conhecido antes.
Christian Wolff nasceu em 1679 numa família luterana de Breslau (hoje, a cidade polonesa de Wroclaw), que então era a capital da Silésia, região germânica que foi palco de intensas disputas entre católicos e luteranos. No colégio, aprendeu sobre o trabalho do matemático e filósofo francês René Descartes, que influenciou profundamente o seu desenvolvimento intelectual.
Wolff via na matemática o caminho para acabar de vez com todas as disputas. "Eu estava ansioso para aprender o método matemático para transformar a teologia num domínio preciso e livre de toda a controvérsia", escreveu na sua autobiografia. Esse foi o ponto de partida do seu sistema filosófico, o wolffianismo, baseado em três princípios: usar sempre termos claramente definidos; argumentar estritamente de acordo com a análise conceitual e a inferência dedutiva; nunca usar como premissa um argumento que não tenha sido solidamente comprovado.
Seu primeiro trabalho foi a tese "Filosofia prática universal, escrita de acordo com o método matemático", que completou em 1703 e o habilitou como professor universitário. Uma cópia chegou ao conhecimento de Gottfried Leibniz, dando início a uma amizade que durou até a morte deste. Com a ajuda de Leibniz, conseguiu seu primeiro emprego como professor, na Universidade de Halle, onde lecionou matemática, filosofia e física.
Nesse período escreveu inúmeros livros didáticos de matemática e filosofia, que tiveram um sucesso impressionante de público. O livro de lógica teve uma impressão inicial de 8.000 cópias –como termo comparativo, a primeira edição da "Crítica da Razão Pura", de Immanuel Kant, não passava de mil cópias– e alcançou 14 edições. E o livro sobre metafísica chegou a 12 edições.
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Na sequência, Wolff recebeu inúmeras ofertas de emprego, inclusive na Academia de Ciências de S. Petersburgo, que declinou. E foi eleito para as principais sociedades acadêmicas do seu tempo, incluindo as de Londres, Paris, Berlim e S. Petersburgo.
Um aspecto muito curioso é que o seu pensamento se tornou particularmente popular entre as mulheres, a ponto de terem sido publicadas apresentações específicas de suas ideias para o público feminino. Também sabemos que influenciou diversos protagonistas da independência dos Estados Unidos, como George Washington e Thomas Jefferson.
Com o sucesso, também vieram os dissabores: invejas no meio acadêmico e controvérsias em torno de suas ideias que fizeram com que chegasse a ser banido da Prússia, em 1723. O que, aliás, só contribuiu para torná-lo ainda mais famoso em toda a Europa como mártir da razão e do iluminismo. Em 1740, o rei Frederico, o Grande, o convidou de volta para Halle, o que Wolff aceitou.
Mas a essa altura a popularidade do wolffianismo já estava em declínio, por várias razões. A evolução da filosofia alemã. A ascensão das ideias de Kant. E a pecha de mero popularizador das ideias de Leibniz que perseguiu Wolff no final da sua vida. Quando morreu, em 1754, suas obras já praticamente não eram citadas.
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