O problema não é termos elites. É termos estas elites

Esta ideia pode desagradar a quem sonha com sociedades sem hierarquias, sem concentrações de poder ou sem grupos dominantes. Mas tanto a História como a Ciência Política sugerem-nos precisamente o contrário. Não conhecemos sociedades complexas sem elites.
Conhecemos, isso sim, sociedades com elites melhores e piores, mais abertas ou mais fechadas, mais competentes ou mais medíocres, mais responsáveis ou mais predatórias e extrativas.
Por isso, talvez estejamos frequentemente a fazer a pergunta errada. A questão não é tanto saber se uma sociedade deve ter elites, mas quem chega às elites, como chega lá, como se mantém e como sai.
As elites não desaparecem
Há mais de um século que a teoria política das elites nos chama a atenção para esta realidade.
Vilfredo Pareto falou da “circulação das elites”, referindo que as elites não permanecem necessariamente as mesmas, embora o poder tenda a continuar concentrado em minorias. Quando uma elite perde capacidade, legitimidade ou força, outra procura ocupar o seu lugar.
Gaetano Mosca, por seu turno, chamou a atenção para outra característica fundamental. Em qualquer sociedade existe uma minoria organizada que governa uma maioria muito mais numerosa, mas também muito mais dispersa. A organização constitui, por si só, uma enorme vantagem política. Na verdade, essa é a grande vantagem política.
Robert Michels foi ainda mais longe com a sua célebre “lei de ferro da oligarquia”, sugerindo que mesmo as organizações criadas com propósitos democráticos tendem, com o tempo, a produzir dirigentes profissionais, estruturas permanentes e concentrações internas de poder.
Podemos não gostar desta realidade, eu sei. Porém, não gostar dela não a faz desaparecer.
As revoluções são particularmente instrutivas. Derrubam-se aristocracias, partidos, oligarquias ou classes dirigentes em nome do povo e, pouco depois, emerge uma nova minoria que controla os recursos, as instituições e as decisões.
Mudam os nomes. Mudam os símbolos. Mudam as justificações. Mas a concentração do poder numa minoria reaparece.
A estrutura permanece surpreendentemente familiar. São ciclos que se renovam.
É por isso que a promessa de acabar com as elites deve ser recebida com muita desconfiança. Muitas vezes, significa apenas substituir uma elite por outra.
Ou, mais precisamente, substituir a elite existente por aqueles que aspiram a ocupar o seu lugar.
O verdadeiro problema – como são selecionadas as elites?
Se admitirmos que as elites são inevitáveis, então a questão decisiva passa a ser outra. Quais são os mecanismos que determinam quem chega ao topo?
É aqui que as sociedades começam verdadeiramente a diferenciar-se.
Uma sociedade pode selecionar as suas elites predominantemente através da competência, do mérito, da criação de valor, do conhecimento, da capacidade de liderança e do reconhecimento pelos pares. Ou pode selecioná-las através da proximidade ao poder, das relações familiares, das redes partidárias, do compadrio, do clientelismo e da capacidade de navegar dentro dos círculos certos, um problema de que Portugal está longe de ser imune.
Naturalmente, nenhuma sociedade funciona exclusivamente segundo um destes modelos. Mérito e relações coexistem em todo o lado. O problema está nas proporções, porque os mecanismos de seleção produzem comportamentos.
Se uma sociedade recompensa sobretudo a competência, haverá fortes incentivos para adquirir competência.
Se recompensa sobretudo a proximidade, haverá fortes incentivos para adquirir proximidade.
Se recompensa quem assume riscos, cria, inova e produz resultados, as pessoas procurarão fazer isso.
Se recompensa quem conhece as pessoas certas, frequenta os lugares certos e pertence às redes certas, não nos devemos surpreender que uma parte considerável da energia social seja investida precisamente nisso.
Os incentivos podem não explicar tudo. Mas explicam muito.
O problema das elites fechadas
Existe ainda outra questão fundamental relacionada com a circulação das elites, pouco abordada.
Uma elite saudável não é necessariamente uma elite permanente. Pelo contrário.
As sociedades mais dinâmicas precisam de mecanismos que permitam a entrada de novos talentos e, igualmente importante, a saída daqueles que deixaram de demonstrar competência.
O problema começa quando as elites se transformam em sistemas de autorreprodução.
Quando os mesmos círculos sociais alimentam os mesmos círculos profissionais. Quando a política e as juventudes partidárias fornecem quadros às empresas e as empresas devolvem quadros à política. Quando determinados lugares parecem reservados a quem já pertence às redes onde esses lugares são distribuídos. Quando o acesso depende excessivamente de quem conhecemos e insuficientemente daquilo que demonstrámos ser capazes de fazer.
Nesse momento, a circulação das elites diminui e aumenta o risco de endogamia.
As mesmas pessoas passam pelas mesmas instituições, partilham frequentemente os mesmos códigos, validam-se reciprocamente e acabam por desenvolver uma visão do mundo progressivamente afastada daqueles sobre quem tomam decisões.
Não é necessário imaginar conspirações. Bastam redes.
É difícil não reconhecer aqui alguns traços da sociedade portuguesa.
Portugal e a sua pequena dimensão
Portugal acrescenta a este problema uma característica estrutural. É um país relativamente pequeno, onde as redes de influência facilmente se cruzam e sobrepõem.
Os países pequenos podem ter vantagens extraordinárias, mas também correm riscos particulares.
As redes sociais, políticas, empresariais, académicas e mediáticas sobrepõem-se com facilidade. As distâncias entre quem decide, quem regula, quem comenta, quem administra e quem influencia são reduzidas. Todos acabam por se conhecer.
Isso pode gerar confiança e facilitar a cooperação. Mas também pode diminuir a distância necessária para avaliar, fiscalizar e responsabilizar.
A proximidade transforma-se facilmente em complacência.
E a complacência pode transformar-se em impunidade reputacional.
Talvez seja este um dos problemas mais interessantes das elites portuguesas. Não apenas a forma como algumas pessoas chegam a determinadas posições, mas a extraordinária capacidade de permanecerem no circuito depois de falharem.
Mudam de instituição.
Mudam de empresa.
Mudam de cargo.
Mudam de conselho de administração.
Mudam de canal e de espaço de comentário televisivo.
Mas raramente desaparecem.
Numa sociedade meritocrática, o sucesso deve permitir subir. Mas o fracasso persistente também deveria permitir descer. Sem esta segunda metade, a meritocracia fica incompleta. E todos perdemos.
Não precisamos de menos elites
Existe uma tentação populista particularmente perigosa que consiste em transformar “as elites” numa categoria moral, como se o povo fosse virtuoso e as elites fossem necessariamente corruptas. Mas a realidade é bastante menos confortável.
As elites são constituídas por seres humanos sujeitos aos mesmos incentivos, enviesamentos, interesses, lealdades e tentações que todos os outros. A diferença é que as suas decisões têm consequências muito maiores.
É precisamente por isso que devemos exigir-lhes mais.
Mais competência.
Mais responsabilidade.
Mais prestação de contas.
Mais capacidade de pensar para além do próximo ciclo eleitoral, do próximo mandato ou da próxima nomeação.
Uma sociedade complexa precisa de elites políticas, científicas, económicas, administrativas, culturais, militares, académicas e intelectuais.
Não precisamos de destruir essas elites.
Precisamos, sim, de garantir que são suficientemente abertas para permitir a entrada dos melhores e suficientemente responsabilizadas para afastar aqueles que persistentemente falham.
Mas a qualidade das elites não depende apenas das virtudes individuais de quem as integra. Depende também de instituições que promovam a concorrência, limitem a captura, avaliem resultados e tornem possível substituir quem falha.
O problema, portanto, não é termos elites
Gostaria apenas que tivéssemos elites melhores.
Gostaria que Portugal tivesse elites mais competentes, mais exigentes consigo próprias, mais abertas à renovação e mais comprometidas com o futuro do país.
Elites que percebessem que ocupar posições de poder não é apenas uma recompensa pelo caminho percorrido. É, fundamentalmente, uma responsabilidade acrescida perante aqueles que não dispõem desse poder, ou seja, a maioria.
Existe uma relação profunda entre a qualidade das elites e a qualidade das instituições. E, naturalmente, entre a qualidade das instituições e a prosperidade das sociedades.
No fundo, os países não fracassam por terem elites. Todos os países as têm.
Fracassam quando as suas elites deixam de competir pela excelência e começam apenas a competir pela permanência.
Repito e termino como comecei. O problema não é termos elites.
É termos elites que já não precisam de provar que merecem sê-lo.
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