Obama em Lisboa: IA, democracia e farpas a Trump

“A democracia, na história da humanidade, é um piscar de olhos — uma ideia frágil que precisa de ser constantemente renovada.” O perigo dos discursos polarizadores e a emergência de movimentos autoritários na democracia deram o tom do discurso de Barack Obama, 44.º Presidente dos Estados Unidos da América e vencedor do prémio Nobel da Paz, em 2009, que, neste sábado, esteve no evento Game Changers, no Meo Arena, em Lisboa, 16 anos depois da última vez que tinha visitado a capital portuguesa. Com mais de 10 mil pessoas a assistir, recebeu uma ovação em pé da plateia.
Começando por notar que, “historicamente, quando há grandes perturbações, as pessoas sentem incerteza ou medo e tendem a recair no tribalismo, no nacionalismo extremo ou a culpar os imigrantes”, Obama explicou os perigos de uma política baseada em tribos, recorrendo ao exemplo da “história feia da Europa durante mil anos, que culminou na morte de 60 milhões e no Holocausto”.
As referências à Europa não se ficaram por aqui. Apesar de elogiar a ideia de uma União Europeia que diz ter “proporcionado à Europa os tempos mais prósperos que algum grupo de pessoas alguma vez viveu”, criticou a burocracia de Bruxelas e sugeriu que a demora em “fazer o mais simples” leva os cidadãos, que se queixam de a habitação estar mais cara e de que é difícil encontrar emprego, a “perderem a confiança”.
O antigo presidente norte-americano alertou que o não funcionamento dos governos democráticos, de uma forma eficiente, torna mais atrativa a ideia propagada pelos líderes autoritários de que “vão resolver os problemas quebrando as regras do sistema.”
Para solucionar este problema dos discursos polarizadores e do crescimento dos movimentos autoritários, salientou a necessidade de haver líderes políticos capazes de representar o seu próprio povo e de valorizar as suas tradições, cultura e história, mas que também saibam dizer: “Eu vejo-vos, a vocês que estão fora do meu país; sei que têm valor e acredito que partilhamos uma humanidade comum.”
Indiretas bem diretas a Trump
O antigo presidente norte-americano, que cumpriu dois mandatos entre 2009 e 2017 e acabou a passar o testemunho a Donald Trump (no seu primeiro mandato), aproveitou para analisar a política interna e deixar algumas críticas veladas ao atual chefe de Estado.
Numa altura em que os Estados Unidos vivem um momento político polarizado, entre os dois grandes partidos, democratas e republicanos, e com as eleições intercalares à porta, Barack Obama não se conteve em criticar o movimento e o slogan republicano de Trump “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente).
Agora como um autointitulado “treinador” do partido democrata e dos seus líderes políticos afirma que no movimento “MAGA” há quem tente reconfirmar as “velhas hierarquias”. O grande esforço em dizer que existe uma “América Real”, na realidade, é “uma nostalgia pelos dias em que as minorias raciais estavam caladas e as mulheres sabiam o seu lugar e deviam estar na cozinha”, afirmou Obama.
Ainda no plano interno, Barack Obama mostrou-se preocupado com o aumento de “políticos demagogos” que se aproveitam da frustração das pessoas para alimentarem a ideia de que há inimigos como os “imigrantes que querem tirar empregos”. Por isso, pediu líderes que permitam ter a confiança: “eu quero viver num mundo onde as minhas filhas têm as mesmas oportunidades que os meus filhos, onde não preciso de me sentir superior a ninguém.”
Mesmo sem pronunciar o nome do seu sucessor, Obama deixou uma farpa com enfoque na guerra no Médio Oriente, dando como exemplo a situação “difícil” com que se deparou, enquanto Presidente, em relação à Síria, numa altura em que Bashar al Hassad, antigo presidente sírio, “matava” o próprio povo. Teve de decidir avançar (ou não) com uma ofensiva na Síria para libertar o povo de Hassad. No entanto, à luz do direito internacional, essa incursão militar seria ilegal. Obama não avançou e Hassad só abandonou o cargo 13 anos depois, em 2024, quando fugiu para a Rússia.
Ao contar esta história, Obama acabou a deixar a farpa a Trump, afirmando que uma incursão militar sem ser por retaliação seria ilegal e que, segundo a Constituição norte-americana, tem de ter a aprovação do Congresso. Donald Trump iniciou a ofensiva no Irão sem a aprovação do Congresso norte-americano, utilizando a Lei de Poderes de Guerra de 1973 que permite ao presidente dos EUA um prazo estrito de 60 dias para conduzir ações militares no exterior sem o aval do parlamento.
Cuidado com a Inteligência Artificial
Na conversa de cerca de uma hora, no Meo Arena, Barack Obama virou-se também para os perigos da Inteligência Artificial na sociedade. Falou de uma tecnologia que evolui de uma forma muito rápida e que vai afetar trabalhos que julgávamos serem “protegidos” — advogados, contabilistas ou médicos — funções que, alertou, vão ser feitas por máquinas nos próximos 10 anos.
No entanto, acredita que há profissões que nunca vão ser substituídas como “professores ou cuidadores”. Profissões que Obama disse serem subvalorizadas, nomeadamente por serem historicamente desempenhadas por mulheres.
Para Obama, os governos não estão a conseguir acompanhar o desenvolvimento desta nova tecnologia, que se desenvolve “de três em três meses”, e que, por isso, é necessária regulação, a começar “idealmente” nos Estados Unidos. Mas, tendo em conta o avanço chinês na área, é “preciso coordenação entre China e Estados Unidos para a criação de um quadro regulatório”.
Alertou ainda para os perigos que a IA ao nível da segurança nacional e deu outros exemplos, como modelos de código aberto que qualquer pessoa pode descarregar para o seu computador e usar essa IA para invadir o sistema financeiro, o controlo de tráfego aéreo, ou até desenvolver uma nova pandemia. “Ainda não temos as barreiras de proteção necessárias.”
Há ainda críticas direcionadas aos líderes das grandes tecnológicas como a OpenAI, Anthropic, Grok, Meta, Google. Dizendo conhecer bem estes líderes, recordou que foi durante o início da sua presidência que estas empresas começaram a crescer. Lembra-se de Mark Zuckerberg (da Meta) como “uma criança que alguém tinha trazido” e de Elon Musk quando lançou o primeiro foguete da Space X. “São brilhantes numa perspetiva muito estreita, mas não leem romances, não ouvem música, nem pensam na literatura como algo tão importante para a civilização quanto o PIB” e que, portanto, são necessárias pessoas que tenham visões “mais abrangentes e empáticas”.
Jovens são necessários na política
No final do discurso, o foco para o antigo presidente de 65 anos passou a ser os jovens. Obama procurou puxá-los e influenciá-los a entrar na política. A retórica foi direcionada especialmente a uma crítica ao “idadismo”.
Começou por dar o exemplo de quando ainda estudava na faculdade e realizava comícios contra o apartheid na África do Sul. A primeira vez que discursou, fê-lo depois de ver dois rapazes sul-africanos que viajaram até aos Estados Unidos, com poucos meios, e pensou: “Se eles conseguem ter impacto, eu também consigo”.
Depois passou para um exemplo de quando chegou à Casa Branca. Nas salas de reuniões, os mais jovens costumavam sentar-se em cadeiras pequenas, na parte de trás da sala, a passar bilhetes para os chefes. Na primeira semana de trabalho decidiu virar-se para um desses jovens e perguntar — “e tu, o que achas?” — e acabou por descobrir que os jovens muitas vezes sabiam mais que os próprios chefes, pois faziam o trabalho todo dos superiores que apenas iam para as reuniões ler as notas que lhes eram dadas.
Obama quis também desmistificar o mundo dos adultos. Servindo-se de mais uma experiência pessoal, da altura em que chegou a representante local do estado de Illinois, pensava que a assembleia era muito parecida com a escola secundária mas que, quando “subisse de nível”, seria diferente. O problema, continuou, é que quando chegou ao Senado foi “exatamente igual”. Mesmo quando se tornou Presidente dos Estados Unidos e foi a uma reunião do G20, percebeu que até entre os líderes mundiais havia imaturidade e “parecia o secundário”.
Mesmo sobre a campanha eleitoral em 2008, Obama acredita que foram os jovens que colocou a fazer voluntariado em comunidades norte-americanas a vencer as eleições. Era no jovem de Nova Iorque que ia ao Estado de Iowa ajudar que se depositava a intenção de voto, ainda que fosse em Obama que se acabasse a depositar o voto.
Todas estas histórias serviram para Barack Obama passar a mensagem final do discurso de que a política precisa de mais jovens e que, com um mundo cada vez mais digital, “é necessário os mais novos assumirem-se na política, porque os velhos não sabem usar as redes sociais”.
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