Da pergunta sobre Deus a FHC à cadeirada de Datena: 5 debates que marcaram as eleições brasileiras

- Author, Pedro Martins
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
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Tempo de leitura: 9 min
A Globo promove na noite desta quinta-feira (1/10) o segundo e último debate entre os candidatos à Presidência da República antes do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para domingo (4/10).
Uma das discussões que têm marcado este pleito é a perda de relevância dos debates. Até agora, houve apenas um confronto, promovido pela Bandeirantes no início de setembro, sem a participação dos dois principais candidatos — o senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A ausência de Lula, inclusive, se estenderá ao debate da Globo, visto que o presidente confirmou à emissora nesta quarta-feira (30/9) que não vai participar do programa.
Mas os debates já desempenharam um papel vital. Em diferentes momentos da história recente do país, eles tiveram influência importante na forma como os eleitores avaliavam os candidatos e definiam suas preferências antes de ir às urnas.
Para relembrar cinco confrontos que ficaram na memória do país, a BBC News Brasil ouviu o analista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Para ele, a transformação mais importante aconteceu na própria função do debate. Na televisão das décadas de 1980 e 1990, havia mais espaço para discursos longos e confronto de ideias, ele diz, mas com a ascensão das redes sociais os candidatos passaram a disputar também a atenção dos algoritmos.
"Antigamente tinha muito mais informação, muito mais conteúdo. Óbvio, não havia redes, então os candidatos tinham um pouco mais de erudição e conhecimento. Aí os debates foram se perdendo ao longo dos últimos anos para praticamente virar um conjunto de cortes, de lacração e de memes", ele diz.
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Veja, abaixo, cinco debates que marcaram as eleições.

Crédito, Stephen Hilger/Bloomberg via Getty Images
1985: A pergunta que mostrou o papel da religiosidade na política
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Em 1985, as capitais brasileiras voltaram a eleger diretamente seus prefeitos depois de duas décadas de restrições impostas na ditadura militar.
Em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso liderava as pesquisas de intenções de voto e chegou a ser fotografado sentado na cadeira de prefeito antes da votação. Mas Jânio Quadros venceu o pleito por 39,33% a 35,80% dos votos.
Foi nesse contexto que, em um debate realizado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. O candidato evitou responder diretamente.
"É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, de alguém que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo. Devo dizer que esse nosso povo é religioso. Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou automaticamente abrindo uma chance para a crença em Deus."
A questão ganhou espaço nos últimos dias da campanha. A própria Fundação Fernando Henrique Cardoso registra que, além do debate, a fotografia do candidato sentado na cadeira do prefeito provocou uma reação negativa — Jânio, aliás, desinfetou a cadeira no dia de sua posse.
Para o analista Rodrigo Prando, o episódio é importante menos pelo que foi dito durante aquele debate do que pelo que ele passou a representar na política brasileira.
"É um caso muito nítido de um debate que acabou virando uma eleição e revela um traço duradouro na cultura política brasileira, que é a religiosidade como um critério de confiança no candidato."
Mas o debate também deixou uma lição para FHC. Anos depois, durante a campanha presidencial de 1994, ele passou a demonstrar publicamente sua ligação com a religião, lembra Prando.

Crédito, Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images
1989: Quando Brizola chamou Maluf de 'filhote da ditadura'
Quatro anos depois, os debates ocorriam em um cenário ainda mais simbólico: 1989 foi o ano da primeira eleição direta para presidente desde 1960.
Com 22 candidatos à Presidência, os confrontos tinham regras mais flexíveis que as atuais, inclusive a possibilidade de apartes, lembra Rodrigo Prando.
O primeiro debate presidencial televisivo da história do Brasil foi realizado pela Bandeirantes em 17 de julho e mediado pela jornalista Marília Gabriela. Meses depois, em um dos confrontos seguintes, Leonel Brizola e Paulo Maluf protagonizaram um dos momentos mais lembrados daquela campanha.
No debate de 16 de outubro, Maluf acusou Brizola de ser "desequilibrado" e recusou um aparte pedido pelo adversário. Brizola reagiu chamando-o de "filhote da ditadura".
Quando parte da plateia aplaudiu Maluf, Brizola respondeu chamando os presentes de "malufistas" e dizendo que haviam "engordado na ditadura". O embate acabou levando a mediadora a interromper o programa para um intervalo.

Crédito, Mauricio Lima/AFP via Getty Images
Brizola e Maluf acabariam fora do segundo turno. Brizola terminou em terceiro lugar, com 16,51% dos votos, apenas 0,68 ponto percentual atrás de Lula, que ficou com 17,19%.
Para Prando, no entanto, o peso daquela troca esteve no caráter histórico. Apenas quatro anos haviam se passado desde o fim do regime militar, e os candidatos ainda disputavam não apenas projetos para o futuro, mas também a interpretação do passado.
"Acaba mostrando uma expressão que entrou no vocabulário político-eleitoral brasileiro, que era um rótulo para quem se beneficiou do regime militar e acabou se acomodando na redemocratização", ele afirma.
"Acabou demonstrando que havia uma transição ainda, simbolicamente disputada, uma disputa no plano da memória."
1989: O debate Lula x Collor e o poder da TV para 'editar a realidade'
Ainda em 1989, outro debate entrou para a história — desta vez entre os dois candidatos que chegaram ao segundo turno, Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva.
Os dois se enfrentaram em um último confronto transmitido por um grupo que reunia Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT, em 14 de dezembro, três dias antes do segundo turno, realizado em 17 de dezembro.
No dia seguinte, a Globo exibiu resumos do debate no Jornal Hoje e no Jornal Nacional. A segunda edição provocou uma grande controvérsia nos últimos dias da campanha: a emissora foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, lembra Rodrigo Prando.
O PT chegou a recorrer ao TSE contra a Globo, pedindo a exibição de novos trechos do debate como direito de resposta.
O pedido foi negado, mas o episódio levou a própria emissora a rever sua forma de cobrir debates eleitorais. A emissora afirma, em sua seção dedicada a erros históricos, que a edição exibida no Jornal Nacional provocou "um inequívoco dano à imagem da Globo" e que, a partir dali, passou a adotar como norma a transmissão dos debates políticos na íntegra e ao vivo, sem edição.
"Um debate não pode ser tratado como uma partida de futebol, pois, no confronto de ideias, não há elementos objetivos comparáveis àqueles que, num jogo, permitem apontar um vencedor. Ao condensá-los, necessariamente bons e maus momentos dos candidatos ficarão fora, segundo a escolha de um editor ou um grupo de editores, e sempre haverá a possibilidade de um dos candidatos questionar a escolha dos trechos e se sentir prejudicado", diz o site oficial Memória Globo.

Crédito, Antonio Ribeiro/Gamma-Rapho via Getty Images
Collor venceu a eleição com 53,03% dos votos válidos, contra 46,97% de Lula.
O episódio permaneceu como um marco na discussão sobre a capacidade dos meios de comunicação de selecionar aquilo que chega ao eleitor, diz Prando. "É um debate que acaba sendo um marco fundador da discussão sobre o poder da mídia nas eleições nesse período histórico do Brasil, que é da Nova República."
A questão, segundo ele, permaneceu a mesma, embora o meio tenha mudado. "Quem controla a narrativa sobre o que o eleitor viu? Se lá foi um elemento veiculado, uma narrativa veiculada na televisão, hoje a narrativa é preponderantemente veiculada nas redes sociais."

Crédito, Paulo Fridman/Sygma via Getty Images
2022: Padre Kelmon e a fábrica de memes
Kelmon, praticamente sem expressão nas pesquisas de intenções de voto, passou boa parte do debate provocando Lula.
Mas seu confronto com Thronicke foi o que produziu um dos principais momentos virais: em um primeiro momento, a senadora questionou se Kelmon havia dado alguma extrema-unção durante a pandemia de covid-19.
Depois, ao retomar o assunto, disse que ele era um "padre de festa junina". A frase rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e virou um meme.
Na avaliação de Prando, o caso representa uma mudança no papel de candidatos sem perspectivas reais de vitória: eles podem funcionar como instrumentos de ataque e, ao mesmo tempo, produzir conteúdo para as redes.
"O primeiro fenômeno é o uso de candidatura sem viabilidade eleitoral nenhuma como instrumento tácito de ataque dentro do debate, com essa ideia de linha auxiliar", explica.
Lula e Bolsonaro avançaram ao segundo turno, enquanto Kelmon terminou a disputa com 0,07% dos votos válidos.
O episódio não é apontado por Prando como determinante para o resultado daquela eleição, mas como um ponto de inflexão na maneira como os confrontos passaram a ser pensados, assistidos e repercutidos.
"Você tem o debate virando uma fábrica de memes, em que o momento viral pesa mais do que a proposta", analisa o professor.

Crédito, Mauro Pimentel/AFP via Getty Images
2024: A cadeirada que consagrou a 'política como espetáculo'
Dois anos depois, a lógica dos memes deixou de se limitar à fala e chegou ao corpo. O episódio ocorreu na disputa pela Prefeitura de São Paulo, em uma campanha que tinha Ricardo Nunes, Guilherme Boulos e Pablo Marçal entre os principais candidatos e que, nas semanas anteriores, chegou a registrar um empate triplo nas pesquisas.
Marçal vinha se destacando por uma campanha marcada por provocações, confrontos com adversários e forte presença nas redes sociais, lembra Prando.
Em um debate na TV Cultura, depois de Marçal retomar uma denúncia de assédio sexual contra Datena e, em seguida, chamá-lo de "arregão", o apresentador pegou uma cadeira e atingiu o adversário.
Datena foi expulso do debate, enquanto Marçal deixou o local para receber atendimento médico.
No fim, Marçal terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 28,14% dos votos, apenas 0,93 ponto percentual atrás de Boulos. Para Prando, porém, a relevância da cadeirada vai muito além dos números.
"Esse debate marca para mim o ápice da política como espetáculo. A violência, que muitas vezes é um discurso duro, polarizado, muito violento, acabou entrando no palco na forma de uma agressão física", ele diz.

Crédito, TV Cultura
O episódio também condensou a lógica que, na visão dele, havia começado a aparecer nos debates de 2022: produzir uma cena que sobreviva ao próprio programa e possa ser recortada, compartilhada e reinterpretada nas redes.
É nessa transformação que Prando encontra o fio que liga os cinco episódios — e que chega ao debate da Globo desta quinta-feira.
Para ele, o desafio atual é preservar a capacidade do confronto eleitoral de revelar ideias e projetos em um ambiente no qual cada frase pode ser transformada em um vídeo de poucos segundos.
"Os debates são feitos para gerar recortes para as redes sociais e não necessariamente um conteúdo que permita você entender qual é a visão de mundo do político, qual é o seu projeto, quais são suas ideias", finaliza.
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