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Tuesday, September 15, 2026

"Montenegro siga Cavaco e veja que há ministros para sair"

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No arranque destas Jornadas Parlamentares focou-se muito nas reformas, em apresentar um caminho alternativo, mas também disse que esse caminho pode ter “custos eleitorais no curto prazo”. A IL, que até agora não conseguiu descolar em termos de votos, pode dar-se ao luxo de perder votos?
Não nos podemos dar ao luxo de não fazermos reformas e ficarmos à espera que as coisas mudem por si só. A política tem de ser vista com risco e termos a coragem de defender posições que, numa primeira instância, as pessoas precisem de tempo para perceber [porque], por natureza, somos avessos à mudança, temos um instinto de autopreservação, mesmo quando essa mudança é positiva. O que às vezes acontece com as reformas é que, no curto prazo, enquanto as pessoas ainda não percebem bem o que é que está em causa, pode haver uma postura de alguma reação a qualquer alteração. O que nos diferencia dos outros partidos é ter coragem para dizer que é importante fazer este caminho e temos de ser capazes de o explicar bem. Muitas vezes as reformas falham, não porque não sejam boas, mas porque foram mal explicadas e foram mal conduzidas. Aliás, a reforma do mercado laboral é um bom exemplo disso, era uma reforma importante, mas o processo foi mal conduzido e foi rejeitada. Temos de ser capazes de as propor, de as explicar e não ter receios que aquilo, no imediato, possa causar essa reação. Quando olharmos para trás, vamos perceber que valeu a pena, que o país está melhor, as pessoas estão melhor, têm melhores salários, conseguem lidar melhor com o custo de vida e que temos um país mais próspero a nível europeu.

Nesse discurso falou dos “empata-nação” e sugeriu que Luís Montenegro não quer verdadeiramente fazer reformas, reformar o país. Temos visto Pedro Passos Coelho a surgir neste contexto político a falar dessas reformas. O antigo primeiro-ministro tem o perfil certo? Seria bom esse regresso?
Usei o termo “maioria de empatas” porque, neste momento, a diferença mais do que esquerda ou direita está entre os partidos que querem deixar tudo como está, por diversos motivos — o Partido Socialista porque é da sua natureza, acha que o país está bem e não é preciso fazer nada e porque mudar seria reconhecer que fez muita coisa errada, dado que foi o partido que mais governou; o Chega porque cresce mais quando há mais problemas, quando o país está pior e o PSD, que disse que tinha uma vontade transformadora e reformista, mas até à data ainda não concretizou. E quando houve essa oportunidade, ainda agora com a reforma da Segurança Social, em que nomeou um grupo de trabalho para fazer um estudo profundo sobre a reforma da Segurança Social, esse estudo chegou e o que Luís Montenegro e o Governo disseram foi: vamos colocar isto na gaveta, não interessa agora. Por diversos motivos, temos uma maioria de empatas que andam a empatar a vida dos portugueses e empatar o país e temos a coragem para concretizar esta visão para Portugal. E ficamos muito satisfeitos que haja outras pessoas, noutros partidos, que comunguem desta mesma vontade. Ficamos satisfeitos que Pedro Passos Coelho, ou outro qualquer, partilhe connosco esta visão de que são necessárias reformas para mudarmos o país para melhor.

A IL não está resignada a ser um pouco vítima da sua própria estratégia, da ideia de que está sempre disponível para apoiar um governo do PSD?
Não estamos sempre disponíveis para apoiar um governo do PSD.

Já mostraram essa disponibilidade e continuam a mostrar essa disponibilidade.
Estamos disponíveis para aprovar ou para apoiar um governo transformador, reformista, que ajude a baixar a carga fiscal sobre os portugueses, que torne o país mais competitivo para atrair mais empresas, porque são essas empresas que vão fazer aumentar os salários, que queira fazer as reformas necessárias na saúde, para dar acesso à saúde, na justiça, na educação, na habitação. Nós apoiamos esse governo.

Não este governo de Luís Montenegro, portanto.
Apoiamos qualquer Governo que tenha essa capacidade reformadora. A questão é que, nesses últimos dois anos, o Governo não mostrou essa vontade. No início anunciou-a, é verdade, mas ainda não se fez absolutamente nada digno desse nome, de reformas. Enquanto isso não for feito, não há uma luz ao fundo do túnel. Não é imediato, não vamos conseguir transformar o país de hoje para amanhã. Não vai ser em 2028 ou 2027 que o país vai ser o país mais rico do mundo. Mas é possível trilhar um caminho em que Portugal se aproxima do resto dos países europeus. E isso requer reformas, essas reformas têm de ser feitas e até à data, este Governo, nos momentos em que teve a oportunidade de o fazer, colocou na gaveta.

Se o Governo está a governar assim tão mal, porque é que que a IL votou contra a moção de censura?
São questões completamente distintas. Uma coisa é governar, outra coisa é mudar o Estado. O Governo não está a mudar o Estado, está a governar no dia a dia, como António Costa governava. Isso é insuficiente, isso é navegação à vista. Vai-nos deixando andar, mas não vai resolver os problemas portugueses, não vamos ter um país melhor daqui a quatro, cinco ou seis anos, com as medidas que o Governo está, neste momento, a aplicar. Dito isto, respeitamos o mandato que foi atribuído pelos portugueses em 2025, a conceder uma maioria a este Governo. Preferíamos que tivesse sido atribuído à Iniciativa Liberal, não foi, respeitamos esse mandato do povo. O que estava em causa era a moção de censura e o ministro da Administração Interna. O Chega tentou alastrar esse tema para a legitimidade do Governo poder continuar a desempenhar as funções que lhe foram atribuídas pelos portugueses. Nós achamos que são discussões completamente distintas. Já dissemos que Luís Neves não tem condições para continuar e se a moção de censura fosse uma moção de censura a Luís Neves, obviamente que acompanharíamos, mas não era.

A abstenção não seria uma melhor forma de espelhar aquilo que tem sido a posição da Iniciativa Liberal?
Poderia ser uma posição válida, mas não sei se seria fácil de compreender. Veja-se o caso do PS, que no debate da moção de censura criticou duramente o Governo e disse que censurava tudo e todos e não estava limitado a Luís Neves. Estava a dizer que era tudo péssimo e que o Governo não tinha sequer legitimidade e não votou a favor. E depois criticou o oportunismo político do Chega e o populismo por estar a propor uma moção de censura a todo o Governo e não votou contra. Teve uma posição de abstenção que é uma posição indefinida, ou seja, muito duro nas palavras, mas depois nas ações foi um cordeiro, um carneiro, em pele de lobo. Isso pode ser difícil de explicar, mas é muito claro: temos de separar as águas, separar os assuntos. O que estava em causa era a atuação de Luís Neves enquanto diretor da Polícia Judiciária e também a título pessoal, não a atuação de todo o Governo. Obviamente que esta é a nossa posição agora, não sabemos o que vai acontecer daqui a seis meses. Pode haver uma sucessão de casos gravíssimos, que, de facto, tornam insustentável a continuidade do Governo. Mas o que estava em cima da mesa era a atuação do ministro da Administração Interna e não se o Governo tem legitimidade ou não para continuar a desempenhar o mandato que os portugueses, bem ou mal, lhe atribuíram.

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