Como manter o cérebro ativo na era da IA? Ciência aponta estratégias
O uso de ferramentas de inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de pessoas. Elas escrevem textos, resumem documentos, respondem perguntas e ajudam a resolver problemas em poucos segundos. Essa facilidade, porém, desperta uma preocupação entre especialistas sobre os efeitos da tecnologia no aprendizado e no pensamento crítico.
Uma análise publicada pela revista Nature reuniu pesquisas recentes e ouviu especialistas em educação e psicologia cognitiva para discutir o que já se sabe sobre o tema. As evidências disponíveis ainda são conflitantes, mas indicam caminhos para usar a tecnologia sem abandonar habilidades importantes para o raciocínio.
Por que a IA preocupa especialistas
Grande parte da preocupação está relacionada ao chamado esforço cognitivo. Aprender exige interpretar informações, formular hipóteses, resolver problemas, considerar alternativas e revisar erros. Quando essas etapas são transferidas para uma ferramenta, parte desse trabalho mental pode deixar de acontecer.
Daniel Willingham, psicólogo cognitivo da Universidade da Virgínia, explica que a aprendizagem ocorre como consequência do processamento cognitivo, que normalmente exige esforço.
Um levantamento realizado em 2025 com mais de mil professores dos Estados Unidos mostrou que 90% acreditavam que a IA generativa reduziria as habilidades de pensamento crítico dos estudantes.
Em outra pesquisa global, com mais de 8 mil participantes, cerca de 20% dos universitários que utilizavam IA disseram ter mais dificuldade para resolver problemas sem a tecnologia.
Ainda, um outro estudo de 2024 mostrou que alunos do ensino médio tiveram melhor desempenho em problemas matemáticos enquanto podiam utilizar uma IA generativa semelhante ao ChatGPT. Quando o acesso à ferramenta foi retirado, porém, o desempenho ficou abaixo daquele registrado entre estudantes que nunca haviam contado com esse auxílio.
Outros trabalhos encontraram benefícios quando a tecnologia foi utilizada de outra maneira. Ferramentas que oferecem feedback ou propõem tarefas capazes de estimular o raciocínio podem contribuir para a aprendizagem.
Como usar a IA sem deixar de pensar
Uma estratégia apontada pelos especialistas é refletir antes de consultar a ferramenta. Thomas Nygren, pesquisador da Universidade de Uppsala, incentiva seus alunos a analisar uma questão e elaborar argumentos próprios antes de recorrer à inteligência artificial.
A ideia é evitar que respostas automáticas substituam etapas importantes do raciocínio, como interpretar evidências, avaliar possibilidades e lidar com incertezas.
A tecnologia também pode assumir outro papel. Em vez de produzir uma solução completa, pode ser utilizada para oferecer feedback ou propor questões que exijam novas reflexões.
Estratégias para manter o cérebro ativo
Pesquisas sobre aprendizagem apontam práticas que ajudam a preservar o esforço intelectual mesmo diante da facilidade oferecida pelas novas ferramentas. Entre elas estão:
- tentar resolver problemas antes de consultar a IA;
- explicar conceitos com as próprias palavras, em voz alta ou por escrito;
- considerar soluções alternativas e pontos de vista diferentes;
- testar o próprio conhecimento sem consultar imediatamente as respostas;
- espaçar os estudos e recuperar informações de memória;
- usar a IA para receber feedback e estimular novas reflexões.
Outra abordagem é a metacognição, capacidade de pensar, planejar e acompanhar o próprio processo de aprendizagem. Uma revisão sistemática citada na análise apontou o ensino dessas estratégias como uma das abordagens mais eficazes para melhorar a aprendizagem nas escolas.
Respostas rápidas podem criar uma falsa sensação de aprendizado
Encontrar uma informação rapidamente não significa necessariamente que ela foi compreendida.
Um estudo de 2023 mostrou que pessoas que pesquisaram respostas online ficaram mais confiantes sobre sua capacidade de explicar determinados assuntos. Quando precisaram demonstrar esse conhecimento, porém, apresentaram menor precisão do que participantes que haviam apenas recebido as informações.
Tentar explicar um conteúdo sem consultar a resposta pode ajudar a identificar essa diferença. O exercício permite perceber quais pontos foram realmente compreendidos e onde ainda existem lacunas.
Checar informações também exige pensamento crítico
Outra habilidade importante é reconhecer conteúdos imprecisos ou enganosos na internet. Um estudo com quase 24 mil universitários nas Filipinas encontrou uma diferença entre confiança e desempenho. Cerca de 63% acreditavam conseguir identificar notícias falsas, mas apenas 26% conseguiam fazer isso de maneira confiável.
Uma estratégia utilizada para enfrentar o problema é a leitura lateral. Ao encontrar um site desconhecido, a pessoa deixa a página e procura informações sobre aquela fonte em outros locais confiáveis.
O método se aproxima do trabalho dos verificadores de fatos e reduz a dependência das informações apresentadas por uma única página.
O desafio de continuar pensando na era da IA
A inteligência artificial pode facilitar tarefas que antes exigiam mais tempo e esforço. O desafio está em aproveitar essa capacidade sem abandonar processos importantes para a aprendizagem.
Isso inclui recuperar informações de memória, construir argumentos próprios, considerar explicações alternativas e verificar a procedência de uma informação.
Em vez de recorrer automaticamente a uma resposta pronta, preservar algum grau de dificuldade pode ajudar a manter essas habilidades em exercício. Afinal, tornar uma tarefa mais rápida não significa necessariamente compreender melhor o assunto.
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