Em Portugal também se fala português

Entre a internacionalização e a crescente presença do inglês no mundo profissional, parece que nos esquecemos de uma coisa simples: em Portugal também se fala português.
Há uns dias — ou talvez semanas — deparei-me aqui com um artigo de um escritor ou jornalista português que fazia uma crítica pessoal, mas muito bem fundamentada, à falta de investimento didático e tecnológico em português europeu, nomeadamente em audiobooks e outras tecnologias semelhantes.
A questão levantada era simples, mas interessante: perante a predominância de conteúdos em português brasileiro, sobretudo dirigidos às crianças, estas acabam por incorporar expressões e palavras que não fazem parte do português que habitualmente se fala em Portugal. O autor dava exemplos como “geladeira” e “galera”, em vez de “frigorífico” e “malta”.
Quando li, concordei. E, enquanto escrevo isto, continuo a concordar.
No entanto, há algo que me intriga SEMPRE que entro no LinkedIn: esta necessidade incessante de publicar tudo em inglês, como se estivéssemos em Inglaterra ou nos Estados Unidos.
“Ah, mas, Gabriel, é uma questão de internacionalização. Se queremos chegar mais longe, temos de utilizar a língua franca.”
É vero. Não discordo.
O inglês é, sem dúvida, uma ferramenta importantíssima para a internacionalização profissional. Permite-nos comunicar com pessoas de diferentes países, ampliar redes de contactos e tornar determinadas experiências profissionais acessíveis a um público muito mais vasto. No LinkedIn, em particular, faz todo o sentido que exista.
Mas há uma coisa que me parece importante não esquecer: continuamos em Portugal, na terra de Camões, de Fernando Pessoa, de Eça de Queirós, de Afonso Henriques e de tantos outros que fizeram desta língua parte da nossa identidade cultural. Continuamos num país onde, quer queiramos quer não, se fala português — com as suas pronúncias, os seus sotaques, as suas expressões e, naturalmente, as suas particularidades.
E é precisamente aí que vejo a contradição.
Não se trata de ser contra o inglês. Muito pelo contrário. Trata-se de não transformar a utilização do inglês numa espécie de requisito obrigatório para parecer mais internacional, mais profissional ou mais relevante.
Assim sendo, concordo e entendo plenamente o uso do inglês como meio de alavancagem profissional, sobretudo no LinkedIn, que é uma rede social de natureza profissional e internacional. Porém, acho imprescindível que não se abandone o português.
As duas línguas podem perfeitamente coexistir. Um post pode ser escrito em português e, logo depois, apresentado em inglês. Uma conquista profissional pode ser partilhada nas duas línguas. Um anúncio de uma mudança de emprego, uma reflexão ou qualquer outro conteúdo pode chegar a ambos os públicos sem que, para isso, tenhamos de abdicar da nossa própria língua.
E, pessoalmente, continuo a achar que, estando em Portugal, o português deveria vir primeiro.
Não por nacionalismo linguístico. Não por rejeição do inglês. E muito menos por acreditar que uma língua é superior à outra.
Simplesmente porque internacionalizar não deveria significar apagar aquilo que já temos.
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