O custo de envelhecer: a conta bilionária da falta de prevenção em saúde no Brasil
O brasileiro está vivendo mais, mas o desafio agora é garantir que os anos adicionais de vida sejam acompanhados de saúde, autonomia e qualidade de vida.
Em um país que envelhece rapidamente, a falta de prevenção pode ter consequências que vão além da sobrecarga de hospitais e chegam à economia.
O Brasil tem hoje mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, um aumento de 56% em relação a 2010. Ao mesmo tempo, o avanço das doenças crônicas e a maior demanda por tratamentos pressionam um sistema de saúde que precisa atender uma população cada vez mais velha.
Essa transformação demográfica também tem um preço, e ele é alto. Um estudo realizado pela farmacêutica Pfizer, em parceria com a consultoria GO Associados, e obtido em primeira mão pela EXAME, estima que as mortes prematuras por quatro tipos de câncer provocaram perdas de R$ 45,7 bilhões em produtividade no Brasil entre 2012 e 2024.
O levantamento considera os cânceres de mama, próstata, pulmão e intestino e calcula o impacto econômico dos anos de trabalho perdidos pelas pessoas que morreram antes de completar sua vida produtiva.
Por outro lado, investimentos em prevenção, vacinação e diagnóstico precoce podem ajudar a reduzir mortes, internações e gastos assistenciais.
"O avanço da longevidade é uma conquista social importante, mas também traz novos desafios para os sistemas de saúde, que passam a conviver com maior prevalência de doenças crônicas, vulnerabilidade e infecções respiratórias", afirma Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil.
Quanto custa a falta de prevenção no Brasil
O impacto econômico das doenças aparece de diferentes formas. Além dos gastos com consultas, internações e tratamentos, há perdas relacionadas à produtividade, ao afastamento do trabalho e às mortes de pessoas que ainda estavam em idade ativa.
No caso do câncer, os pesquisadores identificaram 391,7 mil mortes em idade produtiva por tumores de mama, próstata, pulmão e intestino entre 2012 e 2024.
A perda econômica média estimada foi de R$ 116,6 mil por óbito, considerando a renda que essas pessoas poderiam gerar até os 65 anos. As faixas etárias de 40 a 59 anos concentraram 72,7% das perdas calculadas.
Embora o envelhecimento esteja associado ao aumento da incidência de câncer, os números do levantamento se referem especificamente às mortes prematuras em idade produtiva. O cálculo não representa gastos efetivos do sistema de saúde, mas "uma estimativa da riqueza que deixou de ser produzida".
A análise também considerou o impacto das desigualdades entre os sistemas público e privado de saúde.
Considerando apenas os cânceres de mama e próstata, a estimativa é de R$ 3,73 bilhões em perdas econômicas potencialmente evitáveis entre 2012 e 2024, caso os resultados de diagnóstico e tratamento no SUS se aproximassem dos observados na saúde suplementar.
Desse valor, R$ 2,15 bilhões estão relacionados ao câncer de mama e R$ 1,58 bilhão ao de próstata.
"Os resultados sugerem que o impacto do câncer vai além dos assistenciais, produzindo também efeitos relevantes sobre a produtividade e a economia", destaca Gesner Oliveira, professor da Fundação Getulio Vargas e sócio da GO Associados.
Segundo o executivo, ampliar o diagnóstico precoce, melhorar o acesso ao tratamento e reduzir desigualdades no atendimento são medidas que podem contribuir tanto para preservar vidas quanto para diminuir prejuízos econômicos.
Como a vacinação pode mudar a conta do envelhecimento
A prevenção também ganha importância quando o assunto são as doenças infecciosas, especialmente entre os idosos.
Com o avanço da idade, o organismo passa por um processo conhecido como imunossenescência, caracterizado pela redução gradual da capacidade de resposta do sistema imunológico. Na prática, isso aumenta a vulnerabilidade a infecções e a complicações que podem exigir hospitalização.
"Esse processo natural não só aumenta as chances de infecções, mas também agrava os casos e contribui para a mortalidade", explica Ribeiro.
Para dimensionar os possíveis benefícios econômicos da vacinação, os pesquisadores simularam um cenário de imunização de idosos contra doenças pneumocócicas, utilizando parâmetros de cobertura vacinal, eficácia e custo por dose.
No cenário de referência, com cobertura de 50%, eficácia de 45% contra hospitalizações e custo de R$ 100 por dose, o modelo estima que seria possível evitar cerca de 21,2 mil internações e 2,5 mil mortes por ano.
Os benefícios associados à redução de internações, óbitos, consultas e cuidados informais chegariam a R$ 165,8 milhões anuais. Descontados os custos estimados da vacinação, o saldo positivo seria de R$ 40,8 milhões por ano.
Isso significa que, nas condições consideradas, cada R$ 1 investido em vacinação poderia gerar aproximadamente R$ 1,30 em recursos financeiros.
"Os resultados reforçam que políticas preventivas podem gerar ganhos simultâneos para a população e para o sistema", complementa Oliveira.
O Brasil está preparado para viver mais
O envelhecimento da população revela uma lacuna para o financiamento da saúde. Com mais pessoas vivendo até idades avançadas, cresce a necessidade de acompanhamento contínuo, prevenção e tratamento de doenças crônicas.
Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil destina cerca de 6,1% de suas despesas correntes em saúde a ações de prevenção, percentual superior à média de 3,4% dos países da organização.
A diferença aparece quando se observa o volume total de recursos disponíveis. O gasto em saúde por habitante no Brasil é de US$ 1.898, enquanto a média da OCDE chega a US$ 5.987.
Isso significa que, embora a participação proporcional da prevenção seja maior, o país opera com um orçamento por pessoa significativamente inferior ao das economias mais desenvolvidas.
O desafio, portanto, não se limita a gastar mais, mas também envolve a forma como os recursos são distribuídos e utilizados ao longo da vida.
Na avaliação dos especialistas, ampliar a prevenção, melhorar o acesso ao diagnóstico e garantir tratamentos oportunos são caminhos para reduzir a pressão sobre os serviços de saúde e os impactos econômicos das doenças.
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