'Não podia calar': a luta de uma enfermeira contra o suicídio na Argentina

Sou enfermeira há muitos anos, mas até aquele momento nunca tinha atuado na área de saúde mental. Quando aconteceu com o Tadeo, meu primeiro impulso foi achar que ele tinha sido assassinado. Não entrava na minha cabeça. Não combinava com o temperamento dele, com o jeito de ele ser.
Essa é a primeira ilusão que precisamos quebrar: a sociedade ainda insiste em associar o suicídio unicamente a uma doença mental diagnosticada. Claro que transtornos existem e demandam tratamento, mas a maioria das pessoas que tiram a própria vida carrega um acúmulo insuportável de dores e sofrimentos. O suicídio não escolhe classe social; ele atinge a periferia e atinge famílias tradicionais e ricas. E não acontece por causa da "última coisa". Ninguém se mata porque foi despejado ou porque o namoro acabou. Aquilo é a gota d'água que faz transbordar um copo que já estava cheio.
A barreira do silêncio nas escolas
No começo, tentar falar de suicídio era dar murro em ponta de faca. Havia uma recusa sistemática. Lembro-me de sentar com diretoras e autoridades regionais de educação e ouvir delas: "Milagros, você só pode dar palestras para maiores de 18 anos".
Eu olhava para aquelas pessoas e pensava: "Vocês não ouviram que meu filho tinha 16 anos? Não sabem que em Chascomús até uma criança de 10 anos se suicidou?". É preciso ter um amor imenso e um controle emocional inacreditável para não se revoltar diante de tamanha frieza institucional, quando quem tem a responsabilidade de proteger crianças e adolescentes finge que o problema não existe.
As portas só começaram a se abrir de verdade quando a Lei Nacional de Prevenção ao Suicídio foi regulamentada, em setembro de 2021. A lei estabeleceu a obrigação de capacitar profissionais da educação, da justiça e da saúde, cobrou cobertura dos planos de saúde e deu legitimidade para que nós, das organizações comunitárias, entrássemos nas escolas para conversar diretamente com os alunos.
A fome e o peso invisível da economia
Sempre que visito as escolas, proponho uma dinâmica em que os jovens escrevem cartas anônimas desabafando o que sentem. Guardo caixas inteiras com esses relatos. Há uma carta que nunca me sai da cabeça: um garoto escreveu que queria morrer porque havia percebido que, quando a mãe dele dizia que já tinha comido ou que não estava com fome, era para deixar o prato para ele. Ele escreveu: "Sou apenas mais uma boca para alimentar".
As pessoas acham que adolescente só quer saber de festa, que não enxerga a realidade porque não trabalha. Isso é uma mentira cruel. O jovem sente o desespero financeiro da família na pele. E o pior: ele é um refém, porque depende inteiramente dos adultos para ter o que comer, o que calçar e materiais para estudar. Quando vê que os pais não dão conta, ele se culpa.
A crise econômica na Argentina e a fome têm papel devastador nisso tudo. Digo isso por experiência própria. Durante muito tempo eu tive três empregos como enfermeira para sustentar meus quatro filhos. Passava cinco dias seguidos fora de casa, emendando plantão diurno, noturno e fins de semana. Destruí a minha coluna — já passei por duas cirurgias — de tanto trabalhar. Eu achava que, quando meus filhos crescessem, nós finalmente teríamos aqueles domingos de mesa cheia reunidos. E foi justamente no auge dessa minha ausência forçada pelo trabalho e pela pandemia que o Tadeo se foi.
Hoje, aos 46 anos, continuo trabalhando exaustivamente e vejo que um salário inteiro mal cobre o aluguel de uma casa simples. Minha filha mais nova tem 15 anos, é uma aluna brilhante, tira notas 9 e 10, e já está contando os dias para fazer 16 anos e tentar uma vaga no McDonald's. Ela quer trabalhar porque vê a minha luta e sabe que tudo falta. Isso se repete em milhares de lares: os jovens largam os estudos para buscar qualquer renda, entram no subemprego precoce e ficam presos em um ciclo de desespero.
E não são apenas os jovens: vejo idosos e aposentados se jogando nos trilhos de trem na Grande Buenos Aires. Como não vão se desesperar se ganham 300 mil pesos [aproximadamente R$ 978] e um quarto em uma pensão com banheiro compartilhado custa 350 ou 400 mil (R$ 1.150 a R$ 1.300]?
Telas, apostas e o anestésico do consumo
Além da miséria material, vejo um agravamento profundo na solidão. Falta o olho no olho. E onde há dor sem acolhimento surgem fugas perigosas.
Nas palestras, sempre peço aos alunos que tenham cuidado com os consumos problemáticos: quando alguém está mal e recorre ao álcool ou a substâncias ilícitas para amortecer a dor, o efeito costuma ser o oposto — a depressão se mistura à impulsividade e destrói o filtro da vida.
Mais recentemente, estamos enfrentando a febre dos cassinos virtuais e das apostas online nas salas de aula. Minha filha me disse que colegas do segundo ano do ensino médio jogam em aplicativos de cassino durante as aulas. O trabalhador que não consegue pagar as contas busca o "milagre" da multiplicação na aposta e perde o pouco que tem; o adolescente, sem perspectiva, faz o mesmo e se afunda em dívidas. Todas essas vulnerabilidades — a fome, as apostas, a gravidez precoce, o desamparo — alimentam o mesmo abismo.
O amor ao outro como salvação
A vida me deu uma nova força há pouco mais de um mês: tornei-me avó. A minha netinha nasceu em 14 de setembro, exatamente um dia antes da data em que o Tadeo partiu há quatro anos. A partir de agora, todo mês de setembro também será celebrado com vida e recomeço.
Se há algo que aprendi nessa caminhada é que nos falta amor ao próximo. Não falo de religião ou dogma, mas de humanidade básica. As pessoas se fecharam em seus próprios umbigos. Se eu pensasse assim, diria: "Que me importa o filho do outro, se ninguém salvou o meu?". Mas faço exatamente o contrário.
Eu tenho um lema que repito por onde passo: cuidemos do filho do outro como gostaríamos que cuidassem do nosso.
Peço sempre aos pais que não briguem com seus filhos se eles desabafarem com uma vizinha, um amigo ou a mãe de um colega. Não encarem isso com orgulho ferido ou ciúme. Agradeçam que aquele jovem encontrou alguém com quem se abrir. Eu daria a minha vida para que alguém tivesse vindo até mim e dito: "Milagros, o Tadeo me falou algo preocupante, presta atenção nele". Nós precisamos quebrar os tabus, escutar sem julgar e lembrar que falar sobre a dor é o único caminho para salvar uma vida.
Reportagem
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